Sempre tive uma teoria - se a passagem do ano é uma grande noite, então o ano é mau. E vice-versa.
Shit.
Este ano não promete.
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4.1.10
25.5.09
Pensamento do dia
A quantidade de trabalho que uma pessoa tem de deixar pronta antes de se ausentar por umas semanas equivale seguramente à quantidade de trabalho que uma pessoa faria se não se ausentasse.
9.2.09
Crise de quê?

Em mandarim, a palavra crise é igual a oportunidade.
Dou por mim a pensar que esta crise pode muito bem ser a melhor coisa que já nos aconteceu. Este pode ser o tempo do mérito, finalmente.
Vamos aos factos: somos um povo tramado e queixamo-nos muito. Não conheço um português que não sinta que está subavaliado, mal pago, que ocupa um degrau abaixo da categoria onde devia estar. Muitos terão razão e por isso não se esforçam mais, não facilitam a vida a ninguém, encerram-se na sua amargura e ali permanecem. À espera do dia em que reparem neles e os salvem daquela injustiça.
É a senhora do café que não sabe sorrir, o funcionário do banco que faz questão de falar com autoridade, o professor que insiste em ser tratado com uma deferência tremenda. É o médico que trata mal o doente, a senhora da limpeza que limpa metade e esconde o outro meio debaixo do tapete, o administrador que se rodeia de amigos para nunca ser questionado. Somos nós todos, que contratamos ou tentamos ser contratados com um jeitinho, uma palavrinha, uma referência.
Como é que chegámos aqui? A cumprir serviços mínimos, não é preciso fazer mais se não me pagam para mais. E isso nem é o pior. O pior é pensarmos que a nossa vida está lixada, por isso o melhor é lixar a vida do outro, torcê-lo e rebaixá-lo, para fingir que ele está mais lixado do que nós. E se por acaso o tipo até está a subir na vida, então é lixá-lo pelas costas, porque «esse gajo tem a mania que é bom», «subiu na vida a reboque de alguém». De frente damos-lhe graxa, porque no fundo gostávamos de estar ali. Era ali que queríamos estar. Que, convencemo-nos, merecíamos estar.
E agora a crise lixa-nos mais, deita-nos abaixo, nem sequer as regalias que temos no degrau abaixo que sabemos que ocupamos está garantida. Suspiramos por mais e afinal é menos. Então pode ser que tenhamos de sorrir quando tiramos um café, que facilitemos a vida a quem precisa de uma informação, que ensinemos em vez de querer ser professores.
Intimamente percebemos que, se nos continuamos a lixar assim, então isto fica tudo lixado de vez e daqui ninguém se salva. Se calhar chegou mesmo a hora de trabalhar melhor, produzir mais, ter um melhor desempenho. Porque vem aí o desemprego, a precariedade, a crise.
Esta é, Portugal, a tua oportunidade. Agarra-a. Ou então afoga-te de vez.
1.10.08
Não me pagam para isso
O Frutalmeidas, na Avenida de Roma, tem provavelmente os melhores pastéis de massa tenra do mundo. Não é que eu seja grande apreciador de pastéis de massa tenra, mas eles lembram-me as tardes de Inverno em que ficava sentado na mesa de azulejos da cozinha a fazer os trabalhos de casa com a Jaquina nas minhas costas, a estender massa no balcão de mármore. Era ritual da chegada do frio, fazer croquetes, rissóis e pastéis de massa tenra. A Jaca, muitas vezes com a ajuda da minha avó, produzia centenas de salgadinhos, estendiam-nas numas caixas grandes de plástico, separadas em camadas por folhas de papel de alumínio, e congelavam-nos para todo o ano. Estou certo que a Jaquina, que agora está velhinha e reformada, não produz os pastéis de massa de tenra do Frutalmeidas, mas, que raios, sabem exactamente ao mesmo.
Ao sábado de manhã [pronto, às três da tarde], vou invariavelmente beber um sumo de maçã natural e comer dois pastéis ao Frutalmeidas. O problema é o atendimento. Digo boa tarde e o empregado não responde. Abana a cabeça para perguntar o que quero e traz o pedido largando-o apressadamente em cima da mesa. Pago, não diz uma palavra, nem sequer um obrigado. E dou por mim a pensar que, se a Jaquina estivesse ali, veria o facto como uma afronta.
Chateia-me o mau atendimento em Portugal porque é um país de turismo. Percebo que as pessoas estejam cansadas de apertar o cinto, da crise, de ganhar mal, mas ninguém tem de levar com a má onda dos outros quando está a adquirir um bem ou serviço. É uma questão de profissionalismo.
Atitudes que me transcedem:
1. Peço uma italiana ao balcão, trazem-me uma bica cheia e eu protesto. Muitas vezes perguntam se têm mesmo de tirar outra, se não quero beber assim.
2. Peço uma coca-cola com gelo e respondem-me que a cola está fresca. Eu insisto que quero num copo cheio de gelo e trazem-me duas pedras.
3. Peço um café e um copo de água e dizem-me para me servir eu próprio do copo de água. Convenhamos que um jarro cheio há sabe-se lá quanto tempo e uma série de copos dispostos em fila não são propriamente higiénicos. E é aquela onda do «a mim ninguém me paga para servir copos de água.»
Há uns dias, estava no Crew Hassan a jantar com uns amigos, mas cheguei tarde e eles já estavam a meio da refeição. Pedi o meu prato, paguei e sentei-me com eles. Não havia rigorosamente mais ninguém no Crew Hassan. Passado um bocado, uma rapariga saiu da cozinha, passou o balcão e veio à mesa dizer-me: «O seu prato está pronto, não fazemos serviço de mesa.» Ela veio à mesa e não foi capaz de trazer o prato, mesmo com a sala vazia, porque simplesmente «não era função» dela. Impressionante.
Voltando aos pastéis de massa tenra, a Jaquina também não tinha obrigação de fazer salgados. Empregada doméstica, era essa a sua função. Mas ela era muito mais do que isso. Tinha brio e interesse, preocupava-se de facto com as coisas. E conseguiu fazer aquilo que temos dificuldade de fazer em Portugal: marcar realmente a diferença.
Ao sábado de manhã [pronto, às três da tarde], vou invariavelmente beber um sumo de maçã natural e comer dois pastéis ao Frutalmeidas. O problema é o atendimento. Digo boa tarde e o empregado não responde. Abana a cabeça para perguntar o que quero e traz o pedido largando-o apressadamente em cima da mesa. Pago, não diz uma palavra, nem sequer um obrigado. E dou por mim a pensar que, se a Jaquina estivesse ali, veria o facto como uma afronta.
Chateia-me o mau atendimento em Portugal porque é um país de turismo. Percebo que as pessoas estejam cansadas de apertar o cinto, da crise, de ganhar mal, mas ninguém tem de levar com a má onda dos outros quando está a adquirir um bem ou serviço. É uma questão de profissionalismo.
Atitudes que me transcedem:
1. Peço uma italiana ao balcão, trazem-me uma bica cheia e eu protesto. Muitas vezes perguntam se têm mesmo de tirar outra, se não quero beber assim.
2. Peço uma coca-cola com gelo e respondem-me que a cola está fresca. Eu insisto que quero num copo cheio de gelo e trazem-me duas pedras.
3. Peço um café e um copo de água e dizem-me para me servir eu próprio do copo de água. Convenhamos que um jarro cheio há sabe-se lá quanto tempo e uma série de copos dispostos em fila não são propriamente higiénicos. E é aquela onda do «a mim ninguém me paga para servir copos de água.»
Há uns dias, estava no Crew Hassan a jantar com uns amigos, mas cheguei tarde e eles já estavam a meio da refeição. Pedi o meu prato, paguei e sentei-me com eles. Não havia rigorosamente mais ninguém no Crew Hassan. Passado um bocado, uma rapariga saiu da cozinha, passou o balcão e veio à mesa dizer-me: «O seu prato está pronto, não fazemos serviço de mesa.» Ela veio à mesa e não foi capaz de trazer o prato, mesmo com a sala vazia, porque simplesmente «não era função» dela. Impressionante.
Voltando aos pastéis de massa tenra, a Jaquina também não tinha obrigação de fazer salgados. Empregada doméstica, era essa a sua função. Mas ela era muito mais do que isso. Tinha brio e interesse, preocupava-se de facto com as coisas. E conseguiu fazer aquilo que temos dificuldade de fazer em Portugal: marcar realmente a diferença.
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3.7.08
Geração higiénica
Os sixties foram os anos rebeldes, os seventies assistiram ao nascimento do punk e do new age, os eighties foram os anos das lantejoulas e do porreirismo [com o pessoal a afundar-se em heroína, a sida a aparecer, as regras do jogo a mudar] e os nineties não tiveram ícone maior do que o álbum Nevermind, dos Nirvana. Em tradução literal, «não quero saber» ou, perdoem o meu francês, «estou-me a cagar». Foi a atitude que marcou a última década do século XX.
A mudança de século e de milénio inverteu tudo. O terrorismo pôs a malta a pensar, logo no início desta década. É difícil perceber uma geração quando ela marca o presenta, mas agora que passaram oito anos e meio, já se adivinha como vão ser recordados os anos 2000.
Higiénicos.
Esta geração não bebe nem fuma, pratica desporto em ginásios, faz reciclagem, é adepta do vegetarianismo, veste-se bem, bronzeia todo o corpo, toma suplementos vitamínicos mas abdica dos esteróides, rapa os pêlos do peito, come saladas e peixe grelhado, prefere cola zero ou cola light à cuba libre, faz yoga e tai-chi, deita-se cedo e acorda cedo, escolhe drogas sintéticas, cortadas com lixívia e desinfectantes. É a geração que viu nascer a ASAE e alei do tabaco, por exemplo. Provas mais que provadas de que valor maior dos nossos tempos é a higiene, a salubridade. Todos temos de estar incrivelmente em forma, absolutamente saudáveis, preferencialmente puros.
Nada de mal até aqui. Foi preciso passar uma borracha pela segunda metade do século XX, anos duros onde tudo se experimentou, onde tudo foi uma possibilidade, e começar de novo. Começar bem, limpinho, clean. Mas depois vieram os exageros.
Na Holanda, foi aprovada uma lei que impede o consumo de tabaco em todos os locais públicos, incluíndo os coffeeshops. Podem ler a notícia aqui: http://www.usatoday.com/news/world/2008-06-26-amsterdam-tobacco_N.htm
Os frequentadores destes espaços poderão fumar ganzas à vontade dentro dos estabelecimentos, mas apenas se estas não contiveram tabaco. Os cigarros também estão proibídos, só charros puros, de haxixe ou erva.
Eis a onda higiénica levada ao extremo. Ridículo, não é?
A mudança de século e de milénio inverteu tudo. O terrorismo pôs a malta a pensar, logo no início desta década. É difícil perceber uma geração quando ela marca o presenta, mas agora que passaram oito anos e meio, já se adivinha como vão ser recordados os anos 2000.
Higiénicos.
Esta geração não bebe nem fuma, pratica desporto em ginásios, faz reciclagem, é adepta do vegetarianismo, veste-se bem, bronzeia todo o corpo, toma suplementos vitamínicos mas abdica dos esteróides, rapa os pêlos do peito, come saladas e peixe grelhado, prefere cola zero ou cola light à cuba libre, faz yoga e tai-chi, deita-se cedo e acorda cedo, escolhe drogas sintéticas, cortadas com lixívia e desinfectantes. É a geração que viu nascer a ASAE e alei do tabaco, por exemplo. Provas mais que provadas de que valor maior dos nossos tempos é a higiene, a salubridade. Todos temos de estar incrivelmente em forma, absolutamente saudáveis, preferencialmente puros.
Nada de mal até aqui. Foi preciso passar uma borracha pela segunda metade do século XX, anos duros onde tudo se experimentou, onde tudo foi uma possibilidade, e começar de novo. Começar bem, limpinho, clean. Mas depois vieram os exageros.
Na Holanda, foi aprovada uma lei que impede o consumo de tabaco em todos os locais públicos, incluíndo os coffeeshops. Podem ler a notícia aqui: http://www.usatoday.com/news/world/2008-06-26-amsterdam-tobacco_N.htm
Os frequentadores destes espaços poderão fumar ganzas à vontade dentro dos estabelecimentos, mas apenas se estas não contiveram tabaco. Os cigarros também estão proibídos, só charros puros, de haxixe ou erva.
Eis a onda higiénica levada ao extremo. Ridículo, não é?
6.6.08
Eu não queria, mas vou

Não tenho bilhete para nenhum concerto e no entanto assisto a todos. Da janela do meu arranha-céus na América, a vista para o Parque da Bela Vista é directa. A audição também e por isso oiço os concertos todos, os comentários dos artistas para o público, o fogo de artifício e a p$#@& da tenda electrónica. Deixem-me dormir, caraças.
No dia em que começaram os concertos tinha um simpático papel da organização do festival a pedir desculpas antecipadas pelo incómodo que o Rock In Rio Lisboa pudesse causar e a apelar ao famoso sentido de hospitalidade do povo português. Graxa pura [que em linguagem pós-moderna se chama Relações Públicas].
Eu nem sou pessoa de me deitar cedo. Não é isso. Mas gosto de ir para casa escrever em paz, ler em paz, jantar ou cear em paz. Não dá. É impossível. As janelas tremem com o ruído, os decibéis atingem níveis de poluição sonora ilegais numa área urbana, mas tudo é permitido em nome da excepção Rock In Rio. Se eu quiser dar uma festa em casa, algo me diz que o limite das autoridade será muito menos flexível.
Ontem cheguei a casa às duas da manhã e alguém tinha pendurado cartazes a apelar à realização de um abaixo-assinado entre moradores. A ideia era Rock In Rio SIM, Tenda Electrónica NÃO. Menos de uma hora depois, esses cartazes tinham sido arrancados, o que me faz suspeitar que há uma máfia activa em pleno Parque da Bela Vista.
Eu adoro música. Eu adoro festa. Mas odeio ter de me divertir à força.
3.4.08
Bens perecíveis
Toca o telefone. Era noite, fez-se Dia.
«Olá, estás sentado?»
«Nop, estou na rua.»
«Senta-te.»
Sentei.
«Tenho um frigorífico para ti», disse ela.
Levantei.
E comecei as celebrações ali mesmo.
Nos últimos dois anos, vivi sem frigorífico. Habituei-me a ir ao supermercado se queria alimentos frescos, tornei-me rei dos enlatados, comprava leite em pacotes pequenos, de criança, zero vírgula dois litros de mimosa e nem mais uma gota. Fiambre nem pensar, queijo só se for da vaca sorridente, soja em vez de carne picada, vinho tinto no lugar das jolas. Dois anos assim, sem sopa.
Não é que me custasse particularmente viver sem frigorífico. O ser humano tem uma adpatabilidade extraordinária. Toda a gente sabe que não há frigoríficos em África, que no lote de bens essenciais - realmente essenciais - um frigorífico não tem categoria. Mas este domingo, a meio da tarde, eu fui buscar o tal bem dispensável. Weeeeeeeeeeeeeeeeeeee.
Ainda antes de chegarmos a América, de eu e o Jordi pormos o frigorífico no elevador para subir ao décimo piso - onde viverá feliz para sempre - paramos no Pingo Doce. É a festa do alimento perecível. Compro alface, carne para congelar, queijo e fiambre, iogurtes, sacos para fazer gelo, garrafas de vinho branco, cerveja, leite, manteiga, mostarda Dijon, sopas da Knorr [não em pó, mas líquida, daquelas pré-cozinhadas]. Deixo-me nitidamente levar pelo momento e gasto uns valentes €61,16 em coisas que se podem estragar, mas depois a Dia chama-me à atenção que o número é uma capicua e isso só pode ser um óptimo presságio. Seja.
Quando finalmente retorno a casa, decido baptizar o frigorífico de Fred, a Dia e o João trazem-me os sacos de compras e fumamos todos um cigarro [ok, não era exactamente um cigarro] para comemorar o momento. Limpo o Fred, ligo-o à ficha e rio de felicidade.
Agora, tudo é possível.
E ainda por cima está a chegar o Verão.
11.3.08
Cure for pain
Eu tinha o bilhete comprado desde Novembro e acordei feliz no sábado. Mandei mensagens a quem ia comigo. Disse «Show me how you do it, and I promisse you, I promisse that, I'll runaway with you». Angariei mais fugitivos. Sete da noite, imperial. Oito e meia, pavilhão atlântico. Weeeeeeeeeeeeeeeee.
Mr. Robert Smith está um pouco mais gordo. Mas a voz, inconfundível, preserva truques de ilusionista. Quantas memórias acumuladas nesta sonoridade? Viagens e dores e romances e melodramas e amigos e praia e tudo.
Mr. Smith também gostou do concerto. Cantou durante mais de três horas, dançou como nunca, avançou até à frente do palco para partilhar emoções com a plateia. E foi precisamente nesse momento, um dos mais íntimos do concerto, que chegou a perplexidade.
Robert Smith estava no limite do palco, encostado ao público, a cantar de mão estendida para a massa. Oferecia a mão e a alma, num gesto que é pouco habitual nele. Ninguém, quase ninguém, lhe estendeu a mão. Em vez de se deixarem ir, de se entregarem à empatia do momento, os que estavam na frente do palco preferiram erguer os telemóveis e gravar essa fabulosa magia de Mr. Smith.
Ele de braços estendidos ao público e o público de telemóvel estendido a ele. Não pude deixar de pensar que isto é um sinal dos tempos. Seja a gravação para mostrar aos outros ou para ver mais tarde, é uma estranha mediação. Toda a gente preferiu gravar a magia do que vivê-la. Que raio de tempos estes.
10.12.07
Pretérito perfeito
Por estes dias, Lisboa parece uma obra embargada. Não há luzes de Natal no Rossio, os taipais vanguardistas do Cais da Coluna já pouco disfarçam a inutilidade do Terreiro do Paço, o comércio tradicional recusa abrir portas ao domingo, mesmo que estejamos em período de vendas e as grandes superfícies sejam obrigadas a fechar. Rua Augusta sem mimos. Bairro Alto sem boémios. Nem um grito audível na rua quando o Benfica marca golo.Pausa, Lisboa em suspenso.
Percorro a rua da Escola Politécnica sem ver vivalma. Ligo para dois ou três amigos, ninguém quer desbravar a urbe. Vou beber um chá, o Cister está fechado. De repente, descubro um tasco que a ASAE ainda não localizou, entro, sento-me, um moscatel. O último fio de luz ilumina o rosto da rapariga que está sentada à minha frente. Não é bonita, mas não consigo desviar os olhos dela. Está mergulhada na penumbra e um clarão de lusco-fusco incendeia-lhe o olho direito. Ela sorri-me, não com os lábios [consigo lá vê-los], mas com pestanas e sobrancelhas.
«Olá Ricardo, lembras-te de mim?»
Susana.
Colega da secundária, na altura uma espécie de cheerleader da turma. Gira, cheia de convicções, um terramoto de 16 anos. Agora aqui, à espera de coisa nenhuma. Os anos arredondaram-lhe o corpo mas preservaram-lhe a luminosidade do esgar. Estava na mesma. E isso significa que não se aparentava com nenhuma imagem que eu pudesse guardar do passado.
Desfiámos meia dúzia de memórias, pedi outro moscatel e ela acompanhou-me. Estava a trabalhar na cimeira, agora vive em Bruxelas, trabalha para a União Europeia. Contei-lhe das pessoas que ia vendo e das que nunca tornei a pôr olho em cima, queixei-me da cidade estar em ruínas e de nenhuma outra capital guardar alma de marinhagem.
Despedimo-nos com trocas de e-mail e promessa de nos mantermos em contacto. E, no exacto momento em que saímos para a rua, acenderam-se, muito embora tivessem forma de laçarotes e fossem de um gosto duvidoso, duas filas inteirinhas de luzes de Natal.
2.7.07
24 hour party people

Quem por estes dias se detenha diante de qualquer parede do Bairro Alto, do Cais do Sodré ou de Santos, rapidamente constata a febre de festa que anda a assolar a cidade. Há festivais de Verão em barda, os melhores DJ's do mundo, beach parties, pool parties, festas trance, electro, punk, pimba, 80's, drum&bass, r&b, cidade&arredores. Há festa na aldeia.
Ninguém escapa ao contágio. Pessoalmente, quero ir ao Festival de Músicas do Mundo, ver Underworld e Scissor Sisters, Gotan Project e não digo que não às festas de São Lourenço em Tourém, concelho de Montalegre, Trás os Montes. A maior parte dos meus amigos também tem destinos definidos. E os conhecidos e os que nunca vi em parte nenhuma. Chega o Verão e Portugal precisa urgentemente de se embriagar.
O fenómeno não deixa de me arrepiar os pêlos. Estamos em plena crise económica, ninguém consegue atravessar a Baixa lisboeta sem que lhe cravem dois ou três ou oito cigarros num percurso de dez minutos [a propósito, os pedidos são cada vez mais exigência. No outro dia disse a um tipo «não» e ele perguntou «mas não porquê», outra vez respondi a um rapaz «só tenho um» e ele retorquiu com «também é só um que eu quero»], as pessoas andam mais agressivas, mais enrezinadas e mais ressabiadas. Mas chegou a altura das festas e não há quem não se sinta obrigado a cumprir o mais pós-moderno dos rituais portugueses. Nasceu na última década uma Partyland. Mas tenho dúvidas se estamos na terra da party people.

Tenho normalmente essa sensação às sextas e sábados à noite, no Bairro Alto [evito cada vez mais incursões a estes dias]. Observem-se mitras, betos, nherfs e pseudointelectuais de esquerda para constatar o facto. Passam grande parte da semana isolados e chega o fim de semana e decidem: «Hoje vou divertir-me!» Então invadem o bairro, anestesiam-se com álcool ou substâncias psicotrópicas para que, da meia-noite às seis [sete, oito] da manhã se divirtam. O problema é que decidem previamente a sua diversão, planeiam-na num horário e num formato pré-definido. É a morte da espontaneidade, com ilusão de grande festa.
Não tenho nada contra noites bem regadas ou aditivas. Nem quero ser moralista ao ponto de pensar que quem sai à sexta e sábado é obrigatoriamente assim. Só me espanta a febre de party-goers que se assumem como tal nesta cidade, quando ainda há uns dias vi um tipo meter-se com uma série de gente no Bairro, com tiradas realmente cómicas e geniais, de uma forma descomplexada, como se estivesse em festaconstante. Reparei que a maior parte das pessoas com quem ele se metia o ignoravam ou lhe respondiam com a típica sobranceria lisboeta.
Ninguém percebeu que esse tipo estava a oferecer passaportes para a grande festa. Mas era uma festa espontânea, verdadeira, fora de formato.
29.5.07
Dar uma geral
Em Portugal trabalha-se mal. Um tipo que seja realmente competente no que faça não é recompensado por isso e um tipo que seja realmente incompetente no que faça não é castigado por isso. Seja no sector público ou em empresas privadas. A gestão de recursos humanos é, neste país, uma piada. Normalmente quem sobe na vida é porque é amigo do chefe, cão de fila ou yes-man. Há excepções, mas esta é a regra.
Em Portugal, muitas das pessoas que ocupam cargos de liderança receiam tanto serem ultrapassadas pelas pessoas mais novas [muitas vezes mais bem preparadas para as exigências profissionais] que muitas vezes bloqueiam o acesso às decisões a quem é bom. Há uma cultura do topo para as bases, quando a produtividade subiria se o processo ocorresse ao contrário. Obviamente.
Em Portugal, os chefes não partilham muitas vezes informação sobre o trabalho a desenvolver. Ouvem-se frases como: «ninguém te paga para pensar», «isso não é da tua competência», «reduz-te à tua insignificância». Ora, partilha também significa partilha de soluções, mas isso é vantagem que não se quer ver.
Em Portugal, não se elogia nem critica o trabalho dos outros, «mete-te mas é na tua vidinha». A excepção é quando aparece um tipo muito bom e que dá muito nas vistas. Aí, as pessoas falam, mas normalmente o sujeito é mais vezes alvo de inveja do que serve de exemplo. Trabalha-se mal em Portugal.
Em Portugal, há uma geração mil euros. Os que nasceram nos anos 70 só raras vezes conseguem ultrapassar esta fasquia – suficientemente modesta para manter condições de vida medíocres, suficientemente acima da média para ninguém criar ondas. É espiral sem fim, viver com mil euros. Até porque não há perspectiva de mudança.
Em Portugal, investiu-se nos baixos salários durante a segunda metade da década de oitenta e primeira de noventa como estratégia de desenvolvimento económico. Mas caiu o muro, veio a globalização e o país ainda não se soube reinventar. Um ministro convida empresários chineses a investirem em Portugal, porque os salários são baixos. O PM aumenta os impostos aos solteiros, aos deficientes e aos que querem morar sozinhos, para ordenar em rebanho de estratégia familiar [e remediada] a sociedade portuguesa. Não há formação profissional, não há aulas para trabalhadores estudantes, não há nada.
Em Portugal trabalha-se mal. E é por isso que eu adiro à greve geral de 30 de Maio. Não só por mim, não só pelos estagiários que enchem as redacções dos jornais a custo zero, não só pelas pessoas que conheço que se esfalfam como jornalistas e ganham menos do que um incompentente que não sai da secretária.
Faço greve porque em Portugal se trabalha mal. Mal demais.
Em Portugal, muitas das pessoas que ocupam cargos de liderança receiam tanto serem ultrapassadas pelas pessoas mais novas [muitas vezes mais bem preparadas para as exigências profissionais] que muitas vezes bloqueiam o acesso às decisões a quem é bom. Há uma cultura do topo para as bases, quando a produtividade subiria se o processo ocorresse ao contrário. Obviamente.
Em Portugal, os chefes não partilham muitas vezes informação sobre o trabalho a desenvolver. Ouvem-se frases como: «ninguém te paga para pensar», «isso não é da tua competência», «reduz-te à tua insignificância». Ora, partilha também significa partilha de soluções, mas isso é vantagem que não se quer ver.
Em Portugal, não se elogia nem critica o trabalho dos outros, «mete-te mas é na tua vidinha». A excepção é quando aparece um tipo muito bom e que dá muito nas vistas. Aí, as pessoas falam, mas normalmente o sujeito é mais vezes alvo de inveja do que serve de exemplo. Trabalha-se mal em Portugal.
Em Portugal, há uma geração mil euros. Os que nasceram nos anos 70 só raras vezes conseguem ultrapassar esta fasquia – suficientemente modesta para manter condições de vida medíocres, suficientemente acima da média para ninguém criar ondas. É espiral sem fim, viver com mil euros. Até porque não há perspectiva de mudança.
Em Portugal, investiu-se nos baixos salários durante a segunda metade da década de oitenta e primeira de noventa como estratégia de desenvolvimento económico. Mas caiu o muro, veio a globalização e o país ainda não se soube reinventar. Um ministro convida empresários chineses a investirem em Portugal, porque os salários são baixos. O PM aumenta os impostos aos solteiros, aos deficientes e aos que querem morar sozinhos, para ordenar em rebanho de estratégia familiar [e remediada] a sociedade portuguesa. Não há formação profissional, não há aulas para trabalhadores estudantes, não há nada.
Em Portugal trabalha-se mal. E é por isso que eu adiro à greve geral de 30 de Maio. Não só por mim, não só pelos estagiários que enchem as redacções dos jornais a custo zero, não só pelas pessoas que conheço que se esfalfam como jornalistas e ganham menos do que um incompentente que não sai da secretária.
Faço greve porque em Portugal se trabalha mal. Mal demais.
26.4.07
Abril
Descer a avenida da Liberdade, de cravo vermelho numa mão, sozinho. Comover-me com samba de imigrante, fingir que danço enquanto somo os passos descendentes até ao Rossio. Gritar «fascismo nunca mais», «o custo de vida aumenta, o povo não aguenta», olhar nos olhos das velhas - uma, desdentada, ofereceu-me o cravo - e ler-lhes alegria nos olhos. Viva a Liberdade, viva.
Encontrar a Sara de há alguns anos e alguns suspiros, combinar café, resgatar ao passado a química adormecida. Concentrar o Bruno, a Lena, a Meg [onde estava a Inês, que raio?], como fazíamos há dez anos e há cinco e há 13, cantar a Grândola baixinho, o cravo a amachucar-se nos dedos.
Jantar, petiscada, Zé Mário Branco a ecoar pela sala. Discutir a esquerda, a direita, os tortos, o país. Beber JP tinto como se fosse Barca Velha, devorar ovos com farinheira, sala de massa fria, gargalhadas, é Ábril.
25 de Abril sempre!
Encontrar a Sara de há alguns anos e alguns suspiros, combinar café, resgatar ao passado a química adormecida. Concentrar o Bruno, a Lena, a Meg [onde estava a Inês, que raio?], como fazíamos há dez anos e há cinco e há 13, cantar a Grândola baixinho, o cravo a amachucar-se nos dedos.
Jantar, petiscada, Zé Mário Branco a ecoar pela sala. Discutir a esquerda, a direita, os tortos, o país. Beber JP tinto como se fosse Barca Velha, devorar ovos com farinheira, sala de massa fria, gargalhadas, é Ábril.
25 de Abril sempre!
22.3.07
Road movie
Se há coisa que me tem dado gozo desde que fui viver para a América é ir ao cinema sozinho. Também gosto de ir acompanhado, de preferência bem acompanhado, mas de vez em quando dou uma volta maior a caminho de casa e passo de propósito pelo King só para ver o que anunciam os cartazes. Se gosto, entro e peço um lugar a meio da sala, sozinho, sem distúrbios. Aconteceu-me ontem.
No domingo fui beber um chá a Vale de Lobos e dei por mim a falar com os pais de uma amiga sobre os rituais de uma ida ao cinema. Nos anos 60 as pessoas aperaltavam-se para ir ver uma sessão ao Império, ao Europa, ao Éden ou ao Cinema Roma [todos eles extintos, fechados, recovertidos em locais de culto e colecta do dízimo, ou pior ainda, deitados abaixo e transformados em urbanizações e edifícios de escritórios], passavam dois filmes, ou então apenas um com documentários e espectáculos musicais pelo meio. Havia intervalos onde as mulheres se dirigiam ao foyer para bebericar capilé e os homens um moscatel. O cinema era fogueira de vaidades, ponto de encontro para conversas e escaladas sociais, palco informal de negócios e acertos de contas. Hoje as salas saíram do centro para a periferia da cidade, os filmes são exibidos em complexos multiplex, as pipocas substituíram o capilé e ninguém barra a entrada a quem entrar no cinema de sandálias, calções e saias.
O King tem algum glamour europeu, que é diferente do velho charme dos cinemas lisboetas. E, sem saudosismos dos tempos que não vivi, congrega o melhor dos dois mundos: é suficientemente descontraído mas não é ícone de nenhum padrão de consumo ou de montra de imagens para lá das que passam na tela. Além de que, ali, não se vendem pipocas. Por isso é que me deu tanto gozo ir sozinho ver o «Half Nelson» [bom filme, excelente interpretação]. Sentei-me no centro da sala disposto à solidão diante do ecrã quando, passados minutos, senta-se à minha direita um conhecido do Bairro Alto e à esquerda um conhecido da faculdade.
Lá se foi o plano de eremita. Mas o cinema é isto, não é? Uma escola de ilusões.
No domingo fui beber um chá a Vale de Lobos e dei por mim a falar com os pais de uma amiga sobre os rituais de uma ida ao cinema. Nos anos 60 as pessoas aperaltavam-se para ir ver uma sessão ao Império, ao Europa, ao Éden ou ao Cinema Roma [todos eles extintos, fechados, recovertidos em locais de culto e colecta do dízimo, ou pior ainda, deitados abaixo e transformados em urbanizações e edifícios de escritórios], passavam dois filmes, ou então apenas um com documentários e espectáculos musicais pelo meio. Havia intervalos onde as mulheres se dirigiam ao foyer para bebericar capilé e os homens um moscatel. O cinema era fogueira de vaidades, ponto de encontro para conversas e escaladas sociais, palco informal de negócios e acertos de contas. Hoje as salas saíram do centro para a periferia da cidade, os filmes são exibidos em complexos multiplex, as pipocas substituíram o capilé e ninguém barra a entrada a quem entrar no cinema de sandálias, calções e saias.
O King tem algum glamour europeu, que é diferente do velho charme dos cinemas lisboetas. E, sem saudosismos dos tempos que não vivi, congrega o melhor dos dois mundos: é suficientemente descontraído mas não é ícone de nenhum padrão de consumo ou de montra de imagens para lá das que passam na tela. Além de que, ali, não se vendem pipocas. Por isso é que me deu tanto gozo ir sozinho ver o «Half Nelson» [bom filme, excelente interpretação]. Sentei-me no centro da sala disposto à solidão diante do ecrã quando, passados minutos, senta-se à minha direita um conhecido do Bairro Alto e à esquerda um conhecido da faculdade.
Lá se foi o plano de eremita. Mas o cinema é isto, não é? Uma escola de ilusões.
13.3.07
Avanços científicos
Ontem estive em Cabo Verde. Já não ia lá desde 2000, morria de sôdade, sôdade, sôdade...
Entrei em Cabo Verde à meia noite, saí às três da manhã. No minuto anterior a aterrar no Mindelo estava em Lisboa, no minuto seguinte também.
Não tive por isso tempo para qualquer voo transcontinental, fui a Cabo Verde e vim por teletransporte. Einstein tinha razão, há tantos anos que ele anunciou viagens no espaço e no tempo com a sua teoria da relatividade.
Os cientistas ainda não sabem como funciona o teletransporte, mas eu aprendi tudo ontem à noite. Mudei de continente em menos de ai, assim que subi as escadas do B. Leza para ouvir Tito Paris.
Lá dentro estava aquele calor suado das ilhas, cerveja morta ao balcão, regras de sedução simples para dançar mornas ou coladeras.
Não há dúvidas. Ontem estive mesmo em Cabo Verde.
Entrei em Cabo Verde à meia noite, saí às três da manhã. No minuto anterior a aterrar no Mindelo estava em Lisboa, no minuto seguinte também.
Não tive por isso tempo para qualquer voo transcontinental, fui a Cabo Verde e vim por teletransporte. Einstein tinha razão, há tantos anos que ele anunciou viagens no espaço e no tempo com a sua teoria da relatividade.
Os cientistas ainda não sabem como funciona o teletransporte, mas eu aprendi tudo ontem à noite. Mudei de continente em menos de ai, assim que subi as escadas do B. Leza para ouvir Tito Paris.
Lá dentro estava aquele calor suado das ilhas, cerveja morta ao balcão, regras de sedução simples para dançar mornas ou coladeras.
Não há dúvidas. Ontem estive mesmo em Cabo Verde.
23.2.07
Pensamentos itinerantes
A meio da Avenida Almirante Reis, entre a cervejaria Portugália e o centro comercial com o mesmo nome, há uma espécie de vão de escada onde vivem sete sem-abrigo. Vieram todos do Leste da Europa - cinco ucranianos, dois romenos - e fazem-me pensar se a Cortina de Ferro caiu mesmo ou não foi mais do que a ilusão globalizada de um muro em ruínas. Entraram em Portugal ilegais, trabalharam nas obras com salários vergonhosos e sem regalias sociais, foram despejados das casas que alugaram e partilham aquela aldeia de cartão e plástico mesmo no centro da urbe. Estranha comunidade desolada, quotidianos afogados em solidão, muito vinho a aquecer as noites frias da Lisboa invernal.
O centro comercial Portugália é um cenário tão desolador quanto o da aldeia de cartão e plástico. Lojas vazias, um café decrépito, um cabeleireiro africano escondido na sub-cave, um «Independente» falido no oitavo andar. Mas são vistas estáticas, imutáveis, não fosse o pó que se vai acumulando no interior das montras cheias de coisa nenhuma.
Os sem-abrigo, pelo contrário, são a metáfora da condição nómada da raça humana. Caçadores-recolectores de caixotes de lixo e sobras dos outros, preparados para mudar a localização da tribo assim que o mundo lhes exija que se escondam dos olhares dos outros. E, no fundo, nada os prende. Edificaram uma cidade gasosa no meio da cidade de betão e placa.
Há três ou quatro noites seguidas que não durmo em casa. Ando com uma mochila com o que considero essencial - duas mudas de roupa, escova e pasta de dentes, a cera para o cabelo. Ou seja, ando a fazer o meu próprio ensaio nómada, a dormir em casa de amigas, jantar em casa de amigos, visitar a família, registo non-stop. É um interrail urbano, este. Provocar a sensação das férias [andar, seguir, avançar, não há amarras] em quotidiano de rotinas. Quebrá-las, então, ou simular que sim.
É que entre viver numa aldeia de cartão e plástico no meio da urbe de betão ou sentir-me montra de loja que se enche de pó prefiro a primeira. Sentir-me sem-abrigo, em constante viagem. É o meu defeito de fabrico, o meu erro genético. Ou então é só porque não saio de Portugal há cinco meses.
O centro comercial Portugália é um cenário tão desolador quanto o da aldeia de cartão e plástico. Lojas vazias, um café decrépito, um cabeleireiro africano escondido na sub-cave, um «Independente» falido no oitavo andar. Mas são vistas estáticas, imutáveis, não fosse o pó que se vai acumulando no interior das montras cheias de coisa nenhuma.
Os sem-abrigo, pelo contrário, são a metáfora da condição nómada da raça humana. Caçadores-recolectores de caixotes de lixo e sobras dos outros, preparados para mudar a localização da tribo assim que o mundo lhes exija que se escondam dos olhares dos outros. E, no fundo, nada os prende. Edificaram uma cidade gasosa no meio da cidade de betão e placa.
Há três ou quatro noites seguidas que não durmo em casa. Ando com uma mochila com o que considero essencial - duas mudas de roupa, escova e pasta de dentes, a cera para o cabelo. Ou seja, ando a fazer o meu próprio ensaio nómada, a dormir em casa de amigas, jantar em casa de amigos, visitar a família, registo non-stop. É um interrail urbano, este. Provocar a sensação das férias [andar, seguir, avançar, não há amarras] em quotidiano de rotinas. Quebrá-las, então, ou simular que sim.
É que entre viver numa aldeia de cartão e plástico no meio da urbe de betão ou sentir-me montra de loja que se enche de pó prefiro a primeira. Sentir-me sem-abrigo, em constante viagem. É o meu defeito de fabrico, o meu erro genético. Ou então é só porque não saio de Portugal há cinco meses.
22.2.07
Rebenta a bolha
Nitidamente sou da geração de 70. E ainda bem, porque eu e os outros da segunda metade da década crescemos com algum do sistema de valores dos tipos que apanharam com o 25 de Abril em cima, mas não nos lixámos tanto como eles [o nacional-porreirismo dos que eram teenagers nos 80's descambou em muita droga, pouca acção, alguma desilusão e um peculiar desconsolo social]. Fomos os últimos a ir brincar «lá para baixo», que é como quem diz na rua - as miúdas a saltar ao elástico, os rapazes a jogar ao guelas, quem tivesse o maior abafador era rei do recreio, todos a partilhar sirumba e futebol humano, escondidas, apanhada, o máta. E fomos os últimos com três disciplinas no 12º ano, a ter que levar aquelas horrorosas sapatilhas brancas para as aulas de educação física, a saber de cor as letras do Zeca Afonso.
O meu irmão mais novo, de 1982, tem uma opinião menos saudosista, zomba do estilo «no meu tempo é que era bom». Diz ele que quem nasceu nos 70's é normalmente «enrezinado», «parece que lhes devem e não lhes pagam». Mas lá admite que somos uma geração equilibrada, os tais que fazem reciclagem, votam, discutem política, cresceram com a obsessão do objectivo de vida e estão mais ou menos cientes de que é preciso tomar opções, definir um rumo. Eles não, são mais go with the flow. «Nós temos mais acesso à informação do que vocês mas somos menos informados em termos gerais, e mais em interesses particulares», sentencia o David. Concordo. E continuo a preferir a idade que tenho.
No entanto, na última semana, estas certezas ficaram subitamente abaladas pela dificuldade em transitar a velha conta de blogger para a nova versão. Acabei por demorar vários dias a conseguir alcançar o sucesso da conversão e não pude fazer laboratório ao mundo através da minha janela na América. A resolução do drama só ocorreu com a ajuda de um dos inaptos da nova geração, esses que nasceram depois de 1980, não sabem nada, têm interesses particulares e nem se dão ao trabalho de ter cartão de eleitor. Pois bem, não sabem nada, mas transitaram-me a conta em menos de um minuto, devolveram-me ar para respirar e salvaram este blog da perdição certa.
Se calhar, tenho que reequacionar os meus conceitos geracionais.
PS: A partir da próxima semana abre uma nova rúbrica no arranha-céus chamada Janela com vista. Basicamente serão posts convidados de amigos, companheiros de viagem, de profissão, da blogosfera. Ou outros. Wait and see!
O meu irmão mais novo, de 1982, tem uma opinião menos saudosista, zomba do estilo «no meu tempo é que era bom». Diz ele que quem nasceu nos 70's é normalmente «enrezinado», «parece que lhes devem e não lhes pagam». Mas lá admite que somos uma geração equilibrada, os tais que fazem reciclagem, votam, discutem política, cresceram com a obsessão do objectivo de vida e estão mais ou menos cientes de que é preciso tomar opções, definir um rumo. Eles não, são mais go with the flow. «Nós temos mais acesso à informação do que vocês mas somos menos informados em termos gerais, e mais em interesses particulares», sentencia o David. Concordo. E continuo a preferir a idade que tenho.
No entanto, na última semana, estas certezas ficaram subitamente abaladas pela dificuldade em transitar a velha conta de blogger para a nova versão. Acabei por demorar vários dias a conseguir alcançar o sucesso da conversão e não pude fazer laboratório ao mundo através da minha janela na América. A resolução do drama só ocorreu com a ajuda de um dos inaptos da nova geração, esses que nasceram depois de 1980, não sabem nada, têm interesses particulares e nem se dão ao trabalho de ter cartão de eleitor. Pois bem, não sabem nada, mas transitaram-me a conta em menos de um minuto, devolveram-me ar para respirar e salvaram este blog da perdição certa.
Se calhar, tenho que reequacionar os meus conceitos geracionais.
PS: A partir da próxima semana abre uma nova rúbrica no arranha-céus chamada Janela com vista. Basicamente serão posts convidados de amigos, companheiros de viagem, de profissão, da blogosfera. Ou outros. Wait and see!
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