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18.5.09

Feira do livro

Na sala da minha avó havia quatro quadros de queimadas, um em cada parede. Céu de fogo, até podia ser pôr do sol em África, mas não, era incêndio na jamba. Quatro quadros que, para a minha avó, eram tesouro. Foi o tio Vítor, filho dela, que os trouxe de Angola.

O tio Vítor voltou de Angola com quatro quadros, uma mão à frente, outra atrás. Mas voltou mudado, transdiferente. Vinha mais sorrisos e descontracção, apesar das cuspidelas de retornado que lhe iam atirando.

Casou com a tia Teresa, que nasceu no mato e criou um leopardo quando era minina. E os dois abriram uma discoteca de música africana na margem Sul, primeiro em Sesimbra, agora na Quinta do Conde. Nunca deixaram Angola, porque foi lá que se enfelicizaram. Nos seventies de Luanda, já havia coca-cola e bôites, saía-se à noite, as mulheres fumavam dançavam e usavam mini-saia. Para o tio Vítor, para a tia Teresa, para milhares de outros, aqueles foram os melhores anos.

Um país em guerra, um país em festa. É disso que fala o livro de Ana Sofia Fonseca: Angola, Terra Prometida. Ela, que não nasceu em África, não viveu em África e foi pela primeira vez a Angola para registar as histórias deste livro, não pode ser acusada de parcialidade. Nem de pré-conceitos. Fez um livro sobre os melhores anos desta gente toda. E pronto.

Há histórias de cinema e bailarico, amores e corridas de carros, das sanzalas, das fazendas, da vida que os portugueses deixaram para trás. Do paradoxo de céu iluminado por obuzes e, ao mesmo tempo, por fogo de artifício. Uma crónica dos costumes, magistralmente bem escrita, e que estava por escrever. Podem acusar-me a mim de parcialidade, por ser amigo da autora. Mas leiam lá o livro e depois a gente fala...

31.3.09

It's a kind of magic



A realidade supera de longe a ficção. Senão vejam: o meu bom amigo Jordi é fotógrafo e passou vários meses no Brasil a fazer um trabalho sobre mulheres que amam de mais. Encontrou um grupo de interajuda para estas mulheres, que ficaram em cacos, inaptas para o quotidiano, depois das relações que tinham terem terminado. O meu bom amigo Jordi publicou um livro, com textos da jornalista brasileira Marília Gabriela, e fez duas exposições em galerias reputadas de São Paulo. E, há cerca de um mês, o meu bom amigo Jordi voltou a Portugal.

Convidaram-no a expor o trabalho em Lisboa, numa galeria simpática da rua dos Navegantes chamada P4. E o meu bom amigo Jordi convidou-me para escrever o texto da exposição lisboeta. Na boa, não tem problema. Gravou um CD com as imagens e eu fiquei de escrever a coisa. Mas, como estava cheio de trabalho, fui adiando a escrita do texto. Entretanto, eu e o meu bom amigo Jordi fomos para Trás os Montes fazer uma reportagem. É bestial uma pessoa poder trabalhar com os amigos.
No Nordeste, com o prazo para entrega do texto a esgotar-se rapidamente, o meu bom amigo Jordi pediu-me para escrevê-lo ali mesmo. Eu não tinha levado o meu portátil, ele tinha o dele mas não tinha Word. Então, ele passou as imagens da exposição num slide-show em que as imagens mudavam a cada onze segundos. Eu agarrei no meu Moleskine e fui tirando notas. Quando chegasse a Lisboa haveria de as trabalhar e passar a computador, para finalmente enviá-las à galeria.

Guardei as notas no bolso de trás das calças e não voltei a pegar nelas. No último dia, algumas horas depois da hora estipulada como limite para o envio do texto, cliquei no send. Mandei isto:
Amor Cachorro
No dia em que desapareceste eu não conseguia dizer. Tu é que sabias quem eu era. Mergulhei fundo. Fiz-me transparente, transpareci-me. Tu tinhas dito para sempre. Quanto? Morrer, quase. Nem conseguir tirar os olhos do salto da agulha. Cachorro. Deixaste-me encruzilhada, sem direcção. Farejei-me ao espelho, era baço. Reflexo opaco, estou mesmo? Ah, chorei de mais. Foi. E aí eu virei fera. Quis holofote, embriagar-me na luz. Foco na cara, palco no corpo, eu ia ser monarca outra vez. Agora eu vou sair do poço, vou conquistar a noite. Ouviste bem? Vou vingar-me. Ouviste? Fala comigo.

Não pensei mais no assunto e fui à inauguração da exposição do meu bom amigo Jordi. O meu bom amigo Jordi não estava, tinha ido para Angola fotografar. Vi as fotos na parede e gostei muito da disposição. Depois encontrei o dono da galeria, disse-lhe que tinha sido eu a escrever o texto e ele confidenciou-me que ainda não estava exposto porque eu tinha entregue tudo atrasado e a coisa ainda não estava emoldurada. Na boa, não tem problema. Mas porque é que não enviaste antes, perguntou ele. Contei-lhe a saga do computador em Trás os Montes, disse-lhe das notas que tirei e reparei que ainda as tinha no bolso. «Olha, estão aqui, estás a ver?»

E então o tipo passou-se. «Isso é o original, é valiosíssimo. Queres vender-me isso por cinco euros?» Ri-me, disse que lhe oferecia as notas. Mas ele insistiu que não, aquilo era o original e merecia ser pago, nem que fosse por cinco euros. Acedi e vendi-lhe as notas por cinco euros. Agora, na galeria P4, estão expostas as fotografias do meu bom amigo Jordi, o texto que eu enviei com atraso e as notas que eu tirei. Fantástico. Podem confirmar aqui.

19.10.07

Photolog

Aos meus amigos não lhes basta fotografar o mundo. Bastos puros, também querem editar trabalho com as regras deles. Fazem muito bem.

A mim resta-me a recomendação e os trabalhos conjuntos.

Vão lá, vão espreitar os blogs fotográficos dos melhores bate-chapas aqui da praça: Jordi Burch e Joaquim Gromicho

6.6.07

Quase em casa


Junho tem alma de Dezembro. Natal com calor, hemisfério trocado, altura de regressos e congressos entre amigos com história. É reedição de um certo season spirit, agora mais solto, veranil.

A foto é do fim do ano, raiar do dia, alvorada em moca. Festa aveirense até aguentar e estes são os últimos resistentes. Que agora regressam: estão quase em casa. Vem um de Angola, vem. Outro de Espanha, vem. Menina chega da Índia, vem. Estudante volta a Lisboa, vem. Vem todo o mundo e reencontro é na América. Vem festa, vem.

30.3.07

Kapa

A K galeria, do colectivo kameraphoto [que reúne os melhores fotógrafos da tugolândia] cumpriu ontem dois anos de vida e inaugurou uma exposição muito doida. Penduradas pelas paredes da galeria estão várias folhas A4, onde estão escritas as descrições das fotos correspondentes. Quem quiser arranca uma página, paga dez euros e troca a folha por um envelope do mesmo tamanho, onde está a fotografia correspondente à descrição. Quando mil palavras valem uma imagem.

Comprei duas. «Uma janela com frases escritas. Um vulto ao fundo, enquadrado pela urbanidade de Berlim. Mais um reflexo de árvore na vitrina» e «Teclado de computador com teclas POWER, SLEEP e WAKE de cor branca. Restantes teclas de cor amarelada. Superfície de fórmica imitação de madeira. Chave de porta com etiqueta de plástico com inscrição da palavra CRIME.» Saiu-me um Jordi Burch e um António Júlio Duarte, respectivamente. Mas não, não foi mera casualidade.

Os Ks estavam lá quase todos: a Sandra Rocha e o Guillaume Pazat vieram de propósito de Madrid, trouxeram o Fil, uma catrefada de espanhóis e a noite tornou-se uma festa. Hoje doi-me a cabeça. Mas tenho duas belas fotos aqui ao lado.

14.3.07

All-Star system

Quando andava no liceu, tinha dois pares de ténis All-Star – uns vermelhos, outros azuis – e trocava as cores dos pés. Ou seja, pintava de vez em quando o pé esquerdo de azul e o direito de vermelho, ou vice-versa. Hoje, que os All-Star voltaram à berra, tenho apenas um conjunto, comprado na avenida Florida, em Buenos Aires, por meia dúzia de pesos. São cinzentos ratazana, propositadamente desbotados, com atacadores brancos.

No início dos anos 90, os All Star eram uma instituição. O paralelo com as Doc Martin nos eighties [conotadas injustamente com os skinheads, já que nessa década elas eram usadas por toda a gente, dos punks aos meninos da linha], mas numa versão mais descontraída, registo veranil. Os All-Star atravessavam todos os estilos, todos os públicos e gostos de uma determinada faixa etária. E voltaram, em versão revival.

Ontem, no Bairro, pus-me a olhar para os pés das pessoas. Contei muitos All-Star, muitos, sempre nos pés de quem os usava há 15 anos, quando tinha 15 anos. E eu, que andava com uns ténis da Reef amarelos, senti-me deslocado, quase um traidor.

Esta manhã calcei os meus All-Star cinzento ratazana, comprados em Buenos aires por meia dúzia de pesos, e fui pô-los a passear por Lisboa. Eles gostam de arejar, eu gosto da descontracção e a postura assume um sintoma: o Verão está quase a chegar.

2.3.07

Agenda cultural

De vez em quando apercebo-me que esta cidade fervilha.

Ontem, subia eu o Bairro Alto ao fim da tarde, quando encontro na esquina de todos os encontros o Samuel, saxofonista sintrense, armadilhado em sopro e a dar baile ao bairro. Logo a seguir, apareceu-me pela frente a Dª Lurdes, empregada do Jordi e do Tiago [minha também, quando eu morava em casa do primeiro], com os seus óculos violeta de pastilhada a darem modernidade aos 64 anos da personagem. Abraço, «ai filho estás tão magro, estás tão bonito», e subo a rua com um sorriso. Ao jantar, apareceu o António Júlio Duarte, grande fotógrafo da tugolândia, que acabou de inaugurar uma exposição no Museu de História Natural.

No dia 8 de Março estreia na Casa Fernando Pessoa a exposição de fotografia «Estamos Juntos!», de Jordi Burch. Veni, vidi, vici - que o catalão maluco é talento através da objectiva e, como se não bastasse, um dos meus melhores amigos. É às 18h30 e há croquetes à borla. Estou lá!

[... já agora, nessa noite o Music Box, Cais do Sodré, apresenta Cosmic Sandwich e Zentex. o primeiro é o alterego do Steve Barnes, the king of electronic music, o segundo é um dj finlandês muito louco que mistura a arábia com o pastilhanço - genial...]

Por volta das três da manhã, mais música no BA. Quatro tipos a subirem a Atalaia com instrumentos e ritmo, percurssão animada, fiesta! São os Tora Tora Big Band, que vão apresentar o segundo álbum a dia 9 de Março, no Santiago Alquimista. Além de serem uns tipos porreiros, pareceu-me que a música bombava. Vamos ver?

Definitivamente esta cidade fervilha. É impressão minha ou está a acabar o Inverno?