Fala, Hugo. É desta forma singela e directa que os cariocas dizem Bom Dia. Eu continuo a preferir o instrumento de bocegar ar e simultaneamente dizer BOOOOM DIA, mas tambem nada se pode exigir de quem não toma pequeno almoço, mas sim café da manhã.
Gosto de Favela, lá tem picolé, lá tem baseado, lá tem moleque, lá tem sorriso, lá tem neguinha, lá tem medo, lá tem bicicreta, lá tem framenguista, lá tem gato-net, lá tem sacolé, lá tem invasão, lá tem camborão, lá tem lágrima, lá tem bandido, Não Gosto de Favela.
O virus da Dengue, que já foi estatico, comum, hemorragico, visceral, assumiu nova faceta surreal agora é virus da Dengue Poetica. Tem o ritual dum animal noctivago e morde preferencialmente pela madrugada quando os corpos fazem amor. E morrem...
O Romário (Baixinho) tem golos em falta, e espera por uma falta para lhe faltarem menos golos ou faltas. Faltam 2. Tem 998. No Domingo espero que marque um com a perna que partirá em dupla factura exposta e inibirá de jogar jamais.Ele tem uma filha com sindrome de Down....Irónico.
Na Lapa vendem-se beijos e roubam-se cervejas. Na Lapa roubam-se sorrisos e vendem-se bohemias. Na Lapa vendem-se gringos e roubam-se abraços. Na Lapa roubam-se sambas e vendem-se suores. Na Lapa, nos Arcos da Lapa....te dou uma lingua.
Paf, paf, paf faz a pistola. Trak, trak, trak faz a metralhadora. Pum faz a Granada. O Rio como cidade-maravilha têm tudo o que podem fantasiar/imaginar/idolatrar mas existe um ligeiro mas.....Mas,Mas,Mas faz a pistola. Mas,Mas,Mas faz a metralhadora. Mas faz a Granada.
Crystal, Bohemia, Antartica, Itaipava, Cintra, Bavaria, Kaiser, Petra, Nova Schin, Belco, Lokal, Cerpa, Skol, Lecker, Brahma e Primus expresso em modelos Pilsen, Malzbier, Beats, Bock, Gold, Light, Extra, Chopp, Lemon, Premium, Kolsch,...e quanto não vale uma Mini Sagres????
O Sol por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem é inferno. A praia por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem é cegueira. A noite por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem samba.
Minha filha nasceu há dois meses, e elas já são três. Primeiro a pequena, com bigode à Manuel, feia, e imensamente fragil. A Segunda com olhares ferozes e questionadores, perguntando porque e respondendo onde. Agora a Terceira que sorri sem dentes, vomita gracejos, já diz Benfica e é Linda!!!!!!!!!!!
[O Hugo tornou-se carioca, mergulhou no Rio de Janeiro por amor e em Ipanema por filiação. Conheci-o quando ainda era um homem da Covilhã, depois veio para Lisboa e agora vive no Brasil, com a mulher e a filha, bebé de meses. Jantares em casa dele, o quintal da Copa que instalou na Penha de França, algumas imperiais, horas de conversa - eis os registos da memória transatlântica. Saudades avivadas por este texto. Brilhante, meu irmão.]
Mostrar mensagens com a etiqueta janela com vista. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta janela com vista. Mostrar todas as mensagens
23.3.07
Janela com vista #03 - Helena Teixeira da Silva
Na Primavera começava a contagem decrescente. Os cadernos pretos encadernados com a arte que à altura admirávamos já quase não tinham páginas brancas, mas sabíamos que não tínhamos que comprar cadernos novos. Juntavam-se umas folhas A4 emprestadas e serviam perfeitamente para apontar uns sumários aos quais já não daríamos grande importância. Como se o sol fosse a fronteira que ditava a matéria que já não sairia nos testes. Os livros, já todos amarrotados, serviam-nos de almofadas nos intervalos. E os intervalos eram cada vez maiores porque descobríamos o prazer de chegar depois do segundo toque, de sentar na última fila, de não esticar o dedo para responder às perguntas só porque não - o sabor de quem sabe que está no fim da linha. De quem tem os pés na sala e a cabeça onde a voz do professor não chega.
Experimentávamos, com a excitação dos rituais clandestinos, os primeiros cigarros atrás dos pavilhões; alguns trocavam os primeiros beijos. Os contínuos, com os olhos dentro dos bolsos das batas, fingiam não ver. Sorriam discretamente, não como guardiães daquele segredo; mas como se só eles soubessem que nenhum amor sobreviveria às férias grandes. Havia sempre só um rapaz desejado - o mais marginal e tendencialmente o mais velho; sempre só uma rapariga - a mais bonita. Ninguém ficava triste com isso. Era assim. No ano seguinte, talvez os eleitos fossem outros. Eram outros. Trocavam-se bilhetes, promessas enigmáticas escritas a giz nos postes pretos dos corredores. E sonhos, que não eram de Verão, mas do próximo campeonato lectivo. E tudo batia sempre certo. Como nos filmes. Nenhuma história capotava.
Um dia, saíamos de casa para a escola sabendo que não teríamos escola. A lição número cem de cada disciplina era comemorada com pic-nic e gazeta. E euforia. Não era só o ano lectivo que estava a quase a acabar. Eram esses amores, protelados durante três períodos, que floresciam, finalmente. Eram as frases silenciadas que ganhavam forma. Era a súbita confiança com os professores e a argumentação que os convencia a esticar um quatro para um cinco - ou um dois para um três. E eles cediam, certamente convictos de que inflacionar notas na aldeia não haveria de corromper o mundo. Era o contraditório desejo de que não acabasse já ali a maratona das aulas. Embora se faltasse cada vez mais às aulas. Embora ser expulso delas se tornasse num improvável momento de glória. Os inquilinos das cadeiras dispostas atrás das mesas em forma de U mudavam nas últimas semanas: as equipas sexistas eram substituídas por casais.
Íamos para o rio na recta final do percurso. E ninguém se sepultava primeiro dentro de um solário por temer exibir a brancura epidérmica. Ser mais ou menos gordo também não era obstáculo para vestir os biquinis da época anterior. Não era relevante. Não se falava disso. Falava-se de tudo o que se calou durante um programa curricular inteiro. Partilhavam-se ideais, caminhos de futuro. E antecipava-se a viagem anual, onde mais paixões haveriam de surgir. Viagens ali, ao virar da esquina, que nos deslumbravam como cruzeiros. Havia sempre alguém, geralmente o rapaz marginal cobiçado, que saltava da ponte mais alta. E sempre alguém que levava um rádio de pilhas com os hits do momento.
Depois, os viciados como eu, iam jogar Tetris até não haver mais moedas no raio de cinquenta metros. Nem os empregados do café eram poupados ao peditório. Tudo em nome de um novo recorde. Bebia-se café com natas. Aguardava-se o baile de fim de tarde, derradeiro momento para angariação de fundos e slows suados dançados às escuras. O concerto nocturno das bandas de garagem da terra encerraria um capítulo que todos sabiam que haveriam de contar vezes e vezes sem conta pela vida fora.
Voltávamos no ano seguinte. E nunca voltávamos iguais. Voltavam os enérgicos debates para a eleição da associação de estudantes. Vitórias emolduradas. Devagar, talvez com maior vagar do que nos sítios onde viviam as pessoas que conhecíamos Verão-após-Verão, crescíamos mais um bocadinho. Mas continuávamos a acreditar, tão cândidos como no início, que nunca haveríamos de nos separar. No fim dos anos lectivos todos, doze seguidos, candidatámo-nos, os seis do núcleo duro, à mesma cidade. Lisboa era a mais conveniente para um, para o que queria Comunicação Social; logo, a mais conveniente para todos. Donos do nosso pequeno pódio transmontano, não estávamos habituados a ser driblados pela ideia de que há mais mundo além do nosso. Ficámos todos separados.
[A Helena é transmontana de gema, portuense de residência, lisboeta de espírito, jornalista de vocação. Conheci-a no Porto há não muito tempo, por intermédio do catalão maluco, e percebi de imediato que a conhecia há muitas vidas. Apresentou-me alguns dos lugares mais cool da Invicta, fez-me ter saudades de uma cidade que me costumava passar ao lado e, por isso mesmo, hoje o meu Porto também se chama Helena. Aqui fica uma excelente janela com vista do Arranha-céus, escrita com palavras de algodão doce.]
Experimentávamos, com a excitação dos rituais clandestinos, os primeiros cigarros atrás dos pavilhões; alguns trocavam os primeiros beijos. Os contínuos, com os olhos dentro dos bolsos das batas, fingiam não ver. Sorriam discretamente, não como guardiães daquele segredo; mas como se só eles soubessem que nenhum amor sobreviveria às férias grandes. Havia sempre só um rapaz desejado - o mais marginal e tendencialmente o mais velho; sempre só uma rapariga - a mais bonita. Ninguém ficava triste com isso. Era assim. No ano seguinte, talvez os eleitos fossem outros. Eram outros. Trocavam-se bilhetes, promessas enigmáticas escritas a giz nos postes pretos dos corredores. E sonhos, que não eram de Verão, mas do próximo campeonato lectivo. E tudo batia sempre certo. Como nos filmes. Nenhuma história capotava.
Um dia, saíamos de casa para a escola sabendo que não teríamos escola. A lição número cem de cada disciplina era comemorada com pic-nic e gazeta. E euforia. Não era só o ano lectivo que estava a quase a acabar. Eram esses amores, protelados durante três períodos, que floresciam, finalmente. Eram as frases silenciadas que ganhavam forma. Era a súbita confiança com os professores e a argumentação que os convencia a esticar um quatro para um cinco - ou um dois para um três. E eles cediam, certamente convictos de que inflacionar notas na aldeia não haveria de corromper o mundo. Era o contraditório desejo de que não acabasse já ali a maratona das aulas. Embora se faltasse cada vez mais às aulas. Embora ser expulso delas se tornasse num improvável momento de glória. Os inquilinos das cadeiras dispostas atrás das mesas em forma de U mudavam nas últimas semanas: as equipas sexistas eram substituídas por casais.
Íamos para o rio na recta final do percurso. E ninguém se sepultava primeiro dentro de um solário por temer exibir a brancura epidérmica. Ser mais ou menos gordo também não era obstáculo para vestir os biquinis da época anterior. Não era relevante. Não se falava disso. Falava-se de tudo o que se calou durante um programa curricular inteiro. Partilhavam-se ideais, caminhos de futuro. E antecipava-se a viagem anual, onde mais paixões haveriam de surgir. Viagens ali, ao virar da esquina, que nos deslumbravam como cruzeiros. Havia sempre alguém, geralmente o rapaz marginal cobiçado, que saltava da ponte mais alta. E sempre alguém que levava um rádio de pilhas com os hits do momento.
Depois, os viciados como eu, iam jogar Tetris até não haver mais moedas no raio de cinquenta metros. Nem os empregados do café eram poupados ao peditório. Tudo em nome de um novo recorde. Bebia-se café com natas. Aguardava-se o baile de fim de tarde, derradeiro momento para angariação de fundos e slows suados dançados às escuras. O concerto nocturno das bandas de garagem da terra encerraria um capítulo que todos sabiam que haveriam de contar vezes e vezes sem conta pela vida fora.
Voltávamos no ano seguinte. E nunca voltávamos iguais. Voltavam os enérgicos debates para a eleição da associação de estudantes. Vitórias emolduradas. Devagar, talvez com maior vagar do que nos sítios onde viviam as pessoas que conhecíamos Verão-após-Verão, crescíamos mais um bocadinho. Mas continuávamos a acreditar, tão cândidos como no início, que nunca haveríamos de nos separar. No fim dos anos lectivos todos, doze seguidos, candidatámo-nos, os seis do núcleo duro, à mesma cidade. Lisboa era a mais conveniente para um, para o que queria Comunicação Social; logo, a mais conveniente para todos. Donos do nosso pequeno pódio transmontano, não estávamos habituados a ser driblados pela ideia de que há mais mundo além do nosso. Ficámos todos separados.
[A Helena é transmontana de gema, portuense de residência, lisboeta de espírito, jornalista de vocação. Conheci-a no Porto há não muito tempo, por intermédio do catalão maluco, e percebi de imediato que a conhecia há muitas vidas. Apresentou-me alguns dos lugares mais cool da Invicta, fez-me ter saudades de uma cidade que me costumava passar ao lado e, por isso mesmo, hoje o meu Porto também se chama Helena. Aqui fica uma excelente janela com vista do Arranha-céus, escrita com palavras de algodão doce.]
21.3.07
Janela com vista #02 - Rui Gouveia
DIA I – Ai Jesus…
Não sei como é que me fui meter nisto.
Eu que nem nunca fui destas coisas…
Agora sou escritor.
E escrevo sobre a vida, o mundo e os homens.
E cada uma destas coisas dava para escrever tanto, tanto, tanto, que é quase mais tanto quanto tanto tem o mais.
Assim como não há nada perfeito também não há nada que não o seja.
Ainda antes de acordar já vejo o mundo, aquele dos sonhos.
Acordo e abro os olhos.
Vejo agora dois mundos: o físico que me rodeia e o outro, o dos sonhos acordado.
E é com estes dois que saio para a vida, num turbilhão de interacções.
E assim ando até fechar novamente os olhos e os dois se voltarem a encontrar naquilo que eu sou…
...uma história inconsolável. Um caso incontornável de uma vida desgraçada.
A manhã cinzenta do caos agoira uma tarde despedaçada de estilhaços incongruentes e falidos. A nota do espaço aponta o infinito, o caos do romantismo a morte.
Nenhuma desilusão é pior que toda a vida sem sentido.
DIA II – Tou Fuck…
Vivo numa ilusão tão grande, numa tão imposta realidade que não é minha!
E então tenho de imaginar e viver com outra, que temo que desapareça no dia em que a esperança se queda.
E esta, perco-a quando superada pela angústia, fruto de um acumular de momentos. Aqueles em que não acredito que compense, quando todos os elementos que me mantêm vivo estão presentes apenas na memória, substituídos no sentir por um enorme vazio.
És um conflito vivo
Inconstante a todo o momento
Para assim te manteres igual a ti próprio
Nessa forma de viver aos sobressaltos
Procura-se algum conforto
Serenidade e paz
Sempre às voltas e sem repouso.
Falta-me a sensatez e paz de espírito
Para atingir ou apanhar
O que em inquietude vejo
E não consigo alcançar
As nossas almas passeiam juntas de mãos dadas. E riem-se de nós, que barrados pelos sentidos que os nossos corpos nos forçam a ter, continuamos às voltas, baralhados em sentimentos, a complicar o que é tão simples.
E elas riem-se.
Porque se deixam ir, porque lhes é fácil tudo o que nós gostaríamos mas nunca vamos ser.
(continua…)
Dia III – Eh Eh Eh! ;)
O Ser Humano só está bem quando tem o que quer.
E isso, é impossível de mudar.
Pode-se mudar é o que se quer.
De que vale o conhecimento se dele não se retirar proveito?
Tu que sabes e eu que sei, cala-te tu que eu me calarei. (adoro-te Avó Graça)
Não esqueço nada do que sei, não guardo nada do que esqueço, não nego, não minto.
E sou feliz!!!!!!!!
No limiar está a fé. No Benfica, na minha tia, na rebeldia ou na batata. Porque nunca o analisador poderá definir totalmente o analisado sendo simultaneamente os dois.
Resta ACEITAÇÃO, COERÊNCIA e deixa andar.
Venha a festa.
Até já.
* Parabéns pelo blog Ricky, és grande. *
Hergé
[Isto é pura introspecção à moda do Gouvas. O Gouveia, Rui Miguel, é amigo desde a adolescência sintrense, da família que eu escolhi. Fomos expulsos dos escuteiros juntos, o que nitidamente não é para todos. São muitos anos de acampamentos, borgas, viagens, idas de carro até França e de autocarro até à Polónia, uma casa partilhada entre nós dois e a Vanda durante dois anos, festas trance, planos para uma ida a Berlim e um livro que ele quer - deve - escrever. O Gouvas vive em Benguela, Angola, há dois anos. O currículo diz que é engenheiro, mas isso é apenas a aparência. Em abono da verdade, o rapaz é um boémio de ideias largas e gargalhadas fáceis. Abraço para esse hemisfério, irmão.]
Não sei como é que me fui meter nisto.
Eu que nem nunca fui destas coisas…
Agora sou escritor.
E escrevo sobre a vida, o mundo e os homens.
E cada uma destas coisas dava para escrever tanto, tanto, tanto, que é quase mais tanto quanto tanto tem o mais.
Assim como não há nada perfeito também não há nada que não o seja.
Ainda antes de acordar já vejo o mundo, aquele dos sonhos.
Acordo e abro os olhos.
Vejo agora dois mundos: o físico que me rodeia e o outro, o dos sonhos acordado.
E é com estes dois que saio para a vida, num turbilhão de interacções.
E assim ando até fechar novamente os olhos e os dois se voltarem a encontrar naquilo que eu sou…
...uma história inconsolável. Um caso incontornável de uma vida desgraçada.
A manhã cinzenta do caos agoira uma tarde despedaçada de estilhaços incongruentes e falidos. A nota do espaço aponta o infinito, o caos do romantismo a morte.
Nenhuma desilusão é pior que toda a vida sem sentido.
DIA II – Tou Fuck…
Vivo numa ilusão tão grande, numa tão imposta realidade que não é minha!
E então tenho de imaginar e viver com outra, que temo que desapareça no dia em que a esperança se queda.
E esta, perco-a quando superada pela angústia, fruto de um acumular de momentos. Aqueles em que não acredito que compense, quando todos os elementos que me mantêm vivo estão presentes apenas na memória, substituídos no sentir por um enorme vazio.
És um conflito vivo
Inconstante a todo o momento
Para assim te manteres igual a ti próprio
Nessa forma de viver aos sobressaltos
Procura-se algum conforto
Serenidade e paz
Sempre às voltas e sem repouso.
Falta-me a sensatez e paz de espírito
Para atingir ou apanhar
O que em inquietude vejo
E não consigo alcançar
As nossas almas passeiam juntas de mãos dadas. E riem-se de nós, que barrados pelos sentidos que os nossos corpos nos forçam a ter, continuamos às voltas, baralhados em sentimentos, a complicar o que é tão simples.
E elas riem-se.
Porque se deixam ir, porque lhes é fácil tudo o que nós gostaríamos mas nunca vamos ser.
(continua…)
Dia III – Eh Eh Eh! ;)
O Ser Humano só está bem quando tem o que quer.
E isso, é impossível de mudar.
Pode-se mudar é o que se quer.
De que vale o conhecimento se dele não se retirar proveito?
Tu que sabes e eu que sei, cala-te tu que eu me calarei. (adoro-te Avó Graça)
Não esqueço nada do que sei, não guardo nada do que esqueço, não nego, não minto.
E sou feliz!!!!!!!!
No limiar está a fé. No Benfica, na minha tia, na rebeldia ou na batata. Porque nunca o analisador poderá definir totalmente o analisado sendo simultaneamente os dois.
Resta ACEITAÇÃO, COERÊNCIA e deixa andar.
Venha a festa.
Até já.
* Parabéns pelo blog Ricky, és grande. *
Hergé
[Isto é pura introspecção à moda do Gouvas. O Gouveia, Rui Miguel, é amigo desde a adolescência sintrense, da família que eu escolhi. Fomos expulsos dos escuteiros juntos, o que nitidamente não é para todos. São muitos anos de acampamentos, borgas, viagens, idas de carro até França e de autocarro até à Polónia, uma casa partilhada entre nós dois e a Vanda durante dois anos, festas trance, planos para uma ida a Berlim e um livro que ele quer - deve - escrever. O Gouvas vive em Benguela, Angola, há dois anos. O currículo diz que é engenheiro, mas isso é apenas a aparência. Em abono da verdade, o rapaz é um boémio de ideias largas e gargalhadas fáceis. Abraço para esse hemisfério, irmão.]
28.2.07
Janela com vista #01 - Filipe Garcia
UM ABRAÇO AO MEU MOTORISTA
O relógio já anunciava um atraso recorde quando saltei da cama. Banho rápido, sem tempo para fazer a barba, café e cigarro no café do senhor António e, só depois, uma desagradável constatação: é dia de chuva molha-parvos. Decidi apanhar um táxi, mas primeiro impunha-se uma corrida pelos MB da zona para encontrar dinheiro. Aos meus ouvidos, os Rolling Stones declaravam-se seguidores do Diabo e marcavam o ritmo da primeira corrida do dia: de um lado para o outro, em busca de uma caixinha mágica, sem fila e sem o sinal que anuncia a impossibilidade de fazer levantamentos.
Entrei no carrinho amarelo e lembrei-me de um post do Ricky Rodriguez. Ouvia-se música sinfónica e entre os dois bancos da frente estava um livro, tão gasto como a camisa de flanela que o meu motorista (soa bem esta frase) vestia, que me alegrou o despertar: Balzac, A comédia Humana.
Nem em Paris ou Londres, onde a escolaridade e o índice de leitura de jornais é dez vezes superior ao nosso, deve ser usual apanhar um taxista – nome que normalmente uso para me referir ao meu motorista – que lê um livro com 3500 personagens.
Para grande pena minha, que gosto de falar de futebol sempre que o Sporting anda pelas ruas da amargura, não houve conversas, mas animei. Gosto de descobrir pequenos sinais de que Lisboa não é a cidade do Não ao Aborto, que não é por aqui que estão os eleitores do Cavaco ou os telespectadores que estão a empurrar o pequeno ditador para o topo da lista dos maiores portugueses. Gosto de me lembrar que foi por aqui que andou Fernando Pessoa, que foram estas ruas que apaixonaram o Wim Wenders e que foi entre as suas ruas que o pequeno ditador, e antes dele a monarquia, foram derrubados. Gosto de Lisboa.
Londres é cinzenta, Paris é iluminada, Berlim é acelerada, Madrid não tem água e Amesterdão tem frio demais. Lisboa pode pagar mal, pode estar cheia de pequenos portugueses e às vezes até pode obrigar a uma fuga rápida para uma praia semi-deserta, mas tem uma capacidade mágica de nos fazer viajar sem sair do local. Descer a encosta do Castelo, subir até ao Bairro Alto para beber a melhor cerveja morta do mundo, ir ao Lux cheirar um bocadinho de Nova Iorque ou correr pela baixa pombalina com os olhos postos no rio são viagens que eu não consigo dispensar. É a cidade onde tanto se pode ouvir o saxofone do John Coltrane em gritos graves ou a mais feliz das composições do Count Basie, é nas suas ruas que tanto se podem cantarolar as mais psicadélicas músicas dos Beatles como relembrar os velhos tempos do liceu Camões ao som dos Nirvana. Uma cidade onde tanto Paredes como o Mário Laginha jogam em casa tinha de ser a minha. É a cidade do meu Benfica. É a cidade onde um taxista, perdão, onde o meu motorista me fez pensar e me animou o dia. Um abraço ao meu motorista.
[O post é do Filipe Garcia. Conheci-o em Ranholas, quando ele chegou à Focus e se sentou à minha frente, na única secretária disponível, e veio pôr em causa o meu estatuto privilegiado de eremita na redacção. Logo nesse dia, ouviu o meu editor gritar comigo porque eu tinha chegado tarde. No dia seguinte, viu-me chegar tarde novamente. E no outro dia também. Percebeu logo o tipo de jagunço que tinha por diante e, provavelmente por isso, lá se foi revelante. O Fil é amante da música, benfiquista convicto, passageiro frequente do Bairro Alto e da blogosfera, homem das letras com veia para a reportagem. E bom amigo, obviamente. É ele que inaugura a nova rúbrica do arranha-céus, Janela com vista, em formato de post convidado. Assim escreve o homem que mais cigarros fumava à chuva, em dias de fecho da revista, no exterior de um edifício espelhado no fim do IC19]
O relógio já anunciava um atraso recorde quando saltei da cama. Banho rápido, sem tempo para fazer a barba, café e cigarro no café do senhor António e, só depois, uma desagradável constatação: é dia de chuva molha-parvos. Decidi apanhar um táxi, mas primeiro impunha-se uma corrida pelos MB da zona para encontrar dinheiro. Aos meus ouvidos, os Rolling Stones declaravam-se seguidores do Diabo e marcavam o ritmo da primeira corrida do dia: de um lado para o outro, em busca de uma caixinha mágica, sem fila e sem o sinal que anuncia a impossibilidade de fazer levantamentos.
Entrei no carrinho amarelo e lembrei-me de um post do Ricky Rodriguez. Ouvia-se música sinfónica e entre os dois bancos da frente estava um livro, tão gasto como a camisa de flanela que o meu motorista (soa bem esta frase) vestia, que me alegrou o despertar: Balzac, A comédia Humana.
Nem em Paris ou Londres, onde a escolaridade e o índice de leitura de jornais é dez vezes superior ao nosso, deve ser usual apanhar um taxista – nome que normalmente uso para me referir ao meu motorista – que lê um livro com 3500 personagens.
Para grande pena minha, que gosto de falar de futebol sempre que o Sporting anda pelas ruas da amargura, não houve conversas, mas animei. Gosto de descobrir pequenos sinais de que Lisboa não é a cidade do Não ao Aborto, que não é por aqui que estão os eleitores do Cavaco ou os telespectadores que estão a empurrar o pequeno ditador para o topo da lista dos maiores portugueses. Gosto de me lembrar que foi por aqui que andou Fernando Pessoa, que foram estas ruas que apaixonaram o Wim Wenders e que foi entre as suas ruas que o pequeno ditador, e antes dele a monarquia, foram derrubados. Gosto de Lisboa.
Londres é cinzenta, Paris é iluminada, Berlim é acelerada, Madrid não tem água e Amesterdão tem frio demais. Lisboa pode pagar mal, pode estar cheia de pequenos portugueses e às vezes até pode obrigar a uma fuga rápida para uma praia semi-deserta, mas tem uma capacidade mágica de nos fazer viajar sem sair do local. Descer a encosta do Castelo, subir até ao Bairro Alto para beber a melhor cerveja morta do mundo, ir ao Lux cheirar um bocadinho de Nova Iorque ou correr pela baixa pombalina com os olhos postos no rio são viagens que eu não consigo dispensar. É a cidade onde tanto se pode ouvir o saxofone do John Coltrane em gritos graves ou a mais feliz das composições do Count Basie, é nas suas ruas que tanto se podem cantarolar as mais psicadélicas músicas dos Beatles como relembrar os velhos tempos do liceu Camões ao som dos Nirvana. Uma cidade onde tanto Paredes como o Mário Laginha jogam em casa tinha de ser a minha. É a cidade do meu Benfica. É a cidade onde um taxista, perdão, onde o meu motorista me fez pensar e me animou o dia. Um abraço ao meu motorista.
[O post é do Filipe Garcia. Conheci-o em Ranholas, quando ele chegou à Focus e se sentou à minha frente, na única secretária disponível, e veio pôr em causa o meu estatuto privilegiado de eremita na redacção. Logo nesse dia, ouviu o meu editor gritar comigo porque eu tinha chegado tarde. No dia seguinte, viu-me chegar tarde novamente. E no outro dia também. Percebeu logo o tipo de jagunço que tinha por diante e, provavelmente por isso, lá se foi revelante. O Fil é amante da música, benfiquista convicto, passageiro frequente do Bairro Alto e da blogosfera, homem das letras com veia para a reportagem. E bom amigo, obviamente. É ele que inaugura a nova rúbrica do arranha-céus, Janela com vista, em formato de post convidado. Assim escreve o homem que mais cigarros fumava à chuva, em dias de fecho da revista, no exterior de um edifício espelhado no fim do IC19]
Subscrever:
Mensagens (Atom)