Em Portugal trabalha-se mal. Um tipo que seja realmente competente no que faça não é recompensado por isso e um tipo que seja realmente incompetente no que faça não é castigado por isso. Seja no sector público ou em empresas privadas. A gestão de recursos humanos é, neste país, uma piada. Normalmente quem sobe na vida é porque é amigo do chefe, cão de fila ou yes-man. Há excepções, mas esta é a regra.
Em Portugal, muitas das pessoas que ocupam cargos de liderança receiam tanto serem ultrapassadas pelas pessoas mais novas [muitas vezes mais bem preparadas para as exigências profissionais] que muitas vezes bloqueiam o acesso às decisões a quem é bom. Há uma cultura do topo para as bases, quando a produtividade subiria se o processo ocorresse ao contrário. Obviamente.
Em Portugal, os chefes não partilham muitas vezes informação sobre o trabalho a desenvolver. Ouvem-se frases como: «ninguém te paga para pensar», «isso não é da tua competência», «reduz-te à tua insignificância». Ora, partilha também significa partilha de soluções, mas isso é vantagem que não se quer ver.
Em Portugal, não se elogia nem critica o trabalho dos outros, «mete-te mas é na tua vidinha». A excepção é quando aparece um tipo muito bom e que dá muito nas vistas. Aí, as pessoas falam, mas normalmente o sujeito é mais vezes alvo de inveja do que serve de exemplo. Trabalha-se mal em Portugal.
Em Portugal, há uma geração mil euros. Os que nasceram nos anos 70 só raras vezes conseguem ultrapassar esta fasquia – suficientemente modesta para manter condições de vida medíocres, suficientemente acima da média para ninguém criar ondas. É espiral sem fim, viver com mil euros. Até porque não há perspectiva de mudança.
Em Portugal, investiu-se nos baixos salários durante a segunda metade da década de oitenta e primeira de noventa como estratégia de desenvolvimento económico. Mas caiu o muro, veio a globalização e o país ainda não se soube reinventar. Um ministro convida empresários chineses a investirem em Portugal, porque os salários são baixos. O PM aumenta os impostos aos solteiros, aos deficientes e aos que querem morar sozinhos, para ordenar em rebanho de estratégia familiar [e remediada] a sociedade portuguesa. Não há formação profissional, não há aulas para trabalhadores estudantes, não há nada.
Em Portugal trabalha-se mal. E é por isso que eu adiro à greve geral de 30 de Maio. Não só por mim, não só pelos estagiários que enchem as redacções dos jornais a custo zero, não só pelas pessoas que conheço que se esfalfam como jornalistas e ganham menos do que um incompentente que não sai da secretária.
Faço greve porque em Portugal se trabalha mal. Mal demais.
29.5.07
24.5.07
Caos
Tinha directora, já não tenho. Fui nomeado para um prémio de jornalismo, não ganhei. O portátil deu o berro. Não comprei uns óculos novos. Não entreguei o IRS. Tenho que actualizar a carteira de jornalista. É por tudo isto que não escrevo há tanto tempo.
Aiiiiiiiiii
Mas acontecem coisas boas pelo meio. Baloiços e casamentos de amigos e tal.
I'll be back soon with another cartoon.
Aiiiiiiiiii
Mas acontecem coisas boas pelo meio. Baloiços e casamentos de amigos e tal.
I'll be back soon with another cartoon.
11.5.07
TOMBA LA LÃO
Mesmo em frente à América há um parque infantil com três cavalinhos que sobem e descem consoante o atrito que se lhes imprime, mais um complexo castelo de madeira com cordas para escalar e três escorregas [um túnel, um tubogan e uma passadeira normal, descendente, metálica] para ensaiar a evasão.
Nunca lá vi uma única criança.
O facto pode ser explicado pelo cada vez mais óbvio envelhecimento do bairro de Alvalade, pelas novas regras sociais em que os putos já não brincam na rua mas sim fechados em casa, diante do computador, ou pela simples constatação de que há três parques infantis numa área de 200 metros e aquele é sem dúvida o menos espectacular [não tem, por exemplo, bebedouro de água, sobe-e-desce ou baloiços]. Seja como for está constantemente vazio. Ninguém, um deserto de infância.
No entanto ontem, às quatro e meia da manhã, o parque infantil escangalhou-se em gargalhadas. Havia dois vultos no cavalinho, no tubogan, a escalar o castelo. Riso, festa, grande moca.
Quem disse que não existem crianças de 30 anos?
Nunca lá vi uma única criança.
O facto pode ser explicado pelo cada vez mais óbvio envelhecimento do bairro de Alvalade, pelas novas regras sociais em que os putos já não brincam na rua mas sim fechados em casa, diante do computador, ou pela simples constatação de que há três parques infantis numa área de 200 metros e aquele é sem dúvida o menos espectacular [não tem, por exemplo, bebedouro de água, sobe-e-desce ou baloiços]. Seja como for está constantemente vazio. Ninguém, um deserto de infância.
No entanto ontem, às quatro e meia da manhã, o parque infantil escangalhou-se em gargalhadas. Havia dois vultos no cavalinho, no tubogan, a escalar o castelo. Riso, festa, grande moca.
Quem disse que não existem crianças de 30 anos?
7.5.07
A menina dança?
Dança.
Muito bem.
Num palco de caixa de música, noutro sobre o Tejo, a menina dança com gestos de cantiga de embalar, esgar de baile de fim de verão, sorriso de cabaret. A menina dança muito bem. E eu gosto.
Muito bem.
Num palco de caixa de música, noutro sobre o Tejo, a menina dança com gestos de cantiga de embalar, esgar de baile de fim de verão, sorriso de cabaret. A menina dança muito bem. E eu gosto.
30.4.07
Dia não
Raios partam aquelas pessoas que insistem em ler o extracto da conta em frente à caixa multibanco, os que passam horas à espera numa fila para percorrer a pé o túnel do Marquês, os chico-espertos que fazem sinal de luzes ao carro em frente, quando este está a ultrapassar um camião numa autoestrada, mas são capazes de andar a 20 quilómetros/hora na faixa de aceleração se houver um acidente [nem é preciso tanto, basta uma luz de ambulância ou reboque] em sentido contrário.
Raios partam todos os senhores doutores, engenheiros e arquitectos que não o são e insistem em legitimar-se com um título alheio e impróprio. Raios parta a velha e pequenina geração que insiste na mesquinhez de barrar aos mais novos o acesso aos cargos de decisão e raios partam as novas gerações de pseudo-intelectuais que torcem o nariz à pureza em nome da postura, que se alheiam da «gentinha» e dos seus problemas, que são capazes de olhar para o seu próximo como se ele não existisse - antes para um ponto vago de um horizonte anónimo.
Raios partam as pontes a cair, as cegonhas que embatem em postes e rebentam com metade da rede electrica nacional, raios parta o protocolo de Quioto que nunca mais avança e os terroristas islâmicos e os demagogos americanos e esta mania portuguesa de nos abstrairmos do assunto, como se nada nos disesse respeito.
Esta manhã, quando acordei, estava de azia e com os pés de fora. Rios partam.
Raios partam todos os senhores doutores, engenheiros e arquitectos que não o são e insistem em legitimar-se com um título alheio e impróprio. Raios parta a velha e pequenina geração que insiste na mesquinhez de barrar aos mais novos o acesso aos cargos de decisão e raios partam as novas gerações de pseudo-intelectuais que torcem o nariz à pureza em nome da postura, que se alheiam da «gentinha» e dos seus problemas, que são capazes de olhar para o seu próximo como se ele não existisse - antes para um ponto vago de um horizonte anónimo.
Raios partam as pontes a cair, as cegonhas que embatem em postes e rebentam com metade da rede electrica nacional, raios parta o protocolo de Quioto que nunca mais avança e os terroristas islâmicos e os demagogos americanos e esta mania portuguesa de nos abstrairmos do assunto, como se nada nos disesse respeito.
Esta manhã, quando acordei, estava de azia e com os pés de fora. Rios partam.
27.4.07
Miss D. vai casar
Sentimo-nos um pouco estranhos quando alguém com quem já tivemos uma relação nos anuncia que se vai casar. Miss D. vai casar este domingo. Anunciou-me o facto há já alguns meses, com a maior naturalidade do mundo, e eu aceitei a notícia no mesmo registo. Afinal, tinham passado anos desde que nos enrolámos pela última vez. E não havia de facto qualquer motivo para assim não ser: sempre ficámos amigos [contra todas as probabilidades, verdade seja dita], e, anos mais tarde, quando conheci o homem que este domingo a vai levar ao altar, achei que era um tipo porreiro e calado - com o tempo confirmei a primeira qualidade e ele foi ganhando confiança para alterar a segunda.
Miss D. e eu nunca namorámos, antes envolvemo-nos. Namorei sim com Miss H., que há dias me dizia qualquer coisa como «devia existir uma lei que proibisse os ex-namorados de casar.» Bem, Miss D. vai casar este domingo mas, como nunca foi oficialmente minha namorada, a lei não se aplica. Consigo até sentir-me feliz por ela. Vou aliás estar presente no casamento, no copo de água e até aposto que me vou divertir bastante. Mas não deixo de sentir algo estranho.
Sei que não quero casar, evito os relacionamentos e privilegio os envolvimentos, não me sobram restos da atracção que levou a que um dia eu e Miss D. estivessemos juntos. Mas isto é pura razão, porque emocionalmente dou por mim a pensar em imensos «whatifs». E se tivesse sido eu. E se tivesse sido ela. E se tivessemos sido nós.
Não somos, nunca fomos, nem seremos. Sei-o perfeitamente. Estou feliz por ela, estou feliz por ele. Não queria seguramente que fosse eu a recebê-la no altar e, no entanto, tenho plena consciência que este domingo, durante uma pequena fracção de segundo, hei-de voltar a sentir esta estranheza que agora escrevo. A estranheza inevitavelmente humana de querermos o que não temos e, simultaneamente, não o suportarmos ter.
Miss D. e eu nunca namorámos, antes envolvemo-nos. Namorei sim com Miss H., que há dias me dizia qualquer coisa como «devia existir uma lei que proibisse os ex-namorados de casar.» Bem, Miss D. vai casar este domingo mas, como nunca foi oficialmente minha namorada, a lei não se aplica. Consigo até sentir-me feliz por ela. Vou aliás estar presente no casamento, no copo de água e até aposto que me vou divertir bastante. Mas não deixo de sentir algo estranho.
Sei que não quero casar, evito os relacionamentos e privilegio os envolvimentos, não me sobram restos da atracção que levou a que um dia eu e Miss D. estivessemos juntos. Mas isto é pura razão, porque emocionalmente dou por mim a pensar em imensos «whatifs». E se tivesse sido eu. E se tivesse sido ela. E se tivessemos sido nós.
Não somos, nunca fomos, nem seremos. Sei-o perfeitamente. Estou feliz por ela, estou feliz por ele. Não queria seguramente que fosse eu a recebê-la no altar e, no entanto, tenho plena consciência que este domingo, durante uma pequena fracção de segundo, hei-de voltar a sentir esta estranheza que agora escrevo. A estranheza inevitavelmente humana de querermos o que não temos e, simultaneamente, não o suportarmos ter.
26.4.07
Abril
Descer a avenida da Liberdade, de cravo vermelho numa mão, sozinho. Comover-me com samba de imigrante, fingir que danço enquanto somo os passos descendentes até ao Rossio. Gritar «fascismo nunca mais», «o custo de vida aumenta, o povo não aguenta», olhar nos olhos das velhas - uma, desdentada, ofereceu-me o cravo - e ler-lhes alegria nos olhos. Viva a Liberdade, viva.
Encontrar a Sara de há alguns anos e alguns suspiros, combinar café, resgatar ao passado a química adormecida. Concentrar o Bruno, a Lena, a Meg [onde estava a Inês, que raio?], como fazíamos há dez anos e há cinco e há 13, cantar a Grândola baixinho, o cravo a amachucar-se nos dedos.
Jantar, petiscada, Zé Mário Branco a ecoar pela sala. Discutir a esquerda, a direita, os tortos, o país. Beber JP tinto como se fosse Barca Velha, devorar ovos com farinheira, sala de massa fria, gargalhadas, é Ábril.
25 de Abril sempre!
Encontrar a Sara de há alguns anos e alguns suspiros, combinar café, resgatar ao passado a química adormecida. Concentrar o Bruno, a Lena, a Meg [onde estava a Inês, que raio?], como fazíamos há dez anos e há cinco e há 13, cantar a Grândola baixinho, o cravo a amachucar-se nos dedos.
Jantar, petiscada, Zé Mário Branco a ecoar pela sala. Discutir a esquerda, a direita, os tortos, o país. Beber JP tinto como se fosse Barca Velha, devorar ovos com farinheira, sala de massa fria, gargalhadas, é Ábril.
25 de Abril sempre!
19.4.07
Pavilhão Atlântico
Já passaram sete dias.
Chegar à proa deste barco e ver água em todas as direcções. Tentar adormecer com saltos de montanha russa, mar zangado até Ponta Delgada, brando na travessia para o Faial, de senhoras até Praia da Vitória. Sete dias de atlântico, num camarote com vista para o horizonte eterno, às vezes mais encrespado, outras mais lânguido, azul, cinza, verde. Dentro de um barco, cada homem é uma ilha.
Nasci numa rua do Chiado, entre o Bairro Alto e o Cais Sodré, numa manhã quente de Junho. A minha mãe disse que fui um parto fácil, rápido, parecia ter pressa da travessia da vida. Parido às onze da manhã, prefiro pensar que estava em fim de noite, em vez de início de dia. A visão do Tejo foi o primeiro postal para os meus olhos, lembre-me ou não deles. E voltei a sair rio abaixo noutra sexta solarenga, esta última, com desejo renovado de me testar oceano adentro.
«Existem três raças de homens», disse-me senhor Augusto, o contramestre. «Os vivos, os mortos e os marinheiros.» Caramba. Por estes dias sou a soma das três espécies.
Chegar à proa deste barco e ver água em todas as direcções. Tentar adormecer com saltos de montanha russa, mar zangado até Ponta Delgada, brando na travessia para o Faial, de senhoras até Praia da Vitória. Sete dias de atlântico, num camarote com vista para o horizonte eterno, às vezes mais encrespado, outras mais lânguido, azul, cinza, verde. Dentro de um barco, cada homem é uma ilha.
Nasci numa rua do Chiado, entre o Bairro Alto e o Cais Sodré, numa manhã quente de Junho. A minha mãe disse que fui um parto fácil, rápido, parecia ter pressa da travessia da vida. Parido às onze da manhã, prefiro pensar que estava em fim de noite, em vez de início de dia. A visão do Tejo foi o primeiro postal para os meus olhos, lembre-me ou não deles. E voltei a sair rio abaixo noutra sexta solarenga, esta última, com desejo renovado de me testar oceano adentro.
«Existem três raças de homens», disse-me senhor Augusto, o contramestre. «Os vivos, os mortos e os marinheiros.» Caramba. Por estes dias sou a soma das três espécies.
11.4.07
Tão bom ter telemóvel outra vez
Duas mensagens de Cuba, uma de Angola, um telefonema de Marrocos e outro do Vietname. Viva a globalização!
2.4.07
Hit the road, Jack
Começam os preparativos de viagem. Páscoa na serra da Arada, na semana seguinte embarco para atravessar meio Atlântico, planos com a família Bastos para férias em Odessa e Tiblissi [foram os locais mais weird de que nos conseguimos lembrar]. O arranha-céus é capaz de andar mais calmo, nos próximos dias. Eu, pelo contrário, muito mais agitado. O que é bom.
Quando era miudo e a perspectiva de sair de casa se começava a desenhar, o entusiasmo não me deixava muitas vezes pegar no sono. Para os primeiros acampamentos de Verão fazia a mochila com uma semana de antecedência e depois ficava a olhá-la durante sete-dias-sete, ampliando o factor ansiedade. Hoje, pelo contrário, faço mochila ou mala com meia hora de antecedência e já tenho todos os pormenores encadeados no cérebro. O estojo de higiene primeiro, T-shirts, boxers e meias depois, dois ou três pares de calças, umas camisolas quentes e um impermeável. Ready to go.
A partir dos 17 comecei a ir todos os Verões para França, viver numa comunidade isolada onde se encontrava gente de todo o mundo. Partia normalmente na primeira semana de Agosto, voltava na última e ainda ia a Barcelona ou a Amsterdão antes de voltar para casa. Financiava tudo com dinheiro ganho em Julho, trabalhava na loja do meu pai a acartar máquinas de lavar roupa para quartos pisos sem elevador e pagava assim o bilhete de autocarro. Não era só o bilhete de autocarro: o que eu estava na verdade a pagar era a sensação de partida.
Os anos e o trabalho trouxeram-me muitos quilómetros percorridos. Embarques em aeroportos, portos, carros alugados, estações de comboio. Mas nestes dias que antecedem a viagem tudo permanece na mesma. Borboletas no estômago, um tremelicar agradável, sorrisos para distribuir ao mundo. Costumo dizer que Lisboa é o melhor sítio do mundo para se voltar a casa depois de uma viagem. Sinto isso, tanto quanto me farto da cidade branca se permaneço nela demasiado tempo. Está na hora de ter saudades.
Quando era miudo e a perspectiva de sair de casa se começava a desenhar, o entusiasmo não me deixava muitas vezes pegar no sono. Para os primeiros acampamentos de Verão fazia a mochila com uma semana de antecedência e depois ficava a olhá-la durante sete-dias-sete, ampliando o factor ansiedade. Hoje, pelo contrário, faço mochila ou mala com meia hora de antecedência e já tenho todos os pormenores encadeados no cérebro. O estojo de higiene primeiro, T-shirts, boxers e meias depois, dois ou três pares de calças, umas camisolas quentes e um impermeável. Ready to go.
A partir dos 17 comecei a ir todos os Verões para França, viver numa comunidade isolada onde se encontrava gente de todo o mundo. Partia normalmente na primeira semana de Agosto, voltava na última e ainda ia a Barcelona ou a Amsterdão antes de voltar para casa. Financiava tudo com dinheiro ganho em Julho, trabalhava na loja do meu pai a acartar máquinas de lavar roupa para quartos pisos sem elevador e pagava assim o bilhete de autocarro. Não era só o bilhete de autocarro: o que eu estava na verdade a pagar era a sensação de partida.
Os anos e o trabalho trouxeram-me muitos quilómetros percorridos. Embarques em aeroportos, portos, carros alugados, estações de comboio. Mas nestes dias que antecedem a viagem tudo permanece na mesma. Borboletas no estômago, um tremelicar agradável, sorrisos para distribuir ao mundo. Costumo dizer que Lisboa é o melhor sítio do mundo para se voltar a casa depois de uma viagem. Sinto isso, tanto quanto me farto da cidade branca se permaneço nela demasiado tempo. Está na hora de ter saudades.
30.3.07
Kapa
A K galeria, do colectivo kameraphoto [que reúne os melhores fotógrafos da tugolândia] cumpriu ontem dois anos de vida e inaugurou uma exposição muito doida. Penduradas pelas paredes da galeria estão várias folhas A4, onde estão escritas as descrições das fotos correspondentes. Quem quiser arranca uma página, paga dez euros e troca a folha por um envelope do mesmo tamanho, onde está a fotografia correspondente à descrição. Quando mil palavras valem uma imagem.
Comprei duas. «Uma janela com frases escritas. Um vulto ao fundo, enquadrado pela urbanidade de Berlim. Mais um reflexo de árvore na vitrina» e «Teclado de computador com teclas POWER, SLEEP e WAKE de cor branca. Restantes teclas de cor amarelada. Superfície de fórmica imitação de madeira. Chave de porta com etiqueta de plástico com inscrição da palavra CRIME.» Saiu-me um Jordi Burch e um António Júlio Duarte, respectivamente. Mas não, não foi mera casualidade.
Os Ks estavam lá quase todos: a Sandra Rocha e o Guillaume Pazat vieram de propósito de Madrid, trouxeram o Fil, uma catrefada de espanhóis e a noite tornou-se uma festa. Hoje doi-me a cabeça. Mas tenho duas belas fotos aqui ao lado.
Comprei duas. «Uma janela com frases escritas. Um vulto ao fundo, enquadrado pela urbanidade de Berlim. Mais um reflexo de árvore na vitrina» e «Teclado de computador com teclas POWER, SLEEP e WAKE de cor branca. Restantes teclas de cor amarelada. Superfície de fórmica imitação de madeira. Chave de porta com etiqueta de plástico com inscrição da palavra CRIME.» Saiu-me um Jordi Burch e um António Júlio Duarte, respectivamente. Mas não, não foi mera casualidade.
Os Ks estavam lá quase todos: a Sandra Rocha e o Guillaume Pazat vieram de propósito de Madrid, trouxeram o Fil, uma catrefada de espanhóis e a noite tornou-se uma festa. Hoje doi-me a cabeça. Mas tenho duas belas fotos aqui ao lado.
29.3.07
Mário, o marionetista
Bruxa presa por fios tem duplo feitiço. Palhaço pobre é riqueza de espírito. Aladino pendurado não é génio de lâmpada, é magia de cordel. E polícia atado é como todos os outros, facilmente manipulado.
São as marionetas que Mário, o marionetista, traz de tempos a tempos para o Bairro Alto, «custam cinco euros mas para ti faço a quatro» e para ti é toda a gente, porque toda a gente sente o fascínio de coordenar os movimentos às figuras espadaúdas, esticadas verticalmente. As marionetas de Mário são tão magras quanto ele e todas sorriem. Não há dias tristes para fantoche de madeira.
Mário vive aqui há 35 anos, mas nasceu em Angola, perto de um Huambo que se chamava Nova Lisboa. Tem carapinha grisalha, barba revolucionária branca no centro e preta nos limites. «Moldei o Mário Soares para o Contra-Informação», disse Mário, o marionetista. Talvez.
Por alturas do Natal a procura aumenta e costumo vê-lo em Novembro a percorrer o Bairro e perguntar aos frequentes: «Precisas de marionetas para o Natal? Quantas? Avisa agora que eu depois não tenho.» E ninguém avisa, mas ele fá-las à mesma e vende-as sempre, todas, nunca lhe sobra um pinóquio que sonha ser menino de verdade.
Bruxas, aladinos, palhaço pobre, polícia. A vida de Mário é mágica e as suas personagens são feitiços. Ontem, tenho a certeza, vendeu todos os seus sorrisos de madeira.
São as marionetas que Mário, o marionetista, traz de tempos a tempos para o Bairro Alto, «custam cinco euros mas para ti faço a quatro» e para ti é toda a gente, porque toda a gente sente o fascínio de coordenar os movimentos às figuras espadaúdas, esticadas verticalmente. As marionetas de Mário são tão magras quanto ele e todas sorriem. Não há dias tristes para fantoche de madeira.
Mário vive aqui há 35 anos, mas nasceu em Angola, perto de um Huambo que se chamava Nova Lisboa. Tem carapinha grisalha, barba revolucionária branca no centro e preta nos limites. «Moldei o Mário Soares para o Contra-Informação», disse Mário, o marionetista. Talvez.
Por alturas do Natal a procura aumenta e costumo vê-lo em Novembro a percorrer o Bairro e perguntar aos frequentes: «Precisas de marionetas para o Natal? Quantas? Avisa agora que eu depois não tenho.» E ninguém avisa, mas ele fá-las à mesma e vende-as sempre, todas, nunca lhe sobra um pinóquio que sonha ser menino de verdade.
Bruxas, aladinos, palhaço pobre, polícia. A vida de Mário é mágica e as suas personagens são feitiços. Ontem, tenho a certeza, vendeu todos os seus sorrisos de madeira.
27.3.07
Janela com vista #04 - Hugo Duarte
Fala, Hugo. É desta forma singela e directa que os cariocas dizem Bom Dia. Eu continuo a preferir o instrumento de bocegar ar e simultaneamente dizer BOOOOM DIA, mas tambem nada se pode exigir de quem não toma pequeno almoço, mas sim café da manhã.
Gosto de Favela, lá tem picolé, lá tem baseado, lá tem moleque, lá tem sorriso, lá tem neguinha, lá tem medo, lá tem bicicreta, lá tem framenguista, lá tem gato-net, lá tem sacolé, lá tem invasão, lá tem camborão, lá tem lágrima, lá tem bandido, Não Gosto de Favela.
O virus da Dengue, que já foi estatico, comum, hemorragico, visceral, assumiu nova faceta surreal agora é virus da Dengue Poetica. Tem o ritual dum animal noctivago e morde preferencialmente pela madrugada quando os corpos fazem amor. E morrem...
O Romário (Baixinho) tem golos em falta, e espera por uma falta para lhe faltarem menos golos ou faltas. Faltam 2. Tem 998. No Domingo espero que marque um com a perna que partirá em dupla factura exposta e inibirá de jogar jamais.Ele tem uma filha com sindrome de Down....Irónico.
Na Lapa vendem-se beijos e roubam-se cervejas. Na Lapa roubam-se sorrisos e vendem-se bohemias. Na Lapa vendem-se gringos e roubam-se abraços. Na Lapa roubam-se sambas e vendem-se suores. Na Lapa, nos Arcos da Lapa....te dou uma lingua.
Paf, paf, paf faz a pistola. Trak, trak, trak faz a metralhadora. Pum faz a Granada. O Rio como cidade-maravilha têm tudo o que podem fantasiar/imaginar/idolatrar mas existe um ligeiro mas.....Mas,Mas,Mas faz a pistola. Mas,Mas,Mas faz a metralhadora. Mas faz a Granada.
Crystal, Bohemia, Antartica, Itaipava, Cintra, Bavaria, Kaiser, Petra, Nova Schin, Belco, Lokal, Cerpa, Skol, Lecker, Brahma e Primus expresso em modelos Pilsen, Malzbier, Beats, Bock, Gold, Light, Extra, Chopp, Lemon, Premium, Kolsch,...e quanto não vale uma Mini Sagres????
O Sol por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem é inferno. A praia por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem é cegueira. A noite por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem samba.
Minha filha nasceu há dois meses, e elas já são três. Primeiro a pequena, com bigode à Manuel, feia, e imensamente fragil. A Segunda com olhares ferozes e questionadores, perguntando porque e respondendo onde. Agora a Terceira que sorri sem dentes, vomita gracejos, já diz Benfica e é Linda!!!!!!!!!!!
[O Hugo tornou-se carioca, mergulhou no Rio de Janeiro por amor e em Ipanema por filiação. Conheci-o quando ainda era um homem da Covilhã, depois veio para Lisboa e agora vive no Brasil, com a mulher e a filha, bebé de meses. Jantares em casa dele, o quintal da Copa que instalou na Penha de França, algumas imperiais, horas de conversa - eis os registos da memória transatlântica. Saudades avivadas por este texto. Brilhante, meu irmão.]
Gosto de Favela, lá tem picolé, lá tem baseado, lá tem moleque, lá tem sorriso, lá tem neguinha, lá tem medo, lá tem bicicreta, lá tem framenguista, lá tem gato-net, lá tem sacolé, lá tem invasão, lá tem camborão, lá tem lágrima, lá tem bandido, Não Gosto de Favela.
O virus da Dengue, que já foi estatico, comum, hemorragico, visceral, assumiu nova faceta surreal agora é virus da Dengue Poetica. Tem o ritual dum animal noctivago e morde preferencialmente pela madrugada quando os corpos fazem amor. E morrem...
O Romário (Baixinho) tem golos em falta, e espera por uma falta para lhe faltarem menos golos ou faltas. Faltam 2. Tem 998. No Domingo espero que marque um com a perna que partirá em dupla factura exposta e inibirá de jogar jamais.Ele tem uma filha com sindrome de Down....Irónico.
Na Lapa vendem-se beijos e roubam-se cervejas. Na Lapa roubam-se sorrisos e vendem-se bohemias. Na Lapa vendem-se gringos e roubam-se abraços. Na Lapa roubam-se sambas e vendem-se suores. Na Lapa, nos Arcos da Lapa....te dou uma lingua.
Paf, paf, paf faz a pistola. Trak, trak, trak faz a metralhadora. Pum faz a Granada. O Rio como cidade-maravilha têm tudo o que podem fantasiar/imaginar/idolatrar mas existe um ligeiro mas.....Mas,Mas,Mas faz a pistola. Mas,Mas,Mas faz a metralhadora. Mas faz a Granada.
Crystal, Bohemia, Antartica, Itaipava, Cintra, Bavaria, Kaiser, Petra, Nova Schin, Belco, Lokal, Cerpa, Skol, Lecker, Brahma e Primus expresso em modelos Pilsen, Malzbier, Beats, Bock, Gold, Light, Extra, Chopp, Lemon, Premium, Kolsch,...e quanto não vale uma Mini Sagres????
O Sol por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem é inferno. A praia por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem é cegueira. A noite por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem samba.
Minha filha nasceu há dois meses, e elas já são três. Primeiro a pequena, com bigode à Manuel, feia, e imensamente fragil. A Segunda com olhares ferozes e questionadores, perguntando porque e respondendo onde. Agora a Terceira que sorri sem dentes, vomita gracejos, já diz Benfica e é Linda!!!!!!!!!!!
[O Hugo tornou-se carioca, mergulhou no Rio de Janeiro por amor e em Ipanema por filiação. Conheci-o quando ainda era um homem da Covilhã, depois veio para Lisboa e agora vive no Brasil, com a mulher e a filha, bebé de meses. Jantares em casa dele, o quintal da Copa que instalou na Penha de França, algumas imperiais, horas de conversa - eis os registos da memória transatlântica. Saudades avivadas por este texto. Brilhante, meu irmão.]
26.3.07
O dezassete
Nos dias em que há ameaça de chuva sobre a capital mais solarenga da Europa [ou simplesmente nos dias em que estou tão cansado que não me apetece cumprir a pé os 1,8 quilómetros que separam a minha casa da redacção] apanho o autocarro na esquina da América com a Guilhermina Suggia. Evito o 727 para a Picheleira, não me parece um destino digno. O 49 dá uma volta tremenda, demora mais tempo do que qualquer caminhada. Na verdade, só me resta uma opção viável: o dezassete, que desce metade da avenida do Brasil relativamente vazio, vira para a Rio de Janeiro e apanha quatro ou cinco velhotas de chapéu coquete sobre os cabelos arranjados [normalmente pode-se encontrar residualmente estas personagens cinco metros atrás da paragem do autocarro, dispostas pela esplanada da pastelaria Biarritz a beber chá a meio da tarde em bandos de duas ou três velhotas], passa pelo estádio primeiro de Maio, onde entram sempre alguns estudantes das escolas das redondezas [cadernos gastos no final do segundo período, cada vez menos mochilas, canetas no bolso de trás], vira depois para a América, apanha-me a mim e a duas mulheres a dias, uma com alcofa na mão, outra com sacos de plástico, sobe ao Areeiro pela Gago Coutinho, desce a Almirante Reis à cunha com empregados de bancos ou das seguradoras que fecham por volta das três tarde, e detém-se finalmente na Praça do Chile, virado para a Morais Soares, rua multicultural e cosmopolita, com lojas a preços de revenda e clientela das classes operárias.
O motorista do dezassete não era hoje o do costume. Este tinha quinas na mão, que não significam nenhum espírito patriota relevante, apenas o facto de ter estado preso. Quando entrei, ele conversava animadamente com o revisor: «Só espero que tenham percebido a mensagem», comentou o revisor. «As pessoas estão fartas», respondeu o condutor e eu sem perceber o tónico da conversa.
Afastei-me por instantes, não havia lugares livres no autocarro e eu fiquei em frente a duas senhoras que seguramente haviam entrado na paragem frente ao Biarritz, ainda que uma delas não usasse chapéu, antes um alfinete de peito em forma de borboleta presa sobre o lado direito do casaco. «É um escândalo», dizia uma. «Um escândalo», confirmava a outra enquanto procurava na mala de pano um pacote de lenços de papel, tirava um e se assoava sem fazer qualquer barulho. Atrás de mim, duas adolescentes comparavam toques de telemóvel, riam-se muito indiferentes à polémica. Voltei a encaminhar-me para a parte dianteira do dezassete, onde motorista e revisor prosseguiam o tónico animado: «Perdeu-se o respeito e os políticos são uns corruptos. Precisávamos de voltar ao antigamente.» E foi então que percebi tudo. Os telespectadores da RTP escolheram ontem António de Oliveira Salazar como o maior português de sempre e o dezassete seguia em alvoroço pela bizarria do facto.
É lamentável, muito triste mesmo, que um grupo de votantes escolha um pequeno ditador, tacanho e provinciano, como modelo a seguir. Mas é um sério aviso à navegação - as pessoas estão fartas da crise, dos políticos corruptos, das medidas de cosmética, dos salários baixos, deste projecto de Portugal falido. O escândalo não é a conversa do dezassete, nem a escolha de salazar como o maior português. O escândalo é a política de educação deste país.
O motorista do dezassete não era hoje o do costume. Este tinha quinas na mão, que não significam nenhum espírito patriota relevante, apenas o facto de ter estado preso. Quando entrei, ele conversava animadamente com o revisor: «Só espero que tenham percebido a mensagem», comentou o revisor. «As pessoas estão fartas», respondeu o condutor e eu sem perceber o tónico da conversa.
Afastei-me por instantes, não havia lugares livres no autocarro e eu fiquei em frente a duas senhoras que seguramente haviam entrado na paragem frente ao Biarritz, ainda que uma delas não usasse chapéu, antes um alfinete de peito em forma de borboleta presa sobre o lado direito do casaco. «É um escândalo», dizia uma. «Um escândalo», confirmava a outra enquanto procurava na mala de pano um pacote de lenços de papel, tirava um e se assoava sem fazer qualquer barulho. Atrás de mim, duas adolescentes comparavam toques de telemóvel, riam-se muito indiferentes à polémica. Voltei a encaminhar-me para a parte dianteira do dezassete, onde motorista e revisor prosseguiam o tónico animado: «Perdeu-se o respeito e os políticos são uns corruptos. Precisávamos de voltar ao antigamente.» E foi então que percebi tudo. Os telespectadores da RTP escolheram ontem António de Oliveira Salazar como o maior português de sempre e o dezassete seguia em alvoroço pela bizarria do facto.
É lamentável, muito triste mesmo, que um grupo de votantes escolha um pequeno ditador, tacanho e provinciano, como modelo a seguir. Mas é um sério aviso à navegação - as pessoas estão fartas da crise, dos políticos corruptos, das medidas de cosmética, dos salários baixos, deste projecto de Portugal falido. O escândalo não é a conversa do dezassete, nem a escolha de salazar como o maior português. O escândalo é a política de educação deste país.
23.3.07
Janela com vista #03 - Helena Teixeira da Silva
Na Primavera começava a contagem decrescente. Os cadernos pretos encadernados com a arte que à altura admirávamos já quase não tinham páginas brancas, mas sabíamos que não tínhamos que comprar cadernos novos. Juntavam-se umas folhas A4 emprestadas e serviam perfeitamente para apontar uns sumários aos quais já não daríamos grande importância. Como se o sol fosse a fronteira que ditava a matéria que já não sairia nos testes. Os livros, já todos amarrotados, serviam-nos de almofadas nos intervalos. E os intervalos eram cada vez maiores porque descobríamos o prazer de chegar depois do segundo toque, de sentar na última fila, de não esticar o dedo para responder às perguntas só porque não - o sabor de quem sabe que está no fim da linha. De quem tem os pés na sala e a cabeça onde a voz do professor não chega.
Experimentávamos, com a excitação dos rituais clandestinos, os primeiros cigarros atrás dos pavilhões; alguns trocavam os primeiros beijos. Os contínuos, com os olhos dentro dos bolsos das batas, fingiam não ver. Sorriam discretamente, não como guardiães daquele segredo; mas como se só eles soubessem que nenhum amor sobreviveria às férias grandes. Havia sempre só um rapaz desejado - o mais marginal e tendencialmente o mais velho; sempre só uma rapariga - a mais bonita. Ninguém ficava triste com isso. Era assim. No ano seguinte, talvez os eleitos fossem outros. Eram outros. Trocavam-se bilhetes, promessas enigmáticas escritas a giz nos postes pretos dos corredores. E sonhos, que não eram de Verão, mas do próximo campeonato lectivo. E tudo batia sempre certo. Como nos filmes. Nenhuma história capotava.
Um dia, saíamos de casa para a escola sabendo que não teríamos escola. A lição número cem de cada disciplina era comemorada com pic-nic e gazeta. E euforia. Não era só o ano lectivo que estava a quase a acabar. Eram esses amores, protelados durante três períodos, que floresciam, finalmente. Eram as frases silenciadas que ganhavam forma. Era a súbita confiança com os professores e a argumentação que os convencia a esticar um quatro para um cinco - ou um dois para um três. E eles cediam, certamente convictos de que inflacionar notas na aldeia não haveria de corromper o mundo. Era o contraditório desejo de que não acabasse já ali a maratona das aulas. Embora se faltasse cada vez mais às aulas. Embora ser expulso delas se tornasse num improvável momento de glória. Os inquilinos das cadeiras dispostas atrás das mesas em forma de U mudavam nas últimas semanas: as equipas sexistas eram substituídas por casais.
Íamos para o rio na recta final do percurso. E ninguém se sepultava primeiro dentro de um solário por temer exibir a brancura epidérmica. Ser mais ou menos gordo também não era obstáculo para vestir os biquinis da época anterior. Não era relevante. Não se falava disso. Falava-se de tudo o que se calou durante um programa curricular inteiro. Partilhavam-se ideais, caminhos de futuro. E antecipava-se a viagem anual, onde mais paixões haveriam de surgir. Viagens ali, ao virar da esquina, que nos deslumbravam como cruzeiros. Havia sempre alguém, geralmente o rapaz marginal cobiçado, que saltava da ponte mais alta. E sempre alguém que levava um rádio de pilhas com os hits do momento.
Depois, os viciados como eu, iam jogar Tetris até não haver mais moedas no raio de cinquenta metros. Nem os empregados do café eram poupados ao peditório. Tudo em nome de um novo recorde. Bebia-se café com natas. Aguardava-se o baile de fim de tarde, derradeiro momento para angariação de fundos e slows suados dançados às escuras. O concerto nocturno das bandas de garagem da terra encerraria um capítulo que todos sabiam que haveriam de contar vezes e vezes sem conta pela vida fora.
Voltávamos no ano seguinte. E nunca voltávamos iguais. Voltavam os enérgicos debates para a eleição da associação de estudantes. Vitórias emolduradas. Devagar, talvez com maior vagar do que nos sítios onde viviam as pessoas que conhecíamos Verão-após-Verão, crescíamos mais um bocadinho. Mas continuávamos a acreditar, tão cândidos como no início, que nunca haveríamos de nos separar. No fim dos anos lectivos todos, doze seguidos, candidatámo-nos, os seis do núcleo duro, à mesma cidade. Lisboa era a mais conveniente para um, para o que queria Comunicação Social; logo, a mais conveniente para todos. Donos do nosso pequeno pódio transmontano, não estávamos habituados a ser driblados pela ideia de que há mais mundo além do nosso. Ficámos todos separados.
[A Helena é transmontana de gema, portuense de residência, lisboeta de espírito, jornalista de vocação. Conheci-a no Porto há não muito tempo, por intermédio do catalão maluco, e percebi de imediato que a conhecia há muitas vidas. Apresentou-me alguns dos lugares mais cool da Invicta, fez-me ter saudades de uma cidade que me costumava passar ao lado e, por isso mesmo, hoje o meu Porto também se chama Helena. Aqui fica uma excelente janela com vista do Arranha-céus, escrita com palavras de algodão doce.]
Experimentávamos, com a excitação dos rituais clandestinos, os primeiros cigarros atrás dos pavilhões; alguns trocavam os primeiros beijos. Os contínuos, com os olhos dentro dos bolsos das batas, fingiam não ver. Sorriam discretamente, não como guardiães daquele segredo; mas como se só eles soubessem que nenhum amor sobreviveria às férias grandes. Havia sempre só um rapaz desejado - o mais marginal e tendencialmente o mais velho; sempre só uma rapariga - a mais bonita. Ninguém ficava triste com isso. Era assim. No ano seguinte, talvez os eleitos fossem outros. Eram outros. Trocavam-se bilhetes, promessas enigmáticas escritas a giz nos postes pretos dos corredores. E sonhos, que não eram de Verão, mas do próximo campeonato lectivo. E tudo batia sempre certo. Como nos filmes. Nenhuma história capotava.
Um dia, saíamos de casa para a escola sabendo que não teríamos escola. A lição número cem de cada disciplina era comemorada com pic-nic e gazeta. E euforia. Não era só o ano lectivo que estava a quase a acabar. Eram esses amores, protelados durante três períodos, que floresciam, finalmente. Eram as frases silenciadas que ganhavam forma. Era a súbita confiança com os professores e a argumentação que os convencia a esticar um quatro para um cinco - ou um dois para um três. E eles cediam, certamente convictos de que inflacionar notas na aldeia não haveria de corromper o mundo. Era o contraditório desejo de que não acabasse já ali a maratona das aulas. Embora se faltasse cada vez mais às aulas. Embora ser expulso delas se tornasse num improvável momento de glória. Os inquilinos das cadeiras dispostas atrás das mesas em forma de U mudavam nas últimas semanas: as equipas sexistas eram substituídas por casais.
Íamos para o rio na recta final do percurso. E ninguém se sepultava primeiro dentro de um solário por temer exibir a brancura epidérmica. Ser mais ou menos gordo também não era obstáculo para vestir os biquinis da época anterior. Não era relevante. Não se falava disso. Falava-se de tudo o que se calou durante um programa curricular inteiro. Partilhavam-se ideais, caminhos de futuro. E antecipava-se a viagem anual, onde mais paixões haveriam de surgir. Viagens ali, ao virar da esquina, que nos deslumbravam como cruzeiros. Havia sempre alguém, geralmente o rapaz marginal cobiçado, que saltava da ponte mais alta. E sempre alguém que levava um rádio de pilhas com os hits do momento.
Depois, os viciados como eu, iam jogar Tetris até não haver mais moedas no raio de cinquenta metros. Nem os empregados do café eram poupados ao peditório. Tudo em nome de um novo recorde. Bebia-se café com natas. Aguardava-se o baile de fim de tarde, derradeiro momento para angariação de fundos e slows suados dançados às escuras. O concerto nocturno das bandas de garagem da terra encerraria um capítulo que todos sabiam que haveriam de contar vezes e vezes sem conta pela vida fora.
Voltávamos no ano seguinte. E nunca voltávamos iguais. Voltavam os enérgicos debates para a eleição da associação de estudantes. Vitórias emolduradas. Devagar, talvez com maior vagar do que nos sítios onde viviam as pessoas que conhecíamos Verão-após-Verão, crescíamos mais um bocadinho. Mas continuávamos a acreditar, tão cândidos como no início, que nunca haveríamos de nos separar. No fim dos anos lectivos todos, doze seguidos, candidatámo-nos, os seis do núcleo duro, à mesma cidade. Lisboa era a mais conveniente para um, para o que queria Comunicação Social; logo, a mais conveniente para todos. Donos do nosso pequeno pódio transmontano, não estávamos habituados a ser driblados pela ideia de que há mais mundo além do nosso. Ficámos todos separados.
[A Helena é transmontana de gema, portuense de residência, lisboeta de espírito, jornalista de vocação. Conheci-a no Porto há não muito tempo, por intermédio do catalão maluco, e percebi de imediato que a conhecia há muitas vidas. Apresentou-me alguns dos lugares mais cool da Invicta, fez-me ter saudades de uma cidade que me costumava passar ao lado e, por isso mesmo, hoje o meu Porto também se chama Helena. Aqui fica uma excelente janela com vista do Arranha-céus, escrita com palavras de algodão doce.]
22.3.07
Road movie
Se há coisa que me tem dado gozo desde que fui viver para a América é ir ao cinema sozinho. Também gosto de ir acompanhado, de preferência bem acompanhado, mas de vez em quando dou uma volta maior a caminho de casa e passo de propósito pelo King só para ver o que anunciam os cartazes. Se gosto, entro e peço um lugar a meio da sala, sozinho, sem distúrbios. Aconteceu-me ontem.
No domingo fui beber um chá a Vale de Lobos e dei por mim a falar com os pais de uma amiga sobre os rituais de uma ida ao cinema. Nos anos 60 as pessoas aperaltavam-se para ir ver uma sessão ao Império, ao Europa, ao Éden ou ao Cinema Roma [todos eles extintos, fechados, recovertidos em locais de culto e colecta do dízimo, ou pior ainda, deitados abaixo e transformados em urbanizações e edifícios de escritórios], passavam dois filmes, ou então apenas um com documentários e espectáculos musicais pelo meio. Havia intervalos onde as mulheres se dirigiam ao foyer para bebericar capilé e os homens um moscatel. O cinema era fogueira de vaidades, ponto de encontro para conversas e escaladas sociais, palco informal de negócios e acertos de contas. Hoje as salas saíram do centro para a periferia da cidade, os filmes são exibidos em complexos multiplex, as pipocas substituíram o capilé e ninguém barra a entrada a quem entrar no cinema de sandálias, calções e saias.
O King tem algum glamour europeu, que é diferente do velho charme dos cinemas lisboetas. E, sem saudosismos dos tempos que não vivi, congrega o melhor dos dois mundos: é suficientemente descontraído mas não é ícone de nenhum padrão de consumo ou de montra de imagens para lá das que passam na tela. Além de que, ali, não se vendem pipocas. Por isso é que me deu tanto gozo ir sozinho ver o «Half Nelson» [bom filme, excelente interpretação]. Sentei-me no centro da sala disposto à solidão diante do ecrã quando, passados minutos, senta-se à minha direita um conhecido do Bairro Alto e à esquerda um conhecido da faculdade.
Lá se foi o plano de eremita. Mas o cinema é isto, não é? Uma escola de ilusões.
No domingo fui beber um chá a Vale de Lobos e dei por mim a falar com os pais de uma amiga sobre os rituais de uma ida ao cinema. Nos anos 60 as pessoas aperaltavam-se para ir ver uma sessão ao Império, ao Europa, ao Éden ou ao Cinema Roma [todos eles extintos, fechados, recovertidos em locais de culto e colecta do dízimo, ou pior ainda, deitados abaixo e transformados em urbanizações e edifícios de escritórios], passavam dois filmes, ou então apenas um com documentários e espectáculos musicais pelo meio. Havia intervalos onde as mulheres se dirigiam ao foyer para bebericar capilé e os homens um moscatel. O cinema era fogueira de vaidades, ponto de encontro para conversas e escaladas sociais, palco informal de negócios e acertos de contas. Hoje as salas saíram do centro para a periferia da cidade, os filmes são exibidos em complexos multiplex, as pipocas substituíram o capilé e ninguém barra a entrada a quem entrar no cinema de sandálias, calções e saias.
O King tem algum glamour europeu, que é diferente do velho charme dos cinemas lisboetas. E, sem saudosismos dos tempos que não vivi, congrega o melhor dos dois mundos: é suficientemente descontraído mas não é ícone de nenhum padrão de consumo ou de montra de imagens para lá das que passam na tela. Além de que, ali, não se vendem pipocas. Por isso é que me deu tanto gozo ir sozinho ver o «Half Nelson» [bom filme, excelente interpretação]. Sentei-me no centro da sala disposto à solidão diante do ecrã quando, passados minutos, senta-se à minha direita um conhecido do Bairro Alto e à esquerda um conhecido da faculdade.
Lá se foi o plano de eremita. Mas o cinema é isto, não é? Uma escola de ilusões.
21.3.07
Janela com vista #02 - Rui Gouveia
DIA I – Ai Jesus…
Não sei como é que me fui meter nisto.
Eu que nem nunca fui destas coisas…
Agora sou escritor.
E escrevo sobre a vida, o mundo e os homens.
E cada uma destas coisas dava para escrever tanto, tanto, tanto, que é quase mais tanto quanto tanto tem o mais.
Assim como não há nada perfeito também não há nada que não o seja.
Ainda antes de acordar já vejo o mundo, aquele dos sonhos.
Acordo e abro os olhos.
Vejo agora dois mundos: o físico que me rodeia e o outro, o dos sonhos acordado.
E é com estes dois que saio para a vida, num turbilhão de interacções.
E assim ando até fechar novamente os olhos e os dois se voltarem a encontrar naquilo que eu sou…
...uma história inconsolável. Um caso incontornável de uma vida desgraçada.
A manhã cinzenta do caos agoira uma tarde despedaçada de estilhaços incongruentes e falidos. A nota do espaço aponta o infinito, o caos do romantismo a morte.
Nenhuma desilusão é pior que toda a vida sem sentido.
DIA II – Tou Fuck…
Vivo numa ilusão tão grande, numa tão imposta realidade que não é minha!
E então tenho de imaginar e viver com outra, que temo que desapareça no dia em que a esperança se queda.
E esta, perco-a quando superada pela angústia, fruto de um acumular de momentos. Aqueles em que não acredito que compense, quando todos os elementos que me mantêm vivo estão presentes apenas na memória, substituídos no sentir por um enorme vazio.
És um conflito vivo
Inconstante a todo o momento
Para assim te manteres igual a ti próprio
Nessa forma de viver aos sobressaltos
Procura-se algum conforto
Serenidade e paz
Sempre às voltas e sem repouso.
Falta-me a sensatez e paz de espírito
Para atingir ou apanhar
O que em inquietude vejo
E não consigo alcançar
As nossas almas passeiam juntas de mãos dadas. E riem-se de nós, que barrados pelos sentidos que os nossos corpos nos forçam a ter, continuamos às voltas, baralhados em sentimentos, a complicar o que é tão simples.
E elas riem-se.
Porque se deixam ir, porque lhes é fácil tudo o que nós gostaríamos mas nunca vamos ser.
(continua…)
Dia III – Eh Eh Eh! ;)
O Ser Humano só está bem quando tem o que quer.
E isso, é impossível de mudar.
Pode-se mudar é o que se quer.
De que vale o conhecimento se dele não se retirar proveito?
Tu que sabes e eu que sei, cala-te tu que eu me calarei. (adoro-te Avó Graça)
Não esqueço nada do que sei, não guardo nada do que esqueço, não nego, não minto.
E sou feliz!!!!!!!!
No limiar está a fé. No Benfica, na minha tia, na rebeldia ou na batata. Porque nunca o analisador poderá definir totalmente o analisado sendo simultaneamente os dois.
Resta ACEITAÇÃO, COERÊNCIA e deixa andar.
Venha a festa.
Até já.
* Parabéns pelo blog Ricky, és grande. *
Hergé
[Isto é pura introspecção à moda do Gouvas. O Gouveia, Rui Miguel, é amigo desde a adolescência sintrense, da família que eu escolhi. Fomos expulsos dos escuteiros juntos, o que nitidamente não é para todos. São muitos anos de acampamentos, borgas, viagens, idas de carro até França e de autocarro até à Polónia, uma casa partilhada entre nós dois e a Vanda durante dois anos, festas trance, planos para uma ida a Berlim e um livro que ele quer - deve - escrever. O Gouvas vive em Benguela, Angola, há dois anos. O currículo diz que é engenheiro, mas isso é apenas a aparência. Em abono da verdade, o rapaz é um boémio de ideias largas e gargalhadas fáceis. Abraço para esse hemisfério, irmão.]
Não sei como é que me fui meter nisto.
Eu que nem nunca fui destas coisas…
Agora sou escritor.
E escrevo sobre a vida, o mundo e os homens.
E cada uma destas coisas dava para escrever tanto, tanto, tanto, que é quase mais tanto quanto tanto tem o mais.
Assim como não há nada perfeito também não há nada que não o seja.
Ainda antes de acordar já vejo o mundo, aquele dos sonhos.
Acordo e abro os olhos.
Vejo agora dois mundos: o físico que me rodeia e o outro, o dos sonhos acordado.
E é com estes dois que saio para a vida, num turbilhão de interacções.
E assim ando até fechar novamente os olhos e os dois se voltarem a encontrar naquilo que eu sou…
...uma história inconsolável. Um caso incontornável de uma vida desgraçada.
A manhã cinzenta do caos agoira uma tarde despedaçada de estilhaços incongruentes e falidos. A nota do espaço aponta o infinito, o caos do romantismo a morte.
Nenhuma desilusão é pior que toda a vida sem sentido.
DIA II – Tou Fuck…
Vivo numa ilusão tão grande, numa tão imposta realidade que não é minha!
E então tenho de imaginar e viver com outra, que temo que desapareça no dia em que a esperança se queda.
E esta, perco-a quando superada pela angústia, fruto de um acumular de momentos. Aqueles em que não acredito que compense, quando todos os elementos que me mantêm vivo estão presentes apenas na memória, substituídos no sentir por um enorme vazio.
És um conflito vivo
Inconstante a todo o momento
Para assim te manteres igual a ti próprio
Nessa forma de viver aos sobressaltos
Procura-se algum conforto
Serenidade e paz
Sempre às voltas e sem repouso.
Falta-me a sensatez e paz de espírito
Para atingir ou apanhar
O que em inquietude vejo
E não consigo alcançar
As nossas almas passeiam juntas de mãos dadas. E riem-se de nós, que barrados pelos sentidos que os nossos corpos nos forçam a ter, continuamos às voltas, baralhados em sentimentos, a complicar o que é tão simples.
E elas riem-se.
Porque se deixam ir, porque lhes é fácil tudo o que nós gostaríamos mas nunca vamos ser.
(continua…)
Dia III – Eh Eh Eh! ;)
O Ser Humano só está bem quando tem o que quer.
E isso, é impossível de mudar.
Pode-se mudar é o que se quer.
De que vale o conhecimento se dele não se retirar proveito?
Tu que sabes e eu que sei, cala-te tu que eu me calarei. (adoro-te Avó Graça)
Não esqueço nada do que sei, não guardo nada do que esqueço, não nego, não minto.
E sou feliz!!!!!!!!
No limiar está a fé. No Benfica, na minha tia, na rebeldia ou na batata. Porque nunca o analisador poderá definir totalmente o analisado sendo simultaneamente os dois.
Resta ACEITAÇÃO, COERÊNCIA e deixa andar.
Venha a festa.
Até já.
* Parabéns pelo blog Ricky, és grande. *
Hergé
[Isto é pura introspecção à moda do Gouvas. O Gouveia, Rui Miguel, é amigo desde a adolescência sintrense, da família que eu escolhi. Fomos expulsos dos escuteiros juntos, o que nitidamente não é para todos. São muitos anos de acampamentos, borgas, viagens, idas de carro até França e de autocarro até à Polónia, uma casa partilhada entre nós dois e a Vanda durante dois anos, festas trance, planos para uma ida a Berlim e um livro que ele quer - deve - escrever. O Gouvas vive em Benguela, Angola, há dois anos. O currículo diz que é engenheiro, mas isso é apenas a aparência. Em abono da verdade, o rapaz é um boémio de ideias largas e gargalhadas fáceis. Abraço para esse hemisfério, irmão.]
20.3.07
A estrela da Amadora
«Sabias que se chamava Porcalhota», perguntava-me a avó Arlete sobre a Amadora sempre que íamos dar um passeio. Morava ali desde a adolescência da minha mãe, num quinto andar da avenida de Pangim, que fica quatro ruas acima do estádio do Estrela, pertinho das escadas que dão acesso à clínica de Santo António.
«Sabias que se chamava Porcalhota» e eu escangalhava-me a rir, as mãos dadas à avó Arlete e ao avô Armando, enquanto descíamos a Reboleira e seguíamos para a Damaia, depois subiámos a rua para passar a linha de comboio numa fresta da vedação em Santa Cruz, seguíamos então para as portas de Benfica, até à estação, e fazíamos o percurso inverso, caminho de bairros de lata e africanidades, sem medos, apenas afogueados. Só eu queria ir com a avó Arlete e o avô Armando passear, os meus irmãos preferiam ficar a brincar ou a ver desenhos animados. «Sabias?»
O quinto andar na avenida de Pangim tinha as paredes cobertas de tinta de água, era reluzência fora de moda. Verde cueca na casa de banho, azul atlântico na sala, vinho tinto no hall de entrada. Havia o quarto, com mesinhas de cabeceira cheias de Selecções do Reader's Digest e as prateleiras cheias de livros de Agatha Christie e Heinz Konsalik, que a avó Arlete lia de uma ponta à outra religiosamente, e duas casas de banho. Depois existia a sala, a salinha e a sala de costura, onde ela passava noites curvada sobre a velha máquina Singer, cosendo fechos eclair brancos em oleados azuis escuros para fazer sacos de desporto. Na salinha dormíamos nós, sofá cama aberto para mim e o Hugo, o David num colchão pequeno, à sua medida, esparramado no chão. E a sala, interdita à nossa entrada, tinha um quadro de um menino a chorar na parede e uma mesa de mármore no centro [uma vez parti ali a cabeça mas não contei nada à avó Arlete, com medo de represálias por ter entrado na zona proíbida da casa], mais três quadros de uma queimada em África, que o tio Vítor trouxe de Angola. Lá fora um jardim de ervas daninhas onde às vezes encontrava a professora de História do colégio D. Afonso V, a quem chamavamos Escarreta por ter um problema na laringe que a fazia puxar a expectoração a cada cinco minutos de discurso. E a igreja da Reboleira, onde vi os meus avós casarem quando era menino [é caso raro, alguém ir ao casamento dos avós. Mas os meus tinham passado uma vida de união civil e só aos cinquenta anos de parelha se decidiram pelo matrimónio].
Ontem fui ver o Benfica jogar no campo do Estrela da Amadora e depois liguei ao meu pai, era dia dele, para que me apanhasse e fossemos jantar. «Encontramo-nos à porta de casa da avó Arlete, lembras-te onde fica?» Como se algum dia me fosse esquecer... E lá subi as quatro ruas e passei pela igreja onde os meus avós casaram, lá observei meticulosamente os degraus da escadaria que dão acesso à clínica de Santo António, lá me dispus a esperar pelo meu pai diante do quinto andar da avenida de Pangim. E tudo o que antes era território de gigantes agora me parecia pequeno, excepto a memória da avó Arlete, a minha estrela da Amadora, que um dia me fez prometer que haveria de escrever um livro em honra dela e eu cumpri.
Tenho saudades tuas, avó.
«Sabias que se chamava Porcalhota» e eu escangalhava-me a rir, as mãos dadas à avó Arlete e ao avô Armando, enquanto descíamos a Reboleira e seguíamos para a Damaia, depois subiámos a rua para passar a linha de comboio numa fresta da vedação em Santa Cruz, seguíamos então para as portas de Benfica, até à estação, e fazíamos o percurso inverso, caminho de bairros de lata e africanidades, sem medos, apenas afogueados. Só eu queria ir com a avó Arlete e o avô Armando passear, os meus irmãos preferiam ficar a brincar ou a ver desenhos animados. «Sabias?»
O quinto andar na avenida de Pangim tinha as paredes cobertas de tinta de água, era reluzência fora de moda. Verde cueca na casa de banho, azul atlântico na sala, vinho tinto no hall de entrada. Havia o quarto, com mesinhas de cabeceira cheias de Selecções do Reader's Digest e as prateleiras cheias de livros de Agatha Christie e Heinz Konsalik, que a avó Arlete lia de uma ponta à outra religiosamente, e duas casas de banho. Depois existia a sala, a salinha e a sala de costura, onde ela passava noites curvada sobre a velha máquina Singer, cosendo fechos eclair brancos em oleados azuis escuros para fazer sacos de desporto. Na salinha dormíamos nós, sofá cama aberto para mim e o Hugo, o David num colchão pequeno, à sua medida, esparramado no chão. E a sala, interdita à nossa entrada, tinha um quadro de um menino a chorar na parede e uma mesa de mármore no centro [uma vez parti ali a cabeça mas não contei nada à avó Arlete, com medo de represálias por ter entrado na zona proíbida da casa], mais três quadros de uma queimada em África, que o tio Vítor trouxe de Angola. Lá fora um jardim de ervas daninhas onde às vezes encontrava a professora de História do colégio D. Afonso V, a quem chamavamos Escarreta por ter um problema na laringe que a fazia puxar a expectoração a cada cinco minutos de discurso. E a igreja da Reboleira, onde vi os meus avós casarem quando era menino [é caso raro, alguém ir ao casamento dos avós. Mas os meus tinham passado uma vida de união civil e só aos cinquenta anos de parelha se decidiram pelo matrimónio].
Ontem fui ver o Benfica jogar no campo do Estrela da Amadora e depois liguei ao meu pai, era dia dele, para que me apanhasse e fossemos jantar. «Encontramo-nos à porta de casa da avó Arlete, lembras-te onde fica?» Como se algum dia me fosse esquecer... E lá subi as quatro ruas e passei pela igreja onde os meus avós casaram, lá observei meticulosamente os degraus da escadaria que dão acesso à clínica de Santo António, lá me dispus a esperar pelo meu pai diante do quinto andar da avenida de Pangim. E tudo o que antes era território de gigantes agora me parecia pequeno, excepto a memória da avó Arlete, a minha estrela da Amadora, que um dia me fez prometer que haveria de escrever um livro em honra dela e eu cumpri.
Tenho saudades tuas, avó.
19.3.07
15.3.07
Diz que é uma espécie de alzheimer
Perdi outra vez o telemóvel. Este ano ainda não tinha perdido nenhum, mas em 2006 perdi sete aparelhos da Nokia, o modelo mais barato, claro, o que perfaz no ano passado um investimento de 350 euros em telecomunicações - e isto sem contar com carregamentos e taxas por estar sempre a pedir novas vias dos cartões.
O cúmulo aconteceu em Dezembro. Comprei um telemóvel no início do mês porque na semana anterior tinha perdido um no táxi. Dias mais tarde o aparelho desapareceu e tive que comprar outro em Aveiro - era este, o que agora perdi em parte incerta.
Dezembro é, aliás, um mês negro para os meus telemóveis. A única vez que decidi fazer um investimento mais avultado na área das telecomunicações foi para comprar um aparelho de elevado gabarito, que por acaso não tirava fotografias mas era um verdadeiro espectáculo de cor, luz, som e imagem.
Adquiri essa obra de arte no início de Dezembro de 2003, com o advento do subsídio de Natal. Levei-o para a redacção orgulhoso, a maquineta impressionava mais do que um Ferrari ou um veleiro [cabia num só bolso e no entanto era tão estridente e pimba que arrancava ohhhhs de espanto]. Durou duas semanas. Um dia, na louca esquizofrenia que pautava a labuta jornalística na revista Focus, atirei-o ao ar e ele aterrou-me em cima da mesa com o ecrã - o magnífico ecrã - partido.
Jurei para mim mesmo nunca mais comprar um telemóvel caro. Ao invés, adquiro vários a baixo custo mas, feitas as contas, é como se adquirisse todos os anos um topo de gama. Talvez fosse melhor poupar dinheiro e comprar um cérebro novo.
O cúmulo aconteceu em Dezembro. Comprei um telemóvel no início do mês porque na semana anterior tinha perdido um no táxi. Dias mais tarde o aparelho desapareceu e tive que comprar outro em Aveiro - era este, o que agora perdi em parte incerta.
Dezembro é, aliás, um mês negro para os meus telemóveis. A única vez que decidi fazer um investimento mais avultado na área das telecomunicações foi para comprar um aparelho de elevado gabarito, que por acaso não tirava fotografias mas era um verdadeiro espectáculo de cor, luz, som e imagem.
Adquiri essa obra de arte no início de Dezembro de 2003, com o advento do subsídio de Natal. Levei-o para a redacção orgulhoso, a maquineta impressionava mais do que um Ferrari ou um veleiro [cabia num só bolso e no entanto era tão estridente e pimba que arrancava ohhhhs de espanto]. Durou duas semanas. Um dia, na louca esquizofrenia que pautava a labuta jornalística na revista Focus, atirei-o ao ar e ele aterrou-me em cima da mesa com o ecrã - o magnífico ecrã - partido.
Jurei para mim mesmo nunca mais comprar um telemóvel caro. Ao invés, adquiro vários a baixo custo mas, feitas as contas, é como se adquirisse todos os anos um topo de gama. Talvez fosse melhor poupar dinheiro e comprar um cérebro novo.
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