12.10.06

Apito dourado

Está certo que já não vivo no Principe Real. Tenho saudades, é um facto, e há dias soube-me bem ir lá jantar a casa do J, que também foi a minha casa durante uns meses. O tempo estava simpático e decidi guiar-me a pé pela cidade. Atravessei a avenida de Roma com tempo para observar as lojas e o glamour seventies desse eixo. Velhas coquetes com cães coquetes, betos com penteados betos, mulheres de unhas arranjadas, alfinetes de peito, lenços no pescoço. Um espectáculo para os olhos, pelo menos para os olhos de um outsider.

Subi ao Saldanha, para ver a cidade empresarial com pressa de ir para casa. Homens de fato e gravata, mulheres com saia e casaco, crianças saídas da creche, algumas com bibe, outras com roupa civil e mãos pintadas de caneta de feltro. Desci a Fontes Pereira de Melo, rumo ao Marquês. Reparei no edifício da Tudor que anda a deixar a D louca. Palacete de época prestes a cair aos pedaços, um luxo para os olhos.

Subi da Liberdade directamente para o Príncipe Real, passando a cinemateca e contornando o hotel Altis. No cruzamento da rua da Escola Politécnica com a rua do Arco do Carvalhal costuma estar um polícia sinaleiro a mandar os carros avançar e travar, a fingir que regula o trânsito. Parece que dança com os braços, com as pernas, com o rotdopio de direcções. Lá estava ele.

Esperei junto à passadeira para atravessar e ele apitou para toda a gente parar e deu prioridade ao peão [moi-mêmme]. Quando estava a chegar à outra margem do alcatrão, ouvi outro apito. Virei-me para trás e o polícia estava a olhar para mim. Cumprimentou-me puxando a pala do chapéu para baixo e disse «boa-tarde, como está». Respondi à altura, apesar do espanto. «Bem, obrigado». O tipo do apito dourado tinha-me reconhecido. Após cinco meses a passar diariamente por ele, a atravessar a estrada na passadeira dele, cumprimentou-me como se fossemos velhos conhecidos, vizinhos de bairro, coisa que o valha.

Lisboa é uma cidade tremenda. Do seu ensaio cosmopolita passa facilmente à condição de proximidade. Posso viver nos Estados Unidos, na avenida dos Estados Unidos, mas o polícia do meu bairro é o tipo do apito dourado.

2 comentários:

D, a que anda louca com o palacete e que viveu grande parte da sua vida nos EUA disse...

Muito bom, Ricky, e que grande caminhada, meu ganda maluco. Lisboa é feita disto. O velhote que faz bonecos com fios eléctricos no Marquês de Pombal também me cumprimenta, a mulher do lixo da Fontes Pereira de Melo também, isto já sem falar dos malucos.
Hoje é sexta 13, Ricky, mas o louco mais bonito de Lisboa parece que vai morrer num quarto sem ratos no chão e percevejos no colchão. É um belo dia: afinal há coisas que os olhos não estão preparados para ver, mas que são vistas porque é possível mudar alguma coisa.


PS- brutais audiências que tem este teu terceiro blogue

pinky disse...

hahahahah esse policia sinaleiro até eu o conheço! tb deve ser único em lx, só mesmo naquele cruzamento!