UM ABRAÇO AO MEU MOTORISTA
O relógio já anunciava um atraso recorde quando saltei da cama. Banho rápido, sem tempo para fazer a barba, café e cigarro no café do senhor António e, só depois, uma desagradável constatação: é dia de chuva molha-parvos. Decidi apanhar um táxi, mas primeiro impunha-se uma corrida pelos MB da zona para encontrar dinheiro. Aos meus ouvidos, os Rolling Stones declaravam-se seguidores do Diabo e marcavam o ritmo da primeira corrida do dia: de um lado para o outro, em busca de uma caixinha mágica, sem fila e sem o sinal que anuncia a impossibilidade de fazer levantamentos.
Entrei no carrinho amarelo e lembrei-me de um post do Ricky Rodriguez. Ouvia-se música sinfónica e entre os dois bancos da frente estava um livro, tão gasto como a camisa de flanela que o meu motorista (soa bem esta frase) vestia, que me alegrou o despertar: Balzac, A comédia Humana.
Nem em Paris ou Londres, onde a escolaridade e o índice de leitura de jornais é dez vezes superior ao nosso, deve ser usual apanhar um taxista – nome que normalmente uso para me referir ao meu motorista – que lê um livro com 3500 personagens.
Para grande pena minha, que gosto de falar de futebol sempre que o Sporting anda pelas ruas da amargura, não houve conversas, mas animei. Gosto de descobrir pequenos sinais de que Lisboa não é a cidade do Não ao Aborto, que não é por aqui que estão os eleitores do Cavaco ou os telespectadores que estão a empurrar o pequeno ditador para o topo da lista dos maiores portugueses. Gosto de me lembrar que foi por aqui que andou Fernando Pessoa, que foram estas ruas que apaixonaram o Wim Wenders e que foi entre as suas ruas que o pequeno ditador, e antes dele a monarquia, foram derrubados. Gosto de Lisboa.
Londres é cinzenta, Paris é iluminada, Berlim é acelerada, Madrid não tem água e Amesterdão tem frio demais. Lisboa pode pagar mal, pode estar cheia de pequenos portugueses e às vezes até pode obrigar a uma fuga rápida para uma praia semi-deserta, mas tem uma capacidade mágica de nos fazer viajar sem sair do local. Descer a encosta do Castelo, subir até ao Bairro Alto para beber a melhor cerveja morta do mundo, ir ao Lux cheirar um bocadinho de Nova Iorque ou correr pela baixa pombalina com os olhos postos no rio são viagens que eu não consigo dispensar. É a cidade onde tanto se pode ouvir o saxofone do John Coltrane em gritos graves ou a mais feliz das composições do Count Basie, é nas suas ruas que tanto se podem cantarolar as mais psicadélicas músicas dos Beatles como relembrar os velhos tempos do liceu Camões ao som dos Nirvana. Uma cidade onde tanto Paredes como o Mário Laginha jogam em casa tinha de ser a minha. É a cidade do meu Benfica. É a cidade onde um taxista, perdão, onde o meu motorista me fez pensar e me animou o dia. Um abraço ao meu motorista.
[O post é do Filipe Garcia. Conheci-o em Ranholas, quando ele chegou à Focus e se sentou à minha frente, na única secretária disponível, e veio pôr em causa o meu estatuto privilegiado de eremita na redacção. Logo nesse dia, ouviu o meu editor gritar comigo porque eu tinha chegado tarde. No dia seguinte, viu-me chegar tarde novamente. E no outro dia também. Percebeu logo o tipo de jagunço que tinha por diante e, provavelmente por isso, lá se foi revelante. O Fil é amante da música, benfiquista convicto, passageiro frequente do Bairro Alto e da blogosfera, homem das letras com veia para a reportagem. E bom amigo, obviamente. É ele que inaugura a nova rúbrica do arranha-céus, Janela com vista, em formato de post convidado. Assim escreve o homem que mais cigarros fumava à chuva, em dias de fecho da revista, no exterior de um edifício espelhado no fim do IC19]
23.2.07
Pensamentos itinerantes
A meio da Avenida Almirante Reis, entre a cervejaria Portugália e o centro comercial com o mesmo nome, há uma espécie de vão de escada onde vivem sete sem-abrigo. Vieram todos do Leste da Europa - cinco ucranianos, dois romenos - e fazem-me pensar se a Cortina de Ferro caiu mesmo ou não foi mais do que a ilusão globalizada de um muro em ruínas. Entraram em Portugal ilegais, trabalharam nas obras com salários vergonhosos e sem regalias sociais, foram despejados das casas que alugaram e partilham aquela aldeia de cartão e plástico mesmo no centro da urbe. Estranha comunidade desolada, quotidianos afogados em solidão, muito vinho a aquecer as noites frias da Lisboa invernal.
O centro comercial Portugália é um cenário tão desolador quanto o da aldeia de cartão e plástico. Lojas vazias, um café decrépito, um cabeleireiro africano escondido na sub-cave, um «Independente» falido no oitavo andar. Mas são vistas estáticas, imutáveis, não fosse o pó que se vai acumulando no interior das montras cheias de coisa nenhuma.
Os sem-abrigo, pelo contrário, são a metáfora da condição nómada da raça humana. Caçadores-recolectores de caixotes de lixo e sobras dos outros, preparados para mudar a localização da tribo assim que o mundo lhes exija que se escondam dos olhares dos outros. E, no fundo, nada os prende. Edificaram uma cidade gasosa no meio da cidade de betão e placa.
Há três ou quatro noites seguidas que não durmo em casa. Ando com uma mochila com o que considero essencial - duas mudas de roupa, escova e pasta de dentes, a cera para o cabelo. Ou seja, ando a fazer o meu próprio ensaio nómada, a dormir em casa de amigas, jantar em casa de amigos, visitar a família, registo non-stop. É um interrail urbano, este. Provocar a sensação das férias [andar, seguir, avançar, não há amarras] em quotidiano de rotinas. Quebrá-las, então, ou simular que sim.
É que entre viver numa aldeia de cartão e plástico no meio da urbe de betão ou sentir-me montra de loja que se enche de pó prefiro a primeira. Sentir-me sem-abrigo, em constante viagem. É o meu defeito de fabrico, o meu erro genético. Ou então é só porque não saio de Portugal há cinco meses.
O centro comercial Portugália é um cenário tão desolador quanto o da aldeia de cartão e plástico. Lojas vazias, um café decrépito, um cabeleireiro africano escondido na sub-cave, um «Independente» falido no oitavo andar. Mas são vistas estáticas, imutáveis, não fosse o pó que se vai acumulando no interior das montras cheias de coisa nenhuma.
Os sem-abrigo, pelo contrário, são a metáfora da condição nómada da raça humana. Caçadores-recolectores de caixotes de lixo e sobras dos outros, preparados para mudar a localização da tribo assim que o mundo lhes exija que se escondam dos olhares dos outros. E, no fundo, nada os prende. Edificaram uma cidade gasosa no meio da cidade de betão e placa.
Há três ou quatro noites seguidas que não durmo em casa. Ando com uma mochila com o que considero essencial - duas mudas de roupa, escova e pasta de dentes, a cera para o cabelo. Ou seja, ando a fazer o meu próprio ensaio nómada, a dormir em casa de amigas, jantar em casa de amigos, visitar a família, registo non-stop. É um interrail urbano, este. Provocar a sensação das férias [andar, seguir, avançar, não há amarras] em quotidiano de rotinas. Quebrá-las, então, ou simular que sim.
É que entre viver numa aldeia de cartão e plástico no meio da urbe de betão ou sentir-me montra de loja que se enche de pó prefiro a primeira. Sentir-me sem-abrigo, em constante viagem. É o meu defeito de fabrico, o meu erro genético. Ou então é só porque não saio de Portugal há cinco meses.
22.2.07
Rebenta a bolha
Nitidamente sou da geração de 70. E ainda bem, porque eu e os outros da segunda metade da década crescemos com algum do sistema de valores dos tipos que apanharam com o 25 de Abril em cima, mas não nos lixámos tanto como eles [o nacional-porreirismo dos que eram teenagers nos 80's descambou em muita droga, pouca acção, alguma desilusão e um peculiar desconsolo social]. Fomos os últimos a ir brincar «lá para baixo», que é como quem diz na rua - as miúdas a saltar ao elástico, os rapazes a jogar ao guelas, quem tivesse o maior abafador era rei do recreio, todos a partilhar sirumba e futebol humano, escondidas, apanhada, o máta. E fomos os últimos com três disciplinas no 12º ano, a ter que levar aquelas horrorosas sapatilhas brancas para as aulas de educação física, a saber de cor as letras do Zeca Afonso.
O meu irmão mais novo, de 1982, tem uma opinião menos saudosista, zomba do estilo «no meu tempo é que era bom». Diz ele que quem nasceu nos 70's é normalmente «enrezinado», «parece que lhes devem e não lhes pagam». Mas lá admite que somos uma geração equilibrada, os tais que fazem reciclagem, votam, discutem política, cresceram com a obsessão do objectivo de vida e estão mais ou menos cientes de que é preciso tomar opções, definir um rumo. Eles não, são mais go with the flow. «Nós temos mais acesso à informação do que vocês mas somos menos informados em termos gerais, e mais em interesses particulares», sentencia o David. Concordo. E continuo a preferir a idade que tenho.
No entanto, na última semana, estas certezas ficaram subitamente abaladas pela dificuldade em transitar a velha conta de blogger para a nova versão. Acabei por demorar vários dias a conseguir alcançar o sucesso da conversão e não pude fazer laboratório ao mundo através da minha janela na América. A resolução do drama só ocorreu com a ajuda de um dos inaptos da nova geração, esses que nasceram depois de 1980, não sabem nada, têm interesses particulares e nem se dão ao trabalho de ter cartão de eleitor. Pois bem, não sabem nada, mas transitaram-me a conta em menos de um minuto, devolveram-me ar para respirar e salvaram este blog da perdição certa.
Se calhar, tenho que reequacionar os meus conceitos geracionais.
PS: A partir da próxima semana abre uma nova rúbrica no arranha-céus chamada Janela com vista. Basicamente serão posts convidados de amigos, companheiros de viagem, de profissão, da blogosfera. Ou outros. Wait and see!
O meu irmão mais novo, de 1982, tem uma opinião menos saudosista, zomba do estilo «no meu tempo é que era bom». Diz ele que quem nasceu nos 70's é normalmente «enrezinado», «parece que lhes devem e não lhes pagam». Mas lá admite que somos uma geração equilibrada, os tais que fazem reciclagem, votam, discutem política, cresceram com a obsessão do objectivo de vida e estão mais ou menos cientes de que é preciso tomar opções, definir um rumo. Eles não, são mais go with the flow. «Nós temos mais acesso à informação do que vocês mas somos menos informados em termos gerais, e mais em interesses particulares», sentencia o David. Concordo. E continuo a preferir a idade que tenho.
No entanto, na última semana, estas certezas ficaram subitamente abaladas pela dificuldade em transitar a velha conta de blogger para a nova versão. Acabei por demorar vários dias a conseguir alcançar o sucesso da conversão e não pude fazer laboratório ao mundo através da minha janela na América. A resolução do drama só ocorreu com a ajuda de um dos inaptos da nova geração, esses que nasceram depois de 1980, não sabem nada, têm interesses particulares e nem se dão ao trabalho de ter cartão de eleitor. Pois bem, não sabem nada, mas transitaram-me a conta em menos de um minuto, devolveram-me ar para respirar e salvaram este blog da perdição certa.
Se calhar, tenho que reequacionar os meus conceitos geracionais.
PS: A partir da próxima semana abre uma nova rúbrica no arranha-céus chamada Janela com vista. Basicamente serão posts convidados de amigos, companheiros de viagem, de profissão, da blogosfera. Ou outros. Wait and see!
14.2.07
Amor errante
São Valentim o tanas, que nunca gostei deste dia. A obrigação de ir jantar fora, andar de mãos dadas, demonstrar a horas marcadas que gosto de ti. Quando te levei à praia e fiz-te um jantar de vinho e queijos e velas enterradas na areia não era Fevereiro, mas também estava um frio de rachar. Quando fugiamos para fazer amor em sítios improváveis era a espontaneidade que nos fazia rir. Quando combinávamos encontros em países estrangeiros, íamos para a serra admirar paisagens abraçados, quando andávamos a tocar às campaínhas e depois fugir como se fossemos miúdos, era dia dos namorados?
9.2.07
O último round
Estreou ontem «Rocky Balboa», última sequela da saga de Sylvester Stallone sobre um pugilista pobre que trabalha num talho e, ao longo dos anos, iguala o campeão do mundo, depois bate-o, ainda o vinga e salva o mundo da ameaça soviética em dois ou três socos enluvados. Rocky está de volta. Tenham muito medo.
Gosto de passar a noite dos Oscars em claro a estudar reacções de nomeados quando são entregues os prémios [incluindo as categorias a que ninguém liga nenhuma]. Acho inclusivamente que, nos últimos anos, algo mudou em Hollywood. Filmes como o «Crash», o «Lost In Translation» ou o «Magnolia» são hoje alvo de olhares atentos e acumulam estatuetas, quando antes estariam à partida arredados da principal competição. Pode ser culpa do 11 de Setembro. Pode ser que os atentados terroristas tenham posto a América a pensar.
Estive em Hollywood há uns anos, já depois da hecatombe terrorista. Passeios pela Mulholand Drive, copos em Hollywood Boulevard [um concerto no mítico Roxy e, depois disso, um convite para uma festa privada. Champanhe, beautifull people, champanhe], ver as lojas de Rodeo Drive e Beverly Hills e visitar os principais estúdios. No parque de diversões da Universal Studios havia carrocéis do «Jurrasic Park», simulações de ataque do «Tubarão», uma trip em realidade virtual do «Regresso ao Futuro», entre muitas outras emoções fabricadas. Viajava num grupo de jornalistas portugueses e espanhóis. O guia, americano frustrado com um sonho de Hollywood não concretizado, passou-se por não ligarmos nenhuma às principais atracções, mas ficarmos absolutamente tresloucados ao vermos o Motel Bates do «Psycho». E, numa loja, canecas com a silhueta de Rocky, um dos mitos de Hollywood. Goste-se ou não, o filme marcou uma era.
«Rocky» ganhou o Oscar de melhor filme em 1976, ano do meu nascimento. Lamento o facto, sinceramente. Preferia que tivesse sido o «Taxi Driver» ou «Os Homens do Presidente», ambos do mesmo ano [sobretudo o primeiro]. Mas a fórmula de sucesso foi a do pugilista. De certeza por um frase profunda, exclamada em tom guturral, que Stallone inscreveu na memorabilia das citações de Hollywood:
«If I can change, you can change, everybody can change!»
[Tenham muito medo, ele voltou.]
Gosto de passar a noite dos Oscars em claro a estudar reacções de nomeados quando são entregues os prémios [incluindo as categorias a que ninguém liga nenhuma]. Acho inclusivamente que, nos últimos anos, algo mudou em Hollywood. Filmes como o «Crash», o «Lost In Translation» ou o «Magnolia» são hoje alvo de olhares atentos e acumulam estatuetas, quando antes estariam à partida arredados da principal competição. Pode ser culpa do 11 de Setembro. Pode ser que os atentados terroristas tenham posto a América a pensar.
Estive em Hollywood há uns anos, já depois da hecatombe terrorista. Passeios pela Mulholand Drive, copos em Hollywood Boulevard [um concerto no mítico Roxy e, depois disso, um convite para uma festa privada. Champanhe, beautifull people, champanhe], ver as lojas de Rodeo Drive e Beverly Hills e visitar os principais estúdios. No parque de diversões da Universal Studios havia carrocéis do «Jurrasic Park», simulações de ataque do «Tubarão», uma trip em realidade virtual do «Regresso ao Futuro», entre muitas outras emoções fabricadas. Viajava num grupo de jornalistas portugueses e espanhóis. O guia, americano frustrado com um sonho de Hollywood não concretizado, passou-se por não ligarmos nenhuma às principais atracções, mas ficarmos absolutamente tresloucados ao vermos o Motel Bates do «Psycho». E, numa loja, canecas com a silhueta de Rocky, um dos mitos de Hollywood. Goste-se ou não, o filme marcou uma era.
«Rocky» ganhou o Oscar de melhor filme em 1976, ano do meu nascimento. Lamento o facto, sinceramente. Preferia que tivesse sido o «Taxi Driver» ou «Os Homens do Presidente», ambos do mesmo ano [sobretudo o primeiro]. Mas a fórmula de sucesso foi a do pugilista. De certeza por um frase profunda, exclamada em tom guturral, que Stallone inscreveu na memorabilia das citações de Hollywood:
«If I can change, you can change, everybody can change!»
[Tenham muito medo, ele voltou.]
8.2.07
O meu improvável vizinho

O Modigliani mora no meu prédio, e juro que isto é verdade. Eu sei que os livros da Taschen desmentem-me, garantem que o pintor morreu em Paris a 24 de Janeiro de 1920, mas eu tenho provas de que ele vive na América.
Junto à porta de entrada no arranha-céus - dez pisos de laboratório sobre Lisboa - há duas pinturas dele cobertas de tinta cor de tijolo. Pura arte assassinada, disfarçada de parede. Mas esses são só os desenhos escondidos, porque contornando o cubículo do elevador, ainda no exterior do edifício, encontram-se duas mulheres de Modigliani pintadas sobre os caixotes do lixo. Os rostos elípticos e alongados, os cabelos escorridos, linhas simples, de cores equilibradas, nús femininos, os olhos sem pupilas - são cunho do italiano Amedeo.
Nas escadarias que ninguém utiliza há mais exposição artística. A porta do primeiro piso, trancada há anos por uma fechadura sem puxador, tem outra imagem de sedução de Modigliani impressa a óleo na madeira. Por isso é que, quando me sobra tempo, prefiro descer as escadas a pé [descer apenas, porque o décimo piso é voo para as alturas] e cumprimentar as senhoras grafitadas, damas de gestos contidos e formas longas, fidalgas de início de século, que encontro na passada dos degraus. «Bom dia, bom dia», e a fúria renitente das formas a pousarem um esgar no curto encontro do dia.
Calculo que os meus vizinhos prefiram usar o elevador. Mas insisto na descida esforçada, não vão tantas mulheres sentirem-se sozinhas.
6.2.07
Sim!
Hoje pendurei um cartaz do SIM por trás da minha secretária. Ao mesmo tempo, o meu colega Pedro passou uma música no computador dele: «No, no, no, no... you don't love me and I know now». Merda, não há coincidências. À medida que os dias de campanha passam, as sondagens, tal como esperava, estão a aproximar as tendências de voto no referendo sobre a legalização do aborto. Tenho algum receio de que se repita o pesadelo de 1998 e a Igreja consiga exercer o seu lobby injusto ao ponto do referendo não passar. Outra vez.
Uma rapariga que conheço, muito activa numa paróquia lisboeta e que vai votar sim no próximo referendo, foi a uma reunião do Conselho Pastoral onde a ordem de trabalhos era, basicamente, a de lançar uma campanha agressiva pelo não. Ela disse que não queria participar, visto ter uma posição discordante. E, subitamente, o assunto excomunhão veio parar à mesa. Sem forças para lutar, a rapariga cedeu e está agora a fazer campanha pelo não. Mas no dia 11 vai votar sim. Isto é uma violência psicológica atroz [e a maior culpada é ela, que se sujeita a isso].
Este fim de semana, no jornal :2, a Cecília Carmo convidou dois correspondentes estrangeiros em Portugal para comentar o referendo sobre a IVG. Uma tipa da Rádio Paris-Lisbonne, muito digna, e um repórter da TVE, muito parvo. Ela tentou fazer uma abordagem jornalística do tema, sem dar opinião e avaliou o peso da Igreja católica como factor decisivo para o avanço do Não. Ele disse que achava impressionante que esta questão se colocasse na Europa em plena século XXI, que demonstrava alguma tacanhez e provincianismo da sociedade portuguesa e que, em Espanha, a questão já não se colocava.
Concordo com a tipa da Paris-Lisbonne. No entanto, não gosto nada de ouvir a sociedade portuguesa ser chamada de provinciana e tacanha por um cidadão espanhol. A comparação com o seu país de origem é típica - a maior parte dos nossos vizinhos revelam-se egocêntricos inchados sempre que analisam um contexto internacional que não compreendem muito bem. Mas, no fundo, assino por baixo o que ele disse. Muito deste Portugal do Não parece-me pequenino e contido, herdeiro de um salarizarismo que era tudo menos laico, temente, crente, obediente ao senhor cura, «pois ele é que sabe dessas coisas, então!»
Hoje pendurei um cartaz do SIM por trás da minha secretária. E convenci a minha mãe a ir votar [a última vez que o fez foi nas segundas presidenciais do Soares] no domingo. O aborto tem de passar e o país tem de ser menos tacanho. Como disse o irritante jornalista espanhol.
Uma rapariga que conheço, muito activa numa paróquia lisboeta e que vai votar sim no próximo referendo, foi a uma reunião do Conselho Pastoral onde a ordem de trabalhos era, basicamente, a de lançar uma campanha agressiva pelo não. Ela disse que não queria participar, visto ter uma posição discordante. E, subitamente, o assunto excomunhão veio parar à mesa. Sem forças para lutar, a rapariga cedeu e está agora a fazer campanha pelo não. Mas no dia 11 vai votar sim. Isto é uma violência psicológica atroz [e a maior culpada é ela, que se sujeita a isso].
Este fim de semana, no jornal :2, a Cecília Carmo convidou dois correspondentes estrangeiros em Portugal para comentar o referendo sobre a IVG. Uma tipa da Rádio Paris-Lisbonne, muito digna, e um repórter da TVE, muito parvo. Ela tentou fazer uma abordagem jornalística do tema, sem dar opinião e avaliou o peso da Igreja católica como factor decisivo para o avanço do Não. Ele disse que achava impressionante que esta questão se colocasse na Europa em plena século XXI, que demonstrava alguma tacanhez e provincianismo da sociedade portuguesa e que, em Espanha, a questão já não se colocava.
Concordo com a tipa da Paris-Lisbonne. No entanto, não gosto nada de ouvir a sociedade portuguesa ser chamada de provinciana e tacanha por um cidadão espanhol. A comparação com o seu país de origem é típica - a maior parte dos nossos vizinhos revelam-se egocêntricos inchados sempre que analisam um contexto internacional que não compreendem muito bem. Mas, no fundo, assino por baixo o que ele disse. Muito deste Portugal do Não parece-me pequenino e contido, herdeiro de um salarizarismo que era tudo menos laico, temente, crente, obediente ao senhor cura, «pois ele é que sabe dessas coisas, então!»
Hoje pendurei um cartaz do SIM por trás da minha secretária. E convenci a minha mãe a ir votar [a última vez que o fez foi nas segundas presidenciais do Soares] no domingo. O aborto tem de passar e o país tem de ser menos tacanho. Como disse o irritante jornalista espanhol.
Gira-discos
É curioso como a escrita é um processo unidireccional. Desde que cheguei da Invicta passei os dias de volta de uma reportagem que entreguei ontem e, durante esse tempo, apesar de ter inúmeras ideias para dedilhar no blog, não fui capaz de utilizar um dos hemisférios do cérebro para escrever aqui e o outro para criar o artigo. Das duas uma: ou os meus miolos funcionam em registo mono, ou o esforço de caligrafia é um processo stereo.
Sexta à noite, depois de ir à Luz ver o Benfica sofrer, a Dina levou-me a jantar na Bica e a um concerto no Lounge. Gosto do Lounge, já não punha lá os pés há imenso tempo. Papel de parede rosa, uma bola de espelhos num canto do tecto, as cadeiras e os sofás em estilo sala de espera de aeroporto, regra geral bom som. E, na última visita, casa cheia para assisitir ao espectáculo.
Tocha-Pestana definem-se como um duo ligeira de música electropimba. «Falha no acorde mas acerta no coração» é o lema dos rapazes. A mim, a sonoridade pareceu-me genial. Qualquer coisa entre o retro-punk, o pop-neon e a música de carrinhos de choque. Na voz, textos e efeitos está o Tocha, na guitarra, beats e hits o Pestana. Ambos com cabelos e roupagem ao melhor estilo Toni Silva, o bigodinho da praxe, a postura cantor romântico. E refrões densos: «Plástico é fantástico», «Pratico a minha fé, eu venho ao Cais Sodré», «Lisboa boa» e lírica do género. Fabuloso concerto. Obrigado, Dina.
Sexta à noite, depois de ir à Luz ver o Benfica sofrer, a Dina levou-me a jantar na Bica e a um concerto no Lounge. Gosto do Lounge, já não punha lá os pés há imenso tempo. Papel de parede rosa, uma bola de espelhos num canto do tecto, as cadeiras e os sofás em estilo sala de espera de aeroporto, regra geral bom som. E, na última visita, casa cheia para assisitir ao espectáculo.
Tocha-Pestana definem-se como um duo ligeira de música electropimba. «Falha no acorde mas acerta no coração» é o lema dos rapazes. A mim, a sonoridade pareceu-me genial. Qualquer coisa entre o retro-punk, o pop-neon e a música de carrinhos de choque. Na voz, textos e efeitos está o Tocha, na guitarra, beats e hits o Pestana. Ambos com cabelos e roupagem ao melhor estilo Toni Silva, o bigodinho da praxe, a postura cantor romântico. E refrões densos: «Plástico é fantástico», «Pratico a minha fé, eu venho ao Cais Sodré», «Lisboa boa» e lírica do género. Fabuloso concerto. Obrigado, Dina.
30.1.07
Taxi Driver
Ainda que me tenha proposto todos os fins de noite que passei no Porto a ir visitar a Casa da Música na manhã seguinte, a verdade é que só observei a estrutura a partir do exterior e nunca consegui pôr um pé lá dentro. Voltarei a 25 de Fevereiro, propositadamente para ver um concerto do McCoy, pianista do Coltrane, e chegarei mais cedo para analisar a arquitectura interior [espero que a Paulinha possa vir comigo ajudar-me a desconstruir os pormenores do edifício].
Regresso a Lisboa e noto logo que aqui em baixo está mais frio. Ou então são as saudades de juntar o quintento maravilha. Eu, o Jordi, a Helena, o Miguel e a Paula quase formámos na Invicta um daqueles grupos de amigos da adolescência que todos os dias vão beber café às nove e meia da noite, só que no nosso caso o encontro era tardio, invariavelmente no Passos Manuel [brilhante bar, onda musical muito parecida ao Incógnito, mas com melhor pinta e sem o D'Artagnan à porta], e faço o destaque a um grande evento que lá se passou este sábado - a Festa Oportunista da Matéria Prima - esquizo qb, com Cure, Smiths e muito eighties em som de fundo, mais uns passos de dança e um barril de cerveja, pelo menos, para cada um.
Quando se conhecem alguns bons portuenses, o Porto pode ser uma experiência fantástica. Não é cidade melosa e envergonhada como Lisboa, embalo feminino, de voz doce mas prudente. É antes rude, com doses idênticas de agressividade e sinceridade, urbe masculina, tão dura quanto acolhedora, é próxima das pessoas, mostra-se em vez de se esconder.
Na quinta passada, quando apanhámos um táxi para a esquina da rua Formosa com a Sá da Bandeira, pedi ao condutor para subir a partir da Praça D. João I porque a rua Passos Manuel estava em obras. Ele pareceu ficar perplexo por um tipo com sotaque lisboeta conhecer a Invicta, o detalhe de uma calçada esburacada, o sentido oportunista do trânsito, da matéria prima. «Bocês son de Lisboua, num son?» Somos sim senhor, não dá para disfarçar. Mas ele gostou que conhecessemos o Porto, falou da família e dos netos, que a mais velha, que tem doze, anda cheia de ciúmes da «canalha de três e quatro anos», que se o Pinto da Costa tiver de ser preso «paciência, o que é preciso é seriedade», mas depois isto parece-lhe uma cabala dos morcões do Sul, «mas sem ofensa. É do Benfica?» Sou. «Eu do Porto, isto é preciso é haver respeito, ou num é?»
E hoje meto-me num táxi para vir à redacção e compreendo de imediato o contraste da história das cidades. O condutor não soltou uma palavra, nem mesmo quando lhe desejei uma boa semana. Estava a fumar cachimbo e, no semáforo do Areeiro, que nem um minuto faz parar o trânsito, abriu um livro de Balzac e pôs-se a lê-lo, ansioso, em ritmo devorador. No leitor de CD's uma sinfonia de Schubert - penso que a número sete, tal a onda dramática - e nem um sorriso no olhar de hábitos intelectuais.
Percebo de imediato que Lisboa é europeia e civilizada, enquanto o Porto é mais provinciano e efusivo. E nisto, dou por mim a olhar para o calendário. A contar os dias para voltar ao Norte.
Regresso a Lisboa e noto logo que aqui em baixo está mais frio. Ou então são as saudades de juntar o quintento maravilha. Eu, o Jordi, a Helena, o Miguel e a Paula quase formámos na Invicta um daqueles grupos de amigos da adolescência que todos os dias vão beber café às nove e meia da noite, só que no nosso caso o encontro era tardio, invariavelmente no Passos Manuel [brilhante bar, onda musical muito parecida ao Incógnito, mas com melhor pinta e sem o D'Artagnan à porta], e faço o destaque a um grande evento que lá se passou este sábado - a Festa Oportunista da Matéria Prima - esquizo qb, com Cure, Smiths e muito eighties em som de fundo, mais uns passos de dança e um barril de cerveja, pelo menos, para cada um.
Quando se conhecem alguns bons portuenses, o Porto pode ser uma experiência fantástica. Não é cidade melosa e envergonhada como Lisboa, embalo feminino, de voz doce mas prudente. É antes rude, com doses idênticas de agressividade e sinceridade, urbe masculina, tão dura quanto acolhedora, é próxima das pessoas, mostra-se em vez de se esconder.
Na quinta passada, quando apanhámos um táxi para a esquina da rua Formosa com a Sá da Bandeira, pedi ao condutor para subir a partir da Praça D. João I porque a rua Passos Manuel estava em obras. Ele pareceu ficar perplexo por um tipo com sotaque lisboeta conhecer a Invicta, o detalhe de uma calçada esburacada, o sentido oportunista do trânsito, da matéria prima. «Bocês son de Lisboua, num son?» Somos sim senhor, não dá para disfarçar. Mas ele gostou que conhecessemos o Porto, falou da família e dos netos, que a mais velha, que tem doze, anda cheia de ciúmes da «canalha de três e quatro anos», que se o Pinto da Costa tiver de ser preso «paciência, o que é preciso é seriedade», mas depois isto parece-lhe uma cabala dos morcões do Sul, «mas sem ofensa. É do Benfica?» Sou. «Eu do Porto, isto é preciso é haver respeito, ou num é?»
E hoje meto-me num táxi para vir à redacção e compreendo de imediato o contraste da história das cidades. O condutor não soltou uma palavra, nem mesmo quando lhe desejei uma boa semana. Estava a fumar cachimbo e, no semáforo do Areeiro, que nem um minuto faz parar o trânsito, abriu um livro de Balzac e pôs-se a lê-lo, ansioso, em ritmo devorador. No leitor de CD's uma sinfonia de Schubert - penso que a número sete, tal a onda dramática - e nem um sorriso no olhar de hábitos intelectuais.
Percebo de imediato que Lisboa é europeia e civilizada, enquanto o Porto é mais provinciano e efusivo. E nisto, dou por mim a olhar para o calendário. A contar os dias para voltar ao Norte.
26.1.07
PKP*
Há uns meses, numa tarde de calor na esplanada do Princípe Real, a Sandra ensaiou um alucínio de génio: ir do Cairo ao Cabo em karaoke. Pegar numa carrinha, enfeitá-la com pinturas de estrelas da música e do cinema, mais umas letras bem berrantes a anunciar o circo cantante, e assim financiar um corte vertical pelo continente africano. Pode ser que funcione, mas é projecto a longo prazo.
Ontem, no Porto, primeiro ensaio. Uma das protagonistas do trabalho que me fez rumar a Norte convidou-nos para um copo. Pensava que íamos a uma das mecas da cidade [o Maus Hábitos, que me foi apresentado pela Paulinha em Novembro, é um must. O Bazaar significa quatro pisos de festa, onda chill out. O Triplex, mais afastado do rio, serve para os dias de soltar conversa], mas afinal o destino era Gaia, um local chamado Vice-Versa, onde decorria a primeira semi-final do sexto concurso de Karaoke da Invicta.
Miraculosamente, encontrámos uma mesa e pedimos imperiais [«finos, carago»]. Estava eu, o Jordi, o Alberto e a Elisabete, que decidiu ir cantar Sara Tavares quando acabou a grande competição. Eu descobri perdido no meio da lista de possibilidades o «Friday I'm Inlove», dos Cure, e decidi subir ao palco. Excelente opção, porque o animador da festa não ligou peva à minha [falta de] qualidade musical e, como adorava a música, ofereceu uma rodada para a nossa mesa. Acho que o Jordi passar a música de braços levantados a gritar «Ricky, Ricky» também ajudou.
No fim da cantoria ofereceu-me um diploma e fez o anúncio oficial: sou karaokista certificado, tenham muito medo. Depois a Elisabete escreveu um poema liiiiiindo no papel - «Acredita em ti e se isso não for suficiente para alguém, então esse alguém não é suficiente para ti!» O Berto deu-me os parabéns, o Jordi esquizofrenou uma dedicatória e ainda apareceu uma tal de Clara que escreveu «Estiveste bem, continua!».
Acho que o próximo passo é África. Do Cairo ao Cabo em karaoke, estou pronto!
PKP* Porto Karaoke Party
Ontem, no Porto, primeiro ensaio. Uma das protagonistas do trabalho que me fez rumar a Norte convidou-nos para um copo. Pensava que íamos a uma das mecas da cidade [o Maus Hábitos, que me foi apresentado pela Paulinha em Novembro, é um must. O Bazaar significa quatro pisos de festa, onda chill out. O Triplex, mais afastado do rio, serve para os dias de soltar conversa], mas afinal o destino era Gaia, um local chamado Vice-Versa, onde decorria a primeira semi-final do sexto concurso de Karaoke da Invicta.
Miraculosamente, encontrámos uma mesa e pedimos imperiais [«finos, carago»]. Estava eu, o Jordi, o Alberto e a Elisabete, que decidiu ir cantar Sara Tavares quando acabou a grande competição. Eu descobri perdido no meio da lista de possibilidades o «Friday I'm Inlove», dos Cure, e decidi subir ao palco. Excelente opção, porque o animador da festa não ligou peva à minha [falta de] qualidade musical e, como adorava a música, ofereceu uma rodada para a nossa mesa. Acho que o Jordi passar a música de braços levantados a gritar «Ricky, Ricky» também ajudou.
No fim da cantoria ofereceu-me um diploma e fez o anúncio oficial: sou karaokista certificado, tenham muito medo. Depois a Elisabete escreveu um poema liiiiiindo no papel - «Acredita em ti e se isso não for suficiente para alguém, então esse alguém não é suficiente para ti!» O Berto deu-me os parabéns, o Jordi esquizofrenou uma dedicatória e ainda apareceu uma tal de Clara que escreveu «Estiveste bem, continua!».
Acho que o próximo passo é África. Do Cairo ao Cabo em karaoke, estou pronto!
PKP* Porto Karaoke Party
23.1.07
Os suspeitos do costume

Agora o Porto, eu e o Jordi, equipa maravilha. À primeira reportagem que fizemos, fomos logo ameaçados com uma pistola ucraniana. À segunda, o purgatório e o paraíso de encontrar um bom ângulo [e a recompensa de publicar a história em França]. A terceira deu livro, a quarta deu prémio, a quinta deu para encontrarmos cavalos selvagens no meio da Galiza e conhecer a inenarrável recepcionista de um inenarrável hotel com escadarias de mármore, neons verdes e paredes cor-de-rosa. Alucínio constante, em cânone desafinado.
Agora o Porto, eu e o Jordi, equipa maravilha. Encontrar histórias em Marraquexe, perdê-las em Ouarzazate, subir a Avenida Florida em Buenos Aires - num fim de noite que marcava três da tarde, com garrafa de vinho e canecas compradas na rua, para a ocasião, voltar do Gerês e aterrar numa festa alucinada no terceiro andar da rua da Barroca, jantar esparguete com atum pelo menos uma vez por semana [uma em cada duas que vou jantar com o catalão], discutir o aborto no 40 e 1, conhecer duas queques no Lux e dizer-lhes que não podiam morar naquele prédio do Siza, então se tinham ar de Curraleira...
Agora o Porto, eu e o Jordi, equipa maravilha. O ritual é sempre o mesmo: viagem em angústia para encontrar uma boa abordagem, uns copos, reportagem, reportagem, reportagem, jantar, conversa de vida profunda, mais reportagem, discussão, «desculpa», «não, eu é que peçoo desculpa», reportagem outra vez, insanidade mental em barda, sempre bons trabalhos. Sair de Lisboa atrasado, excepto agora o Porto, eu e o Jordi, equipa maravilha, porque viemos de comboio e esse não dá para «ir lá só a casa fazer a mala, puto».
Agora no Porto, trabalho é, como sempre, simétrica obsessão para mim e para o catalão despenteado. Sofre-se e supera-se e ambos sabemos que havemos de voltar com a inevitável relíquia de ter encontrado uma bela história. A dificuldade de trabalhar com os amigos é puro mito. Siga a festa.
18.1.07
Prócima Estación: Esperanza
Tínhamos combinado café na Fnac, depois mudámos os planos para a Galeria K, mas ao fim da tarde acabámos no Ágito. Cenário com the famous five - Sophy, Sandra, Jordi, eu e uma botella de Quinta de Cabriz - para matar saudades e combinar revoluções. Depois o catalão maluco zarpou, a Sandra confessou um atraso e a garrafa esvaziou-se. Fiquei eu e a Sophy. «Vamos jantar?»
Ambrósio apetecia-me algo, disse ela, e percebi logo que os tascos do costume não seriam a nossa praia. Sugeri o Buenos Aires, mas a dama contra-argumentou bem: «Abriu um restaurante novo muito cool, tentei ir lá ontem e não havia mesas. Queres tentar?» Quero. Descemos até à rua do Norte e havia mesa para dois no Esperança. Queres comer o quê? Uma garrafa de Malbec, tenho saudades da Argentina.
Espaço intimista, bom atendimento, melhor comida. Gostei do Esperança, está nitdamente on the beat. Deambulámos histórias de reportagens e desamores, pelo meio de esparguete negro e da calzone. Acabou o vinho. Imperial no clube da esquina? Vamos lá. E passamos pelo Beto, claro, temos que lhe ir dar um abraço.
No momento em que entrámos no Calcutá já a sobriedade nos tinha abandonado há muito. Queres uma imperial, perguntei. Não, eu bebo da tua, e a Sophy a agarrar num talher para beber cerveja à colherada. O restaurante estava em obras, o lava loiça no meio da sala dos comensais, a dama a fingir-se de lavadeira. Depois trazem-nos um I-Pod com sonoridade indiana e oiço o comentário feliz da rapariga: «Uau! Música para aumentar a população!» Saímos umas quantas imperiais depois, vá lá que não fomos ao Oslo como de costume, para a Sophy dançar o Dancing Queen e meter conversa com senhoras de vida fácil. Zonzo, levei-a ao táxi e fiquei por momentos na rua com uma obsessão na cabeça:
Porque raio é que eu não tenho amigos normais?
Ambrósio apetecia-me algo, disse ela, e percebi logo que os tascos do costume não seriam a nossa praia. Sugeri o Buenos Aires, mas a dama contra-argumentou bem: «Abriu um restaurante novo muito cool, tentei ir lá ontem e não havia mesas. Queres tentar?» Quero. Descemos até à rua do Norte e havia mesa para dois no Esperança. Queres comer o quê? Uma garrafa de Malbec, tenho saudades da Argentina.
Espaço intimista, bom atendimento, melhor comida. Gostei do Esperança, está nitdamente on the beat. Deambulámos histórias de reportagens e desamores, pelo meio de esparguete negro e da calzone. Acabou o vinho. Imperial no clube da esquina? Vamos lá. E passamos pelo Beto, claro, temos que lhe ir dar um abraço.
No momento em que entrámos no Calcutá já a sobriedade nos tinha abandonado há muito. Queres uma imperial, perguntei. Não, eu bebo da tua, e a Sophy a agarrar num talher para beber cerveja à colherada. O restaurante estava em obras, o lava loiça no meio da sala dos comensais, a dama a fingir-se de lavadeira. Depois trazem-nos um I-Pod com sonoridade indiana e oiço o comentário feliz da rapariga: «Uau! Música para aumentar a população!» Saímos umas quantas imperiais depois, vá lá que não fomos ao Oslo como de costume, para a Sophy dançar o Dancing Queen e meter conversa com senhoras de vida fácil. Zonzo, levei-a ao táxi e fiquei por momentos na rua com uma obsessão na cabeça:
Porque raio é que eu não tenho amigos normais?
16.1.07
O Marítimo da Bica
Quando arrancou o Campeonato do Mundo de Futebol, Lisboa andava em agitado rebuliço a preparar-se para o Santo António. Vi os primeiros jogos da Selecção no «Quintal da Copa» – que o Hugo e o João instalaram na Penha de França – mas depois o primeiro rumou para o Brasil, o outro para Idanha-a-Nova, e eu acabei por combinar com o Ric [meu companheiro de andanças futebolísticas, entre muitíssimas outras andanças] vermos os jogos que sobravam na Bica, um dos bairros típicos da capital. A Cátia vinha ter connosco mais tarde.
Descemos a calçada – que se chama Duarte Belo – no dia combinado. Passámos o Bicaense, o restaurante africano, o Grupo Excursionista Vai Tu e virámos à esquerda. Descemos as escadinhas e lá estava o Marítimo da Bica, janelas e portas escancaradas, mesas compridas montadas na rua, mais o televisor elevado numa frágil estrutura de mesas e cadeiras. A marcha de 2006 ressoava num improvisado sistema sonoro, ao passo que os marchantes se aproximavam e grelhavam febras e pregos ao ar livre. «Sentem-se, sentem-se.» É aqui que ficamos, não haja dúvidas.
Portugal-Holanda foi um sofrimento. Na rua e de olhos postos na televisão, os organizadores da marcha, concentrados no Marítimo, gritavam mais alto do que nós. A meio da primeira parte sentaram-se dois franceses na nossa mesa - o Vincent e a Anais - com quem íamos partilhando cerveja e bifanas. O senhor Américo e o senhor João já nos tratavam por filhos, ofereciam-nos cerveja «para dar sorte» e a bebedeira ia crescendo. A táctica, pelos vistos, funcionou, já que ganhámos e a trupe entrou em delírio. Música em altos berros, eu agarrado às velhas a dançar música pimba, mais a marcha da Bica, e a promessa de voltar para o jogo com Inglaterra. O Vincent e a Anais, que iam para Coimbra e Porto, cortaram-se ao regresso.
Meia semana depois, jogo com Beckham e companhia, desta vez aparecemos mais cedo e, como o desafio correu durante a tarde, ficámos dentro do edifício. Já toda a gente nos tratava pelo nome, já tínhamos mesa reservada no meio da tropa da Bica. Eu, o Ric e a Cátia, acompanhados pelo Torcato, com quem vemos sempre a bola, a Bego, minha ex-namorada espanhola, e o Juvenal, colega de trabalho que é natural do bairro e se juntou à festa. Novamente muita música, muita cerveja e a certeza de já fazermos parte da casa. A meio da primeira parte, voltaram a aparecer os franceses - tinham desviado a rota para vir ali. Família espontânea, em reunião animada. Muita cerveja, ameaças de ataques cardíacos, e ganhámos nos penalties.
Ao terceiro jogo já andávamos a montar os toldos cá fora e a comer o jantar dos marchantes. Cerveja paga era coisa pouca, beijinhos das velhas e abraços dos homens era coisa farta. Perdemos com a França mas ganhámos amigos. O Vincent e a Anais mandaram sms de Paris, mails com fotos, prometeram voltar no próximo Verão.
Ontem voltámos ao Marítimo da Bica – eu, o Ric, o Torcato e o Juvenal – para vermos o Benfica ganhar à Académica dois a zero. O ritual repetido, como se fossemos naturais do bairro. Gritaria constante, beijinhos e abraços, «há tanto tempo que não apareciam». Voltaremos mais vezes, de ora em diante.
Não vivo na Bica mas, pelos vistos, sou natural dali.
PS: Outro benfiquista ferrenho com quem não vou ver a bola há imenso tempo é o Phil, que abriu um blog novo e merece uma visita atenta. Passem lá por http://www.aruexperienced.blogspot.com/
Descemos a calçada – que se chama Duarte Belo – no dia combinado. Passámos o Bicaense, o restaurante africano, o Grupo Excursionista Vai Tu e virámos à esquerda. Descemos as escadinhas e lá estava o Marítimo da Bica, janelas e portas escancaradas, mesas compridas montadas na rua, mais o televisor elevado numa frágil estrutura de mesas e cadeiras. A marcha de 2006 ressoava num improvisado sistema sonoro, ao passo que os marchantes se aproximavam e grelhavam febras e pregos ao ar livre. «Sentem-se, sentem-se.» É aqui que ficamos, não haja dúvidas.
Portugal-Holanda foi um sofrimento. Na rua e de olhos postos na televisão, os organizadores da marcha, concentrados no Marítimo, gritavam mais alto do que nós. A meio da primeira parte sentaram-se dois franceses na nossa mesa - o Vincent e a Anais - com quem íamos partilhando cerveja e bifanas. O senhor Américo e o senhor João já nos tratavam por filhos, ofereciam-nos cerveja «para dar sorte» e a bebedeira ia crescendo. A táctica, pelos vistos, funcionou, já que ganhámos e a trupe entrou em delírio. Música em altos berros, eu agarrado às velhas a dançar música pimba, mais a marcha da Bica, e a promessa de voltar para o jogo com Inglaterra. O Vincent e a Anais, que iam para Coimbra e Porto, cortaram-se ao regresso.
Meia semana depois, jogo com Beckham e companhia, desta vez aparecemos mais cedo e, como o desafio correu durante a tarde, ficámos dentro do edifício. Já toda a gente nos tratava pelo nome, já tínhamos mesa reservada no meio da tropa da Bica. Eu, o Ric e a Cátia, acompanhados pelo Torcato, com quem vemos sempre a bola, a Bego, minha ex-namorada espanhola, e o Juvenal, colega de trabalho que é natural do bairro e se juntou à festa. Novamente muita música, muita cerveja e a certeza de já fazermos parte da casa. A meio da primeira parte, voltaram a aparecer os franceses - tinham desviado a rota para vir ali. Família espontânea, em reunião animada. Muita cerveja, ameaças de ataques cardíacos, e ganhámos nos penalties.
Ao terceiro jogo já andávamos a montar os toldos cá fora e a comer o jantar dos marchantes. Cerveja paga era coisa pouca, beijinhos das velhas e abraços dos homens era coisa farta. Perdemos com a França mas ganhámos amigos. O Vincent e a Anais mandaram sms de Paris, mails com fotos, prometeram voltar no próximo Verão.
Ontem voltámos ao Marítimo da Bica – eu, o Ric, o Torcato e o Juvenal – para vermos o Benfica ganhar à Académica dois a zero. O ritual repetido, como se fossemos naturais do bairro. Gritaria constante, beijinhos e abraços, «há tanto tempo que não apareciam». Voltaremos mais vezes, de ora em diante.
Não vivo na Bica mas, pelos vistos, sou natural dali.
PS: Outro benfiquista ferrenho com quem não vou ver a bola há imenso tempo é o Phil, que abriu um blog novo e merece uma visita atenta. Passem lá por http://www.aruexperienced.blogspot.com/
15.1.07
O alfarrabista de Roma
Na esquina da avenida de Roma com a América há um quiosque que não vende jornais, nem tabaco, e que [des]ilude todos os que querem comprar o Público ao domingo de manhã. É, como habitual, um cubículo onde mal cabe uma pessoa, com uma mesa por diante e dois expositores laterais. Mas, em vez dos papéis da actualidade, ali vendem-se livros que foram escritos numa altura em que não se podia livremente dar asas à imaginação. Nem à opinião.
O alfarrabista de Roma não parece português. É alto e magro, olhos claros escondidos numa barba mal aparada, roupagem desmazelada e discurso parco. É como se o homem não estivesse realmente interessado em vender os seus livros, antes manifesta o desejo de expô-los para o mundo os conhecer. Não é raro vê-lo discursar sobre a importância do «Portugal e o Futuro», de Spínola, ou defender o regalo que é ter uma primeira edição de «A Fogueira das Vaidades», do Tom Wolfe, e depois hesitar em vender qualquer uma das obras a qualquer comprador que não mostre um entusiasmo no mínimo tão grande quanto o seu. Eis um sofista, em pleno século XXI, na esquina de Roma com a América.
Domingo de manhã [ok, ok, era de tarde] subi a América para comprar o Público e detive-me por instantes diante do quiosque das papeladas antigas. Olhei de relance para um volume da Academia Geográfica de Lisboa, um ensaio cartográfico da capital que por certo não me importaria de ter. Não me interessei pela biografia de El Rey D. Carlos, menos ainda pela proibida [como são todas] edição do «Mein Kampf», de Adolf Hitler. E, subitamente, aterro os olhos no «Eléctrico», de José Gomes Ferreira, primeira edição a dois euros. Pego no livro e o alfarrabista repara: «Ah, José Gomes Ferreira! O grande poeta esquecido. Sabe que ele morreu de felicidade pouco depois do 25 de Abril?» Contesto: «Não foi ataque cardíaco? Ou fígado? Diz-se que ele bebia muito.» Respondeu-me que os poetas bebem todos muito, é defeito de fabrico para quem analisa a magia do mundo, e que foi seguramente de alegria que o seu corpo sucumbiu. «Afinal, ele sempre foi um opositor ao regime.» É verdade.
Há anos, subia as escadinhas do Duque e entrei noutro alfarrabista onde encontrei uma primeira edição do José Gomes Ferreira, assinada e datada por um antigo proprietário. Coincidência ou destino, o livro tinha rubricada a data do meu nascimento, o que encarei como um óbvio sinal de obrigatoriedade em adquiri-lo. Tinha 15 anos e apaixonei-me pela escrita flutuada do poeta, o grande esquecido José Gomes Ferreira, que fica na história com o nome de uma rua e uma escola em Benfica. É sem dúvida pouco para tanto talento.
E este domingo de manhã [de tarde], quando ia comprar o Público, encontrei-o novamente num alfarrabista, desta vez sem data nem coincidências fatais, mas com idêntico sinal de que o teria de levar. Contei ao alfarrabista a minha história de há meia vida, ele sorriu e depositou-o nas minhas mãos. «Este ofereço eu», disse. Já não comprei o Público e enfiei-me o dia todo em casa em delírio poético.
O alfarrabista de Roma pode não ter grande jeito para o negócio, mas é sem dúvida genial no que toca à leitura das almas. Honra a ele.
O alfarrabista de Roma não parece português. É alto e magro, olhos claros escondidos numa barba mal aparada, roupagem desmazelada e discurso parco. É como se o homem não estivesse realmente interessado em vender os seus livros, antes manifesta o desejo de expô-los para o mundo os conhecer. Não é raro vê-lo discursar sobre a importância do «Portugal e o Futuro», de Spínola, ou defender o regalo que é ter uma primeira edição de «A Fogueira das Vaidades», do Tom Wolfe, e depois hesitar em vender qualquer uma das obras a qualquer comprador que não mostre um entusiasmo no mínimo tão grande quanto o seu. Eis um sofista, em pleno século XXI, na esquina de Roma com a América.
Domingo de manhã [ok, ok, era de tarde] subi a América para comprar o Público e detive-me por instantes diante do quiosque das papeladas antigas. Olhei de relance para um volume da Academia Geográfica de Lisboa, um ensaio cartográfico da capital que por certo não me importaria de ter. Não me interessei pela biografia de El Rey D. Carlos, menos ainda pela proibida [como são todas] edição do «Mein Kampf», de Adolf Hitler. E, subitamente, aterro os olhos no «Eléctrico», de José Gomes Ferreira, primeira edição a dois euros. Pego no livro e o alfarrabista repara: «Ah, José Gomes Ferreira! O grande poeta esquecido. Sabe que ele morreu de felicidade pouco depois do 25 de Abril?» Contesto: «Não foi ataque cardíaco? Ou fígado? Diz-se que ele bebia muito.» Respondeu-me que os poetas bebem todos muito, é defeito de fabrico para quem analisa a magia do mundo, e que foi seguramente de alegria que o seu corpo sucumbiu. «Afinal, ele sempre foi um opositor ao regime.» É verdade.
Há anos, subia as escadinhas do Duque e entrei noutro alfarrabista onde encontrei uma primeira edição do José Gomes Ferreira, assinada e datada por um antigo proprietário. Coincidência ou destino, o livro tinha rubricada a data do meu nascimento, o que encarei como um óbvio sinal de obrigatoriedade em adquiri-lo. Tinha 15 anos e apaixonei-me pela escrita flutuada do poeta, o grande esquecido José Gomes Ferreira, que fica na história com o nome de uma rua e uma escola em Benfica. É sem dúvida pouco para tanto talento.
E este domingo de manhã [de tarde], quando ia comprar o Público, encontrei-o novamente num alfarrabista, desta vez sem data nem coincidências fatais, mas com idêntico sinal de que o teria de levar. Contei ao alfarrabista a minha história de há meia vida, ele sorriu e depositou-o nas minhas mãos. «Este ofereço eu», disse. Já não comprei o Público e enfiei-me o dia todo em casa em delírio poético.
O alfarrabista de Roma pode não ter grande jeito para o negócio, mas é sem dúvida genial no que toca à leitura das almas. Honra a ele.
11.1.07
Cheira a Lisboa
O primeiro camião de recolha do lixo passa invariavelmente pela rua da Atalaia por volta da meia-noite, quando o Bairro Alto começa a ficar cheio de gente. À uma e pouco passa uma segunda carrinha, com idênticos objectivos. Em sentido ascendente, o primeiro motorista trava em frente ao Calcutá e, segundos depois, em frente ao Spot. O segundo estaciona em frente ao 21 e lá segue o seu caminho [desce a rua da Barroca e pára diante do clube da esquina, para recolher os sacos e caixotes]. Ou seja, na precisa hora em que a multidão se acotovela, os funcionários da Câmara Municipal de Lisboa ocupam a rua e impregnam o ar com o seu doce aroma de quatro rodas. Poderiam passar antes das onze, mas atravessar o deserto das ruas não teria se calhar tanta piada, nem incomodaria tanta gente. À meia-noite é que é. E novamente à uma. Crazyyyyyy!
Já que é da recolha de lixo que se trata, a inquietação prossegue. A maior parte dos caixotes do lixo do Bairro Alto estão, por incrível quer pareça, trancados à chave. Como se os despojos fossem uma exclusividade do dia nos principais quarteirões da vida nocturna da capital. É [mais] um traço de esquizofrenia nesta cidade. É favor deitar os copos de plástico para a rua.
Gosto de passear pelo Bairro de dia e gosto da pacatez quinhentista das suas ruas. Até gosto dos grafitti nas paredes, porra. Mas não suporto o cheio do camião, nem os caixotes de lixo trancados, e muito menos dos cartazes que pedem silêncio para os moradores na rua do Diário de Notícias. Se é a sua vocação nocturna que torna o bairro em Bairro, então assuma-se a tendência. Caixotes do lixo para todos, camiões de recolha pela manhã e faça-se barulho a horas impróprias. Tenho dito.
Já que é da recolha de lixo que se trata, a inquietação prossegue. A maior parte dos caixotes do lixo do Bairro Alto estão, por incrível quer pareça, trancados à chave. Como se os despojos fossem uma exclusividade do dia nos principais quarteirões da vida nocturna da capital. É [mais] um traço de esquizofrenia nesta cidade. É favor deitar os copos de plástico para a rua.
Gosto de passear pelo Bairro de dia e gosto da pacatez quinhentista das suas ruas. Até gosto dos grafitti nas paredes, porra. Mas não suporto o cheio do camião, nem os caixotes de lixo trancados, e muito menos dos cartazes que pedem silêncio para os moradores na rua do Diário de Notícias. Se é a sua vocação nocturna que torna o bairro em Bairro, então assuma-se a tendência. Caixotes do lixo para todos, camiões de recolha pela manhã e faça-se barulho a horas impróprias. Tenho dito.
9.1.07
Resquícios de ano novo
Eu já devia saber que ir jantar à segunda-feira com o Jordi ia acabar assim. Mensagem no telemóvel, «mano vamos jantar fora, vá lá.» está bem, vamos, oito e meia na Fnac e depois vamos ao Calcutá, que é preciso mudar de hemisfério de quando em vez. Oito e quarenta chego eu, dez para as nove aparece o catalão maluco.
Ainda não pedimos a imperial da praxe quando encontramos a Adriana repleta de sacos e novidades: «Há mamas de silicone em promoção na woman's secret.» Fantástico. Entretanto o Tiago combina vir ter connosco à meia noite, para beber uns copos. Teme-se o pior, mas siga.
Dez da noite, engano-me no molho e encho uma chamuça de picante. Água, vinho, uma garrafa, é melhor pedir a segunda. «Maninho, vou apanhar o último metro.» Vais, vais.
Meia noite, imperial no 40 e 1 e o Tiago com o cabelo rapado. Mais três, Sandra, se faz favor. Discussão sobre a legalização do aborto bem regada e o argumento de que os duendes do pai natal são tentativas de aborto frustradas não pega. Mais três e«shit, perdi o último metro.»
Tenho duas casas nas redondezas [aliás, com sorte até tenho mais, porque a Lena e a Sophy vivem no Príncipe Real e não negariam tecto a este sem-abrigo, estou certo, caso fosse necessário], a do Jordi e a do Tiago. O catalão tem sono, sume-se. Ficamos eu e o homem sem caracóis, mais umas quantas imperiais e decido ir dormir à Baixa.
Subo os 112 degraus do quinto andar que parece sexto. Chego afogueado, mais umas cervejas, é melhor e «põe aí som, puto». Bob Marley, Lou Reed, Marvin Gaye, Lisa Ekdahl.
Quatro da manhã. De lata de cerveja na mão eu e o Tiago abraçados a cantar o High Tide Low Tide, «I'm gonna be your friend», depois ainda abrimos a última lata. Eu com um cachecol enrolado na cabeça, Sandokan como na festa de ano novo, mais uns óculos escuros que a moca traz sensibilidade à luz. Começa uma nova semana de um novo ano, mas os hábitos são os do costume. As segundas serão sempre as noites mais insanas de Lisboa.
Ainda não pedimos a imperial da praxe quando encontramos a Adriana repleta de sacos e novidades: «Há mamas de silicone em promoção na woman's secret.» Fantástico. Entretanto o Tiago combina vir ter connosco à meia noite, para beber uns copos. Teme-se o pior, mas siga.
Dez da noite, engano-me no molho e encho uma chamuça de picante. Água, vinho, uma garrafa, é melhor pedir a segunda. «Maninho, vou apanhar o último metro.» Vais, vais.
Meia noite, imperial no 40 e 1 e o Tiago com o cabelo rapado. Mais três, Sandra, se faz favor. Discussão sobre a legalização do aborto bem regada e o argumento de que os duendes do pai natal são tentativas de aborto frustradas não pega. Mais três e«shit, perdi o último metro.»
Tenho duas casas nas redondezas [aliás, com sorte até tenho mais, porque a Lena e a Sophy vivem no Príncipe Real e não negariam tecto a este sem-abrigo, estou certo, caso fosse necessário], a do Jordi e a do Tiago. O catalão tem sono, sume-se. Ficamos eu e o homem sem caracóis, mais umas quantas imperiais e decido ir dormir à Baixa.
Subo os 112 degraus do quinto andar que parece sexto. Chego afogueado, mais umas cervejas, é melhor e «põe aí som, puto». Bob Marley, Lou Reed, Marvin Gaye, Lisa Ekdahl.
Quatro da manhã. De lata de cerveja na mão eu e o Tiago abraçados a cantar o High Tide Low Tide, «I'm gonna be your friend», depois ainda abrimos a última lata. Eu com um cachecol enrolado na cabeça, Sandokan como na festa de ano novo, mais uns óculos escuros que a moca traz sensibilidade à luz. Começa uma nova semana de um novo ano, mas os hábitos são os do costume. As segundas serão sempre as noites mais insanas de Lisboa.
8.1.07
Back to America
De volta. Vieram as festas e as férias, excelente combinação. Depois o ano novo, que me deveria ter levado para o Algarve, mas a casa falhou. Mudámos então de planos para Lamego e, no dia em que partimos de viagem, a casa falhou. Seguimos para Aveiro e organizámos cinco dias de fiesta total. Na noite de reveillon as janelas para a cidade, bem no centro da urbe, estavam abertas de par em par com a mitra a dançar no enquadramento. Assim ficámos até às cinco, entre copos e fumos. Depois seguimos para uma festinha trance na Vagueira, até à tarde seguinte. Ainda não recuperei totalmente. Os trinta já pesam, shit.
No regresso a Lisboa, a compensação por ter arrumado a casa antes de partir. Tudo arrumado e limpo, o que é pouco o meu estilo. Soube bem essa sensação. Tal como souberam bem as festas da última semana no meio do cosmopolitanismo da capital. Agora tenho vontade de sair outra vez. Viva 2007!
No regresso a Lisboa, a compensação por ter arrumado a casa antes de partir. Tudo arrumado e limpo, o que é pouco o meu estilo. Soube bem essa sensação. Tal como souberam bem as festas da última semana no meio do cosmopolitanismo da capital. Agora tenho vontade de sair outra vez. Viva 2007!
20.12.06
19.12.06
Admirável mundo novo
Foi a Catarina que me explicou tudo. Ela ontem estava do lado errado do balcão do espaço 40 e 1 - cá fora a beber copos, em vez de lá dentro a servi-los [lá dentro estava a Sandra, que também explicou uma grande parte da história]. São tão giras. E desvendaram-me um mistério muito maior do que qualquer segredo de Fátima, qualquer triângulo das Bermudas, qualquer Atlântida afogada.
Siga, porque há coisas que não entendemos nas mulheres. As idas em grupo à casa de banho, os segredinhos em plena discoteca, tudo o que cabe numa mala. «Uma mala é passado», explicou a Catarina, «o drama actual de todas as mulheres chama-se o dilema da pochette.»
E contou-me que a pochette é aquela malinha pequena que as mulheres usam para eventos, sair à noite, um jantar de amigos, uma festa ou inauguração. «Passamos horas diante do espelho a escolher o 'modelito' perfeito e, quando finalmente conseguimos, começa o dilema da pochette. Se não combinar com a toilette, temos de mudar de roupa ou pedir uma emprestada à amiga. E recomeça o drama, porque encontrar a pochette perfeita para a roupa ideal é uma tarefa quase impossível.»
Na pochette, explica-me ele, é preciso saber escolher o que levar. «O telemóvel é obrigatório, tal como o gloss para não perder encanto ao longo da noite. Ah, e levas sempre uma daquelas amostras de perfume. Depois, não podes levar a carteira, porque não cabe. Então arranjas uma carteirinha pequenina para levares só o dinheiro e o multibanco.» Tem de caber em cada pochette as chaves de casa ou do carro. «Mas levas só as chaves, nunca o porta-chaves, porque o ursinho, o coraçaozinho ou o bonequinho ocupam demasiado espaço.»
O espaço que sobra, confidencia-me, é ocupado consoante a personalidade da dama. Mas com uma ressalva: tampões e pensos higiénicos devem estar numa bolsa à parte, não vão cair quando se retira alguma coisa da pochette. «As conservadoras levam sempre lenços de papel e Trifene 200. Mas, se foram fumadoras, abdicam dos lenços. Ou então andam com eles na mão.» E as atrevidas? «Um elástico ou um gancho, para prender o cabelo, uma camisinha e a escova de dentes pequenina, para manter o bom hálito Ou então chicletes.»
E ei-las preparadas para uma grande noite, com a pochette [«que agora também se chama clutch», acrescenta a Sandra] debaixo do braço. E aí começa o melodrama seguinte, que é o de não perder a pochette. Como é um objecto pequeno, pode esquecer-se em qualquer lado. Mas também aí, a Catarina tem uma teoria interessante. «Tens que cuidar dela constantemente, tomar conta dela com mil cuidados. Basicamente, a pochette é como um filho.»
...
Admirável.
Siga, porque há coisas que não entendemos nas mulheres. As idas em grupo à casa de banho, os segredinhos em plena discoteca, tudo o que cabe numa mala. «Uma mala é passado», explicou a Catarina, «o drama actual de todas as mulheres chama-se o dilema da pochette.»
E contou-me que a pochette é aquela malinha pequena que as mulheres usam para eventos, sair à noite, um jantar de amigos, uma festa ou inauguração. «Passamos horas diante do espelho a escolher o 'modelito' perfeito e, quando finalmente conseguimos, começa o dilema da pochette. Se não combinar com a toilette, temos de mudar de roupa ou pedir uma emprestada à amiga. E recomeça o drama, porque encontrar a pochette perfeita para a roupa ideal é uma tarefa quase impossível.»
Na pochette, explica-me ele, é preciso saber escolher o que levar. «O telemóvel é obrigatório, tal como o gloss para não perder encanto ao longo da noite. Ah, e levas sempre uma daquelas amostras de perfume. Depois, não podes levar a carteira, porque não cabe. Então arranjas uma carteirinha pequenina para levares só o dinheiro e o multibanco.» Tem de caber em cada pochette as chaves de casa ou do carro. «Mas levas só as chaves, nunca o porta-chaves, porque o ursinho, o coraçaozinho ou o bonequinho ocupam demasiado espaço.»
O espaço que sobra, confidencia-me, é ocupado consoante a personalidade da dama. Mas com uma ressalva: tampões e pensos higiénicos devem estar numa bolsa à parte, não vão cair quando se retira alguma coisa da pochette. «As conservadoras levam sempre lenços de papel e Trifene 200. Mas, se foram fumadoras, abdicam dos lenços. Ou então andam com eles na mão.» E as atrevidas? «Um elástico ou um gancho, para prender o cabelo, uma camisinha e a escova de dentes pequenina, para manter o bom hálito Ou então chicletes.»
E ei-las preparadas para uma grande noite, com a pochette [«que agora também se chama clutch», acrescenta a Sandra] debaixo do braço. E aí começa o melodrama seguinte, que é o de não perder a pochette. Como é um objecto pequeno, pode esquecer-se em qualquer lado. Mas também aí, a Catarina tem uma teoria interessante. «Tens que cuidar dela constantemente, tomar conta dela com mil cuidados. Basicamente, a pochette é como um filho.»
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Admirável.
18.12.06
Cais do Sodré
A primeira vaga do tsunami de 1755 bateu ali, no exacto ponto onde hoje se apanha o barco para Cacilhas. Não havia estação de comboios, claro, nem mercado da Ribeira, muito menos as linhas de eléctrico. Existia apenas um casario desorganizado, bares de marinheiros e muita putaria. Um traço que as ondas do maremoto não conseguiram disfarçar.
Oslo, Tóquio, Jamaica, Texas, Estocolmo, Escandinávia, Europa. São nomes de bares do Cais do Sodré, chamarizes para os que ali chegavam pelo rio. Anunciam num letreiro promessas de matar saudades de casa com copos, corpos, mulheres. Mas também são refúgio de bandidos, esconderijo de conspiradores. O porto de abrigo da cidade que ninguém via, mas toda a gente cheirava.
Sábado à noite durou até domingo, no Cais do Sodré. Desviei a rota do Jamaica de sempre [onde guardo memórias de noites gordas com quase todos os meus amigos] e do Tóquio de muitas vezes [sobretudo vou lá com o Ric, que me convidou para padrinho do seu casamento e contratou o DJ da casa para animar o copo de água].
O Europa reformulou-se. Abre até às 4h30 e novamente às 6h, para after-hours até à hora de almoço. E o Texas já não se chama Texas, agora é Music Box e tem ambiente house. Foi a minha rota da noite, até baterem as onze da matina. Muita dança, mais copos, conversas discretas, encontros inesperados.
O problema é que tinha um almoço no domingo, à uma, com os meus colegas da Faculdade. Adormeci e só acordei ao vigésimo telefonema da Lina, eram quase quatro da tarde. Já tinha conseguido faltar a um lançamento do meu livro. Agora também consegui faltar ao encontro que eu próprio marquei. No primeiro caso, a culpa foi do trabalho. Agora, foi do Cais do Sodré. Shame on me, anyway.
Oslo, Tóquio, Jamaica, Texas, Estocolmo, Escandinávia, Europa. São nomes de bares do Cais do Sodré, chamarizes para os que ali chegavam pelo rio. Anunciam num letreiro promessas de matar saudades de casa com copos, corpos, mulheres. Mas também são refúgio de bandidos, esconderijo de conspiradores. O porto de abrigo da cidade que ninguém via, mas toda a gente cheirava.
Sábado à noite durou até domingo, no Cais do Sodré. Desviei a rota do Jamaica de sempre [onde guardo memórias de noites gordas com quase todos os meus amigos] e do Tóquio de muitas vezes [sobretudo vou lá com o Ric, que me convidou para padrinho do seu casamento e contratou o DJ da casa para animar o copo de água].
O Europa reformulou-se. Abre até às 4h30 e novamente às 6h, para after-hours até à hora de almoço. E o Texas já não se chama Texas, agora é Music Box e tem ambiente house. Foi a minha rota da noite, até baterem as onze da matina. Muita dança, mais copos, conversas discretas, encontros inesperados.
O problema é que tinha um almoço no domingo, à uma, com os meus colegas da Faculdade. Adormeci e só acordei ao vigésimo telefonema da Lina, eram quase quatro da tarde. Já tinha conseguido faltar a um lançamento do meu livro. Agora também consegui faltar ao encontro que eu próprio marquei. No primeiro caso, a culpa foi do trabalho. Agora, foi do Cais do Sodré. Shame on me, anyway.
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