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18.5.09

Feira do livro

Na sala da minha avó havia quatro quadros de queimadas, um em cada parede. Céu de fogo, até podia ser pôr do sol em África, mas não, era incêndio na jamba. Quatro quadros que, para a minha avó, eram tesouro. Foi o tio Vítor, filho dela, que os trouxe de Angola.

O tio Vítor voltou de Angola com quatro quadros, uma mão à frente, outra atrás. Mas voltou mudado, transdiferente. Vinha mais sorrisos e descontracção, apesar das cuspidelas de retornado que lhe iam atirando.

Casou com a tia Teresa, que nasceu no mato e criou um leopardo quando era minina. E os dois abriram uma discoteca de música africana na margem Sul, primeiro em Sesimbra, agora na Quinta do Conde. Nunca deixaram Angola, porque foi lá que se enfelicizaram. Nos seventies de Luanda, já havia coca-cola e bôites, saía-se à noite, as mulheres fumavam dançavam e usavam mini-saia. Para o tio Vítor, para a tia Teresa, para milhares de outros, aqueles foram os melhores anos.

Um país em guerra, um país em festa. É disso que fala o livro de Ana Sofia Fonseca: Angola, Terra Prometida. Ela, que não nasceu em África, não viveu em África e foi pela primeira vez a Angola para registar as histórias deste livro, não pode ser acusada de parcialidade. Nem de pré-conceitos. Fez um livro sobre os melhores anos desta gente toda. E pronto.

Há histórias de cinema e bailarico, amores e corridas de carros, das sanzalas, das fazendas, da vida que os portugueses deixaram para trás. Do paradoxo de céu iluminado por obuzes e, ao mesmo tempo, por fogo de artifício. Uma crónica dos costumes, magistralmente bem escrita, e que estava por escrever. Podem acusar-me a mim de parcialidade, por ser amigo da autora. Mas leiam lá o livro e depois a gente fala...

27.4.09

Freedom 35+


Impressões do 35º aniversário do 25 de Abril:
. A Paulinha a passar de carro pelo Largo de Camões e a gritar «Viva o Salgueiro Maia!»
. A estranha mood do Tokyo na noite de 24 para 25. O som evoluía do Love Will Tear Us Apart, dos Joy Division, para o Somos Livres [Uma gaivota voava voava, remember?], da Ermelinda Duarte. De arrepiar.
. Quase ninguém sabe a letra completa do Sémen, dos Xutos, que não sendo um hino do 25 de Abril, é sem dúvida uma música de ruptura, um sinal da pequena revolução sexual que em processo em Portugal no ano em que a canção foi escrita [1981].
. No desfile da avenida da Liberdade, os cravos eram vendidos a um euro. Não pelas floristas que se tornaram personagens de Abril, antes pelos Quéfrô paquistaneses [que, graças à abordagem recente, se deviam passar a chamar Quétudo].
. As vendas do Bord'Água atingiram o seu máximo histórico em Lisboa este sábado, nas laterais da avenida da Liberdade.
. A Jaquina, que foi a minha mulher a dias durante anos e que eu não via há muito tempo, desfilou no cortejo de Sintra a exigir a construção de um novo hospital. Dá-lhe Jaca.
. As miúdas mais giras que vão comemorar o 25 de Abril concentram-se normalmente na Praça da Alegria ou no Largo dos Restauradores.
. As vendas de cerveja superaram largamente as vendas de ginjinha na Rua das Portas de Santo Antão.

31.3.09

It's a kind of magic



A realidade supera de longe a ficção. Senão vejam: o meu bom amigo Jordi é fotógrafo e passou vários meses no Brasil a fazer um trabalho sobre mulheres que amam de mais. Encontrou um grupo de interajuda para estas mulheres, que ficaram em cacos, inaptas para o quotidiano, depois das relações que tinham terem terminado. O meu bom amigo Jordi publicou um livro, com textos da jornalista brasileira Marília Gabriela, e fez duas exposições em galerias reputadas de São Paulo. E, há cerca de um mês, o meu bom amigo Jordi voltou a Portugal.

Convidaram-no a expor o trabalho em Lisboa, numa galeria simpática da rua dos Navegantes chamada P4. E o meu bom amigo Jordi convidou-me para escrever o texto da exposição lisboeta. Na boa, não tem problema. Gravou um CD com as imagens e eu fiquei de escrever a coisa. Mas, como estava cheio de trabalho, fui adiando a escrita do texto. Entretanto, eu e o meu bom amigo Jordi fomos para Trás os Montes fazer uma reportagem. É bestial uma pessoa poder trabalhar com os amigos.
No Nordeste, com o prazo para entrega do texto a esgotar-se rapidamente, o meu bom amigo Jordi pediu-me para escrevê-lo ali mesmo. Eu não tinha levado o meu portátil, ele tinha o dele mas não tinha Word. Então, ele passou as imagens da exposição num slide-show em que as imagens mudavam a cada onze segundos. Eu agarrei no meu Moleskine e fui tirando notas. Quando chegasse a Lisboa haveria de as trabalhar e passar a computador, para finalmente enviá-las à galeria.

Guardei as notas no bolso de trás das calças e não voltei a pegar nelas. No último dia, algumas horas depois da hora estipulada como limite para o envio do texto, cliquei no send. Mandei isto:
Amor Cachorro
No dia em que desapareceste eu não conseguia dizer. Tu é que sabias quem eu era. Mergulhei fundo. Fiz-me transparente, transpareci-me. Tu tinhas dito para sempre. Quanto? Morrer, quase. Nem conseguir tirar os olhos do salto da agulha. Cachorro. Deixaste-me encruzilhada, sem direcção. Farejei-me ao espelho, era baço. Reflexo opaco, estou mesmo? Ah, chorei de mais. Foi. E aí eu virei fera. Quis holofote, embriagar-me na luz. Foco na cara, palco no corpo, eu ia ser monarca outra vez. Agora eu vou sair do poço, vou conquistar a noite. Ouviste bem? Vou vingar-me. Ouviste? Fala comigo.

Não pensei mais no assunto e fui à inauguração da exposição do meu bom amigo Jordi. O meu bom amigo Jordi não estava, tinha ido para Angola fotografar. Vi as fotos na parede e gostei muito da disposição. Depois encontrei o dono da galeria, disse-lhe que tinha sido eu a escrever o texto e ele confidenciou-me que ainda não estava exposto porque eu tinha entregue tudo atrasado e a coisa ainda não estava emoldurada. Na boa, não tem problema. Mas porque é que não enviaste antes, perguntou ele. Contei-lhe a saga do computador em Trás os Montes, disse-lhe das notas que tirei e reparei que ainda as tinha no bolso. «Olha, estão aqui, estás a ver?»

E então o tipo passou-se. «Isso é o original, é valiosíssimo. Queres vender-me isso por cinco euros?» Ri-me, disse que lhe oferecia as notas. Mas ele insistiu que não, aquilo era o original e merecia ser pago, nem que fosse por cinco euros. Acedi e vendi-lhe as notas por cinco euros. Agora, na galeria P4, estão expostas as fotografias do meu bom amigo Jordi, o texto que eu enviei com atraso e as notas que eu tirei. Fantástico. Podem confirmar aqui.

25.3.09

O herói do 17

Ai, ai, ai. Eu de manhã não tenho paciência, pelo menos tenho pouca. A Célia, o Gouvas, a Rache, o Guido ou o Dave sabem isso há quase 20 anos. Os meus amigos mais antigos chamavam-me A Besta da alvorada. Só à tarde eu voltava a ser o Riki. Quando acampávamos e algum deles me acordava antes de uma hora que me parecia minimamente razoável, não era pouco frequente eu atirar-lhes um grunhido ou uma bota. Há vinte, há quinze, há dez anos, era A Besta das manhãs. Agora, definitivamente, sou um herói.
Nove da manhã e o despertador retine furiosamente na minha cabeça. Tento fazer uns abdominais para começar o dia - desisto aos 100. Levanto-me, faço a barba, preparo o pequeno almoço e tomo um duche rápido de água fria, porque o esquentador avariou. Esqueço-me de levar o iPod, pelo menos podia disfarçar com soul a alma cinzenta das dez e pouco. Decido-me pela preguiça, melhor apanhar o 17 em vez de ir a pé. Espero cinco minutos e entro no veículo amarelo. Não pago bilhete.
O autocarro está relativamente vazio. Nos lugares reservados às grávidas, idosos e deficientes segue um velhote africano, septuagenário pelo menos, de muletas. Ao lado, nos bancos individuais, duas senhoras coquettes de Alvalade. Atrás, um rapaz dos seus oito anos, pele negra, mochila às costas. E, nos bancos da esquerda, duas mulheres dos seus cinquenta e poucos, que falam alto de mais.
Uma tem óculos de fundo de garrafa, saia com pregas, tornozelos inchados. A outra tem o cabelo oxigenado, brincos à Lola, calças brancas muito justas que lhe caem mal nas ancas disformes. É essa que vai liderando o discurso. E fala assim: «Esta pretalhada e esta ciganada deviam ir prá terra deles. Não vê que eles são muito mais unidos do que os brancos, protegem-se uns aos outros. Eles organizam-nos para nos chatear, é o que é.»
O velho das muletas vira-se para trás com um olhar magoado. O miúdo negro encolhe-se no banco, cheio de vergonha. As senhoras coquettes não conseguem disfarçar o incómodo. Passa a primeira paragem e o discurso da loira oxigenada prossegue inalterado. «Porque os pretos são uma raça que não interessa a ninguém, mas olhe que os ciganos ainda são piores.» A voz é audível em todo o autocarro e ninguém tem oportunidade de não ouvir. Sinto o peito a tremer e, pouco antes da segunda paragem (eu saio à terceira), rebento:
- A senhora desculpe, mas podia falar um pouco mais baixo. Ou então calar-se de vez, é que a sua conversa está-me a incomodar e eu não tenho de a ouvir.
Ela fita-me e, a princípio, sente-se apanhada de surpresa. Mas depois levanta a sobrancelha, põe um ar de mulher das barracas e a mão na anca:
- Ai é? Doi-lhe os ouvidos, é? Doi-lhe os ouvidos?
- Não, não me doem os ouvidos minha senhora. Mas a senhora está a ter uma conversa racista e isso é um crime público. Sabe que eu posso chamar a polícia e a senhora ser detida pelo tipo de conversa que está a ter.
Ela olha para a amiga e grita com um ar trocista:
- Olha, olha, temos doutor! este deve ter a mania que é esperto. Ainda por cima com este ar de xunga. Mas quem é que ele pensa que é para me mandar calar?
Até à terceira paragem, a que eu saio, a mulher vai destilando veneno contra mim. Eu já não a oiço, mas fico contente pelo alvo da sua conversa pavorosa passar a ser eu e não as questões de raça.
Chega a paragem do Areeiro. Preparo-me para sair e o motorista chama-me e faz um sinal com o polegar levantado. O velhote das muletas sai antes de mim, quando passo por ele ele agarra-me o braço e diz: «Muito obrigado, senhor. Eu estava a sentir-me muito mal e o senhor parou com aquela conversa. Muito obrigado.» As velhotas coquettes, que também saíram no Areeiro, acercam-se e dão-me uma palmadinha nas costas: «O senhor esteve muito bem.» E eu acabei por ficar bem-disposto logo pela manhã. Já não sou uma besta, agora sou um herói.

19.3.09

Factos da vida

O número 69 da avenida dos Estados Unidos da América chama-se edifício Califórnia e, numa destas manhãs, estavam dois pombos à entrada do prédio a copular.

1.10.08

Não me pagam para isso

O Frutalmeidas, na Avenida de Roma, tem provavelmente os melhores pastéis de massa tenra do mundo. Não é que eu seja grande apreciador de pastéis de massa tenra, mas eles lembram-me as tardes de Inverno em que ficava sentado na mesa de azulejos da cozinha a fazer os trabalhos de casa com a Jaquina nas minhas costas, a estender massa no balcão de mármore. Era ritual da chegada do frio, fazer croquetes, rissóis e pastéis de massa tenra. A Jaca, muitas vezes com a ajuda da minha avó, produzia centenas de salgadinhos, estendiam-nas numas caixas grandes de plástico, separadas em camadas por folhas de papel de alumínio, e congelavam-nos para todo o ano. Estou certo que a Jaquina, que agora está velhinha e reformada, não produz os pastéis de massa de tenra do Frutalmeidas, mas, que raios, sabem exactamente ao mesmo.

Ao sábado de manhã [pronto, às três da tarde], vou invariavelmente beber um sumo de maçã natural e comer dois pastéis ao Frutalmeidas. O problema é o atendimento. Digo boa tarde e o empregado não responde. Abana a cabeça para perguntar o que quero e traz o pedido largando-o apressadamente em cima da mesa. Pago, não diz uma palavra, nem sequer um obrigado. E dou por mim a pensar que, se a Jaquina estivesse ali, veria o facto como uma afronta.

Chateia-me o mau atendimento em Portugal porque é um país de turismo. Percebo que as pessoas estejam cansadas de apertar o cinto, da crise, de ganhar mal, mas ninguém tem de levar com a má onda dos outros quando está a adquirir um bem ou serviço. É uma questão de profissionalismo.

Atitudes que me transcedem:

1. Peço uma italiana ao balcão, trazem-me uma bica cheia e eu protesto. Muitas vezes perguntam se têm mesmo de tirar outra, se não quero beber assim.

2. Peço uma coca-cola com gelo e respondem-me que a cola está fresca. Eu insisto que quero num copo cheio de gelo e trazem-me duas pedras.

3. Peço um café e um copo de água e dizem-me para me servir eu próprio do copo de água. Convenhamos que um jarro cheio há sabe-se lá quanto tempo e uma série de copos dispostos em fila não são propriamente higiénicos. E é aquela onda do «a mim ninguém me paga para servir copos de água.»

Há uns dias, estava no Crew Hassan a jantar com uns amigos, mas cheguei tarde e eles já estavam a meio da refeição. Pedi o meu prato, paguei e sentei-me com eles. Não havia rigorosamente mais ninguém no Crew Hassan. Passado um bocado, uma rapariga saiu da cozinha, passou o balcão e veio à mesa dizer-me: «O seu prato está pronto, não fazemos serviço de mesa.» Ela veio à mesa e não foi capaz de trazer o prato, mesmo com a sala vazia, porque simplesmente «não era função» dela. Impressionante.

Voltando aos pastéis de massa tenra, a Jaquina também não tinha obrigação de fazer salgados. Empregada doméstica, era essa a sua função. Mas ela era muito mais do que isso. Tinha brio e interesse, preocupava-se de facto com as coisas. E conseguiu fazer aquilo que temos dificuldade de fazer em Portugal: marcar realmente a diferença.

11.3.08

Cure for pain



Eu tinha o bilhete comprado desde Novembro e acordei feliz no sábado. Mandei mensagens a quem ia comigo. Disse «Show me how you do it, and I promisse you, I promisse that, I'll runaway with you». Angariei mais fugitivos. Sete da noite, imperial. Oito e meia, pavilhão atlântico. Weeeeeeeeeeeeeeeee.

Mr. Robert Smith está um pouco mais gordo. Mas a voz, inconfundível, preserva truques de ilusionista. Quantas memórias acumuladas nesta sonoridade? Viagens e dores e romances e melodramas e amigos e praia e tudo.

Mr. Smith também gostou do concerto. Cantou durante mais de três horas, dançou como nunca, avançou até à frente do palco para partilhar emoções com a plateia. E foi precisamente nesse momento, um dos mais íntimos do concerto, que chegou a perplexidade.

Robert Smith estava no limite do palco, encostado ao público, a cantar de mão estendida para a massa. Oferecia a mão e a alma, num gesto que é pouco habitual nele. Ninguém, quase ninguém, lhe estendeu a mão. Em vez de se deixarem ir, de se entregarem à empatia do momento, os que estavam na frente do palco preferiram erguer os telemóveis e gravar essa fabulosa magia de Mr. Smith.

Ele de braços estendidos ao público e o público de telemóvel estendido a ele. Não pude deixar de pensar que isto é um sinal dos tempos. Seja a gravação para mostrar aos outros ou para ver mais tarde, é uma estranha mediação. Toda a gente preferiu gravar a magia do que vivê-la. Que raio de tempos estes.

5.1.08

A divina comédia

Ano novo em Berlim foi banho de urbanidade. Martin Parr iluminou-me os dias, depois de ver a exposição dele no C/O Berlin, uma velha estação de Correios no Mitte agora transformada em centro de fotografia. Esta imagem é dele. Não estava exposta em Berlim e no entanto tem doses precisas de ironia e ridículo. Isto é um grupo de turistas no Ground Zero, em Nova Iorque.

Muito curtidos, estes dias de berliner. Dançar numa festa de house num edifício ocupado, mergulhar nos restaurantes turcos, libaneses e japoneses de Kreuzberg, curtir a vanguarda em Prezlauer Berg, saltar de ano no telhado de um prédio de oito andares, frente a Centralpark, e assistir a uma verdadeira guerra civil de fogo de artifício durante uma dúzia de minutos. Fazer festa luso-brasileira-alemã noite dentro.

O pior foi depois. Às cinco da manhã do dia 1 de Janeiro de 2008 rumei ao aeroporto de Snhonefeld, disposto a manter uma postura respeitável e confiante (o que de facto viria a conseguir fazer, pelo menos até momento em que me sentei no avião. Ahhh, mesmo à justa.)

Uns minutos depois das dez da manhã cheguei a Lisboa. Fui tomar o pequeno-almoço à avenida de Roma e observei os restantes madrugadores. Havia as senhoras e os senhores de chapéu, extremamente acordados, algumas famílias completas, demasiado bem-dispostas, os últimos boémios da festa, a caminho de casa. Percebi-os melhor do que aos outros. E percebi que odeio pessoas bem-dispostas e acordadas nas manhãs de 1 de Janeiro.

19.10.07

Na diáspora

A noite de ontem foi B.Leza. B.Leza no Music Box, que o velho convento encerrou mesmo portas e o melhor clube lisboeta de música africana funciona agora em formato itinerante. Seja, desde que haja festa.

Houve sim, festa grande.

Muita gente conhecida debaixo da ponte do Cais Sodré. Músicos tantos, jornalistas mais, dançantes imensos, tantos.

Entrei de braço dado com duas damas bonitas, Sophy e Suzana, dancei africanidade até ser tão tarde que já era cedo. Não fui o único. À volta havia bater de ancas ao ritmo da morna, sôdade, sôdade, Lisboa a crioular-se outra vez.

O B. Leza fechou portas mas resiste na diáspora. Volta depressa.

3.10.07

O anjo da guarda

Era Maio e eu tinha perdido o meu Moleskine. Numa noite de copos, claro, e à saída da casa de amigos no Princípe Real. Entrei num táxi e encostei a cabeça para trás, as luzes de Lisboa a rodopiarem a média velocidade, zonzo, gozo, giroflé giroflá. Quando cheguei à América paguei os seis euros do costume mas deixei o caderno em cima do banco. Pensei que nunca voltasse a ver o meu Moleskine. Era Maio, início do mês.

No Moleskine escrevo sempre com caneta preta. E isso significa que não estou a escrever para mais ninguém. É só para mim, são páginas de anotações do meu próprio diário, impartilháveis, emoções e desgostos e alegrias e coisas assim.

Setembro, pelo Porto outra vez, e toca o telemóvel: «Olá, o meu nome é José António Castel-Branco e encontrei um caderno seu na rua. Tinha o número de telefone escrito. Não li mais nada. Posso devolvê-lo quando quiser.» Sexta-feira, quando voltar a Lisboa. Às cinco em frente da Brasileira do Chiado, está combinado.

Sexta feira de Setembro, cinco menos cinco, telemóvel a tocar outra vez: «Fala António José Castel-Branco. Já aqui estou em frente à Brasileira. Vai-me reconhecer logo, tenho uma camisa aos quadrados verdes e uma guitarra na mão.» Ok, estou a chegar. E estava.

António José Castel-Branco estava a tocar Let it Be para os clientes da esplanada da Brasileira. Vi-o logo que saí da boca de metro no Chiado, a tal camisa, as calças rasgadas, um boné vermelho da Vodafone na cabeça, a barba mal amanhada e os olhos bondosos. Aproximei-me e esperei que acabasse a música. Depois ele confirmou a minha identidade, abriu o saco da viola e retirou o Moleskine preto, o meu diário de bordo perdido há quatro meses e finalmente reencontrado.

Perguntei-lhe em que raio de geografia se tinha dado tal achamento e ele respondeu que o tinha encontrado num caixote de lixo do Chiado, quando andava à procura de comida. António José Castel-Branco revelou-se sem-abrigo. E boa alma, também.

«Sabe», disse-me ele, «pensei rasgar as páginas escritas e aproveitar o caderno para as minhas canções. Mas depois achei que não se pode roubar a poesia a um poeta.» Então afinal sempre leu o que tinha escrito? «Não.» «Bem, na verdade li um pouquinho.» «Para ser absolutamente sincero devorei tudo. E gostei muito.» Obrigado.

Perguntei-lhe se queria uma cerveja. Não queria. Quer vir lanchar? Não quis. Então vou andando, obrigado por ter devolvido o meu tesouro. Comecei a andar. Quando dobrei a esquina, virei-me para trás e já não o vi, parecia ter-se esfumado Chiado acima.

Abri o caderno para matar saudades de mim mesmo, em registo de palavras sem público. Encontrei lá dentro um poema, com data e assinatura de António José Castel-Branco, rimas sobre Lisboa, a noite e os vagabundos.

Não fosse ter na lista de contactos o número de um sem abrigo com nome fidalgo e telemóvel, e ainda hoje estaria a pensar se não teria sido visitado pelo fantasma de Fernando Pessoa.

4.6.07

Hell was here

Mr. T. não se costuma meter com ninguém, é um tipo pacato, sereno. Cravo-lhe às vezes mortalhas, outras vezes cerveja e ele nunca recusa. Trabalha no bairro, num bar do circuito boémio. É boa onda, Mr. T.

Ontem à noite Mr. T. foi espancado e partiram-lhe o bar todo. Eram três agressores e usavam blusões dos Hell's Angels. Um disse-lhe isso, «sou dos Hell's Angels», ele respondeu «boa, eu sou do Benfica», e então espancaram-no. Tinha a cara feita num bolo, Mr. T.

A polícia veio, não levou ninguém, parecia ter medo. Os tipos que deram a sova a Mr. T. - um tuga, dois californianos - revelaram em surdina que havia uma concentração deste grupo em Portugal, por estes dias. Mais de 1500 associados dos Hell's Angels chegaram de todo o mundo a Vila Franca de Xira na passada sexta-feira, em segredo, sem ninguém dar por eles. E ontem deram cabo de Mr. T.

Um dos meus escritores preferidos chama-se Hunter S. Thompson [se alguém viu o filme «Delírio em Las Vegas» saiba que é baseado num livro biográfico dele e que o tipo é a personificação das duas principais personagens. Thompson foi o fundador do Gonzo Journalism e era um alucinado como já não se fazem]e passou um ano em reportagem com os Angels. Andou com o grupo de motociclistas na estrada, assistiu a alguns dos crimes que os tornaram famosos, acabou espancado pelo colectivo de São Francisco.

Sexta feira passada, o inferno chegou a Lisboa e eu só me apercebi disso quando espancaram Mr. T. É certo que eles combinaram o encontro em surdina, mas é igualmente verdade que estão cá. A imprensa não noticiou, a polícia não se apercebeu, nada!

Já estão de partida - mas, fuck, como raio é que eu não fiz uma reportagem com eles?

11.5.07

TOMBA LA LÃO

Mesmo em frente à América há um parque infantil com três cavalinhos que sobem e descem consoante o atrito que se lhes imprime, mais um complexo castelo de madeira com cordas para escalar e três escorregas [um túnel, um tubogan e uma passadeira normal, descendente, metálica] para ensaiar a evasão.

Nunca lá vi uma única criança.

O facto pode ser explicado pelo cada vez mais óbvio envelhecimento do bairro de Alvalade, pelas novas regras sociais em que os putos já não brincam na rua mas sim fechados em casa, diante do computador, ou pela simples constatação de que há três parques infantis numa área de 200 metros e aquele é sem dúvida o menos espectacular [não tem, por exemplo, bebedouro de água, sobe-e-desce ou baloiços]. Seja como for está constantemente vazio. Ninguém, um deserto de infância.

No entanto ontem, às quatro e meia da manhã, o parque infantil escangalhou-se em gargalhadas. Havia dois vultos no cavalinho, no tubogan, a escalar o castelo. Riso, festa, grande moca.

Quem disse que não existem crianças de 30 anos?

7.5.07

A menina dança?

Dança.

Muito bem.

Num palco de caixa de música, noutro sobre o Tejo, a menina dança com gestos de cantiga de embalar, esgar de baile de fim de verão, sorriso de cabaret. A menina dança muito bem. E eu gosto.

30.4.07

Dia não

Raios partam aquelas pessoas que insistem em ler o extracto da conta em frente à caixa multibanco, os que passam horas à espera numa fila para percorrer a pé o túnel do Marquês, os chico-espertos que fazem sinal de luzes ao carro em frente, quando este está a ultrapassar um camião numa autoestrada, mas são capazes de andar a 20 quilómetros/hora na faixa de aceleração se houver um acidente [nem é preciso tanto, basta uma luz de ambulância ou reboque] em sentido contrário.

Raios partam todos os senhores doutores, engenheiros e arquitectos que não o são e insistem em legitimar-se com um título alheio e impróprio. Raios parta a velha e pequenina geração que insiste na mesquinhez de barrar aos mais novos o acesso aos cargos de decisão e raios partam as novas gerações de pseudo-intelectuais que torcem o nariz à pureza em nome da postura, que se alheiam da «gentinha» e dos seus problemas, que são capazes de olhar para o seu próximo como se ele não existisse - antes para um ponto vago de um horizonte anónimo.

Raios partam as pontes a cair, as cegonhas que embatem em postes e rebentam com metade da rede electrica nacional, raios parta o protocolo de Quioto que nunca mais avança e os terroristas islâmicos e os demagogos americanos e esta mania portuguesa de nos abstrairmos do assunto, como se nada nos disesse respeito.

Esta manhã, quando acordei, estava de azia e com os pés de fora. Rios partam.

29.3.07

Mário, o marionetista

Bruxa presa por fios tem duplo feitiço. Palhaço pobre é riqueza de espírito. Aladino pendurado não é génio de lâmpada, é magia de cordel. E polícia atado é como todos os outros, facilmente manipulado.

São as marionetas que Mário, o marionetista, traz de tempos a tempos para o Bairro Alto, «custam cinco euros mas para ti faço a quatro» e para ti é toda a gente, porque toda a gente sente o fascínio de coordenar os movimentos às figuras espadaúdas, esticadas verticalmente. As marionetas de Mário são tão magras quanto ele e todas sorriem. Não há dias tristes para fantoche de madeira.

Mário vive aqui há 35 anos, mas nasceu em Angola, perto de um Huambo que se chamava Nova Lisboa. Tem carapinha grisalha, barba revolucionária branca no centro e preta nos limites. «Moldei o Mário Soares para o Contra-Informação», disse Mário, o marionetista. Talvez.

Por alturas do Natal a procura aumenta e costumo vê-lo em Novembro a percorrer o Bairro e perguntar aos frequentes: «Precisas de marionetas para o Natal? Quantas? Avisa agora que eu depois não tenho.» E ninguém avisa, mas ele fá-las à mesma e vende-as sempre, todas, nunca lhe sobra um pinóquio que sonha ser menino de verdade.

Bruxas, aladinos, palhaço pobre, polícia. A vida de Mário é mágica e as suas personagens são feitiços. Ontem, tenho a certeza, vendeu todos os seus sorrisos de madeira.

26.3.07

O dezassete

Nos dias em que há ameaça de chuva sobre a capital mais solarenga da Europa [ou simplesmente nos dias em que estou tão cansado que não me apetece cumprir a pé os 1,8 quilómetros que separam a minha casa da redacção] apanho o autocarro na esquina da América com a Guilhermina Suggia. Evito o 727 para a Picheleira, não me parece um destino digno. O 49 dá uma volta tremenda, demora mais tempo do que qualquer caminhada. Na verdade, só me resta uma opção viável: o dezassete, que desce metade da avenida do Brasil relativamente vazio, vira para a Rio de Janeiro e apanha quatro ou cinco velhotas de chapéu coquete sobre os cabelos arranjados [normalmente pode-se encontrar residualmente estas personagens cinco metros atrás da paragem do autocarro, dispostas pela esplanada da pastelaria Biarritz a beber chá a meio da tarde em bandos de duas ou três velhotas], passa pelo estádio primeiro de Maio, onde entram sempre alguns estudantes das escolas das redondezas [cadernos gastos no final do segundo período, cada vez menos mochilas, canetas no bolso de trás], vira depois para a América, apanha-me a mim e a duas mulheres a dias, uma com alcofa na mão, outra com sacos de plástico, sobe ao Areeiro pela Gago Coutinho, desce a Almirante Reis à cunha com empregados de bancos ou das seguradoras que fecham por volta das três tarde, e detém-se finalmente na Praça do Chile, virado para a Morais Soares, rua multicultural e cosmopolita, com lojas a preços de revenda e clientela das classes operárias.

O motorista do dezassete não era hoje o do costume. Este tinha quinas na mão, que não significam nenhum espírito patriota relevante, apenas o facto de ter estado preso. Quando entrei, ele conversava animadamente com o revisor: «Só espero que tenham percebido a mensagem», comentou o revisor. «As pessoas estão fartas», respondeu o condutor e eu sem perceber o tónico da conversa.

Afastei-me por instantes, não havia lugares livres no autocarro e eu fiquei em frente a duas senhoras que seguramente haviam entrado na paragem frente ao Biarritz, ainda que uma delas não usasse chapéu, antes um alfinete de peito em forma de borboleta presa sobre o lado direito do casaco. «É um escândalo», dizia uma. «Um escândalo», confirmava a outra enquanto procurava na mala de pano um pacote de lenços de papel, tirava um e se assoava sem fazer qualquer barulho. Atrás de mim, duas adolescentes comparavam toques de telemóvel, riam-se muito indiferentes à polémica. Voltei a encaminhar-me para a parte dianteira do dezassete, onde motorista e revisor prosseguiam o tónico animado: «Perdeu-se o respeito e os políticos são uns corruptos. Precisávamos de voltar ao antigamente.» E foi então que percebi tudo. Os telespectadores da RTP escolheram ontem António de Oliveira Salazar como o maior português de sempre e o dezassete seguia em alvoroço pela bizarria do facto.

É lamentável, muito triste mesmo, que um grupo de votantes escolha um pequeno ditador, tacanho e provinciano, como modelo a seguir. Mas é um sério aviso à navegação - as pessoas estão fartas da crise, dos políticos corruptos, das medidas de cosmética, dos salários baixos, deste projecto de Portugal falido. O escândalo não é a conversa do dezassete, nem a escolha de salazar como o maior português. O escândalo é a política de educação deste país.

12.3.07

Greenpeace

De todos os ecologistas que conheço nesta cidade - biólogos e escuteiros; vadios que dormem sob um tecto estrelado, em bancos de jardim, e passam os dias a alimentar pombos com pedaços de pão duro vasculhados nos caixotes de lixo; matilhas de freaks de garrafa de vinho e djambé em punho, amontoados nas ruas pedonais a cravar trocos para compensar a batida, e inevitavelmente rodeados de cães por todos os lados - a maior é sem dúvida a dona Margarida.

A dona Margarida vive na América, é a minha senhoria. É mulher de sentenças catastróficas, ao longo de um só dia é capaz de ordenar morte verbal a um bairro inteiro e, no entanto, derrete-se sempre que encontra qualquer animal desolado - um pombo de asa partida, um gato que o dono pretende afogar, um perro abandonado nas férias. Há dias, corria eu para a estação para apanhar o comboio para Sintra, encontrei-a na rua revoltada: «cortaram-me duas árvores.» Onde? «Ali em cima, perto da avenida de Roma.» As árvores não eram dela? Eram. As árvores são de quem as ama.

Na sua casa na América, dona Margarida acolhe os refugiados das ruas. São três cães e oito gatos, mais dois pombos de asas quebradas. Costumo encontrá-la a passear os primeiros, a bengala numa mão e duas trelas na outra [um dos perros caminha solto], mais um chapéu de padrão galês que lhe dá um ar senhorial.

A outra casa que dona Margarida tem livre no prédio serve de abrigo à passarada das redondezas. E junto à escadaria do sétimo piso, que tem alguns vidros partidos, coloca recipientes de água para as aves de Lisboa se refrescarem. Diz-me que já teve muitos mais cães, muitos mais gatos, e uma diversidade de animais que nem sequer consigo reproduzir.

A dona Margarida usa óculos, tem miopia como eu. E, ao longo destes meses de América, não foram raras as vezes que ela me convidou para almoçar.

É, repito, a maior amante dos animais que eu conheço.