21.8.07

East is East


Há um ano estava aqui, em Halong Bay, a dar mergulhos no mar da China, fazer canoagem em grutas aquáticas, trekking em Puc Huong, reportagens no meio de nenhures. Há um ano, no Vietname, havia bandeiras espalhadas por toda a parte, eu estava a sentir-me repórter como nunca antes, a curtir viagem com história e, agora, memória.

Cheguei há dias da Europa de Leste. Este ano como no passado, o rumo apontou ao Oriente, onde o Sol nasce. Que continue assim.

19.7.07

Dá-lhe gás


Na estação de serviço de Vila Velha do Rodão, a meio caminho entre Abrantes e Castelo Branco, vendem-se todo o tipo de improbabilidades. Um mapa dos arredores de Sintra, por exemplo.

O caso não seria estranho, não fosse o facto da mesma estação de serviço não ter qualquer mapa da Beira Baixa e de não se conseguir encontrar um mapa dos subúrbios de Sintra em nenhuma estação de serviço dos subúrbios de Sintra.

Para que raio precisa um habitante de Vila Velha do Rodão de saber onde fica Pexiligais, a Tapada das Mercês ou a Serra das Minas?

2.7.07

24 hour party people


Quem por estes dias se detenha diante de qualquer parede do Bairro Alto, do Cais do Sodré ou de Santos, rapidamente constata a febre de festa que anda a assolar a cidade. Há festivais de Verão em barda, os melhores DJ's do mundo, beach parties, pool parties, festas trance, electro, punk, pimba, 80's, drum&bass, r&b, cidade&arredores. Há festa na aldeia.

Ninguém escapa ao contágio. Pessoalmente, quero ir ao Festival de Músicas do Mundo, ver Underworld e Scissor Sisters, Gotan Project e não digo que não às festas de São Lourenço em Tourém, concelho de Montalegre, Trás os Montes. A maior parte dos meus amigos também tem destinos definidos. E os conhecidos e os que nunca vi em parte nenhuma. Chega o Verão e Portugal precisa urgentemente de se embriagar.

O fenómeno não deixa de me arrepiar os pêlos. Estamos em plena crise económica, ninguém consegue atravessar a Baixa lisboeta sem que lhe cravem dois ou três ou oito cigarros num percurso de dez minutos [a propósito, os pedidos são cada vez mais exigência. No outro dia disse a um tipo «não» e ele perguntou «mas não porquê», outra vez respondi a um rapaz «só tenho um» e ele retorquiu com «também é só um que eu quero»], as pessoas andam mais agressivas, mais enrezinadas e mais ressabiadas. Mas chegou a altura das festas e não há quem não se sinta obrigado a cumprir o mais pós-moderno dos rituais portugueses. Nasceu na última década uma Partyland. Mas tenho dúvidas se estamos na terra da party people.



Tenho normalmente essa sensação às sextas e sábados à noite, no Bairro Alto [evito cada vez mais incursões a estes dias]. Observem-se mitras, betos, nherfs e pseudointelectuais de esquerda para constatar o facto. Passam grande parte da semana isolados e chega o fim de semana e decidem: «Hoje vou divertir-me!» Então invadem o bairro, anestesiam-se com álcool ou substâncias psicotrópicas para que, da meia-noite às seis [sete, oito] da manhã se divirtam. O problema é que decidem previamente a sua diversão, planeiam-na num horário e num formato pré-definido. É a morte da espontaneidade, com ilusão de grande festa.

Não tenho nada contra noites bem regadas ou aditivas. Nem quero ser moralista ao ponto de pensar que quem sai à sexta e sábado é obrigatoriamente assim. Só me espanta a febre de party-goers que se assumem como tal nesta cidade, quando ainda há uns dias vi um tipo meter-se com uma série de gente no Bairro, com tiradas realmente cómicas e geniais, de uma forma descomplexada, como se estivesse em festaconstante. Reparei que a maior parte das pessoas com quem ele se metia o ignoravam ou lhe respondiam com a típica sobranceria lisboeta.

Ninguém percebeu que esse tipo estava a oferecer passaportes para a grande festa. Mas era uma festa espontânea, verdadeira, fora de formato.

8.6.07

Pura vida

Passa uma semana de calor tórrido e chega feriado com céu de ameaça. Pode chover, pode ficar nublado, pode chegar vento, pode vir frio.

Mas não ficou.

Bandeira verde na praia da Mata é presente raro. Sintrense está habituado a mares agitados, brisa que se torna ventania num instante, instantinho. Na minha praia de sempre, a Adraga, verde foi visão de bandeira por duas ou três vezes - não num Verão, numa vida inteira. E ontem tive ondulação de senhoras. Mergulhar, mergulhar.

Veio Lisboa toda. Parecia saída da noite anterior, os mesmos rostos que foram ao Soft e ao Lux mas agora espojados na areia. Vai caiprinha? Vai. Caracóis? Sim. Melhor irmos jantar. Está bem.

Passei o sábado passado no Sado, num galeão com amigos [era a despedida de solteiro do Ric, que, inconscientemente, me convidou para padrinho. Está louco] a ver golfinhos, dar mergulhos, beber vodkas ao fim da tarde. Depois fomos comer canivetes a Setúbal, ameijoa, berbigão. Não havia choco frito, mas ahhhhhh, é tão bom ter Verão na bagagem.

Ontem mais fiesta, sábado mais praia. Se vier mariscada, melhor. Cerveja, parece-me bem. Dias longos, bonitos, e este ano arrisco-me a ir mais vezes à praia do que nos últimos cinco.

Os costa-riquenhos defendem a teoria da pura vida. Verão constante, verão andante, verão é estado de espírito para manter o ano todo. Seja, já cá estou.

6.6.07

Quase em casa


Junho tem alma de Dezembro. Natal com calor, hemisfério trocado, altura de regressos e congressos entre amigos com história. É reedição de um certo season spirit, agora mais solto, veranil.

A foto é do fim do ano, raiar do dia, alvorada em moca. Festa aveirense até aguentar e estes são os últimos resistentes. Que agora regressam: estão quase em casa. Vem um de Angola, vem. Outro de Espanha, vem. Menina chega da Índia, vem. Estudante volta a Lisboa, vem. Vem todo o mundo e reencontro é na América. Vem festa, vem.

4.6.07

Hell was here

Mr. T. não se costuma meter com ninguém, é um tipo pacato, sereno. Cravo-lhe às vezes mortalhas, outras vezes cerveja e ele nunca recusa. Trabalha no bairro, num bar do circuito boémio. É boa onda, Mr. T.

Ontem à noite Mr. T. foi espancado e partiram-lhe o bar todo. Eram três agressores e usavam blusões dos Hell's Angels. Um disse-lhe isso, «sou dos Hell's Angels», ele respondeu «boa, eu sou do Benfica», e então espancaram-no. Tinha a cara feita num bolo, Mr. T.

A polícia veio, não levou ninguém, parecia ter medo. Os tipos que deram a sova a Mr. T. - um tuga, dois californianos - revelaram em surdina que havia uma concentração deste grupo em Portugal, por estes dias. Mais de 1500 associados dos Hell's Angels chegaram de todo o mundo a Vila Franca de Xira na passada sexta-feira, em segredo, sem ninguém dar por eles. E ontem deram cabo de Mr. T.

Um dos meus escritores preferidos chama-se Hunter S. Thompson [se alguém viu o filme «Delírio em Las Vegas» saiba que é baseado num livro biográfico dele e que o tipo é a personificação das duas principais personagens. Thompson foi o fundador do Gonzo Journalism e era um alucinado como já não se fazem]e passou um ano em reportagem com os Angels. Andou com o grupo de motociclistas na estrada, assistiu a alguns dos crimes que os tornaram famosos, acabou espancado pelo colectivo de São Francisco.

Sexta feira passada, o inferno chegou a Lisboa e eu só me apercebi disso quando espancaram Mr. T. É certo que eles combinaram o encontro em surdina, mas é igualmente verdade que estão cá. A imprensa não noticiou, a polícia não se apercebeu, nada!

Já estão de partida - mas, fuck, como raio é que eu não fiz uma reportagem com eles?

29.5.07

Dar uma geral

Em Portugal trabalha-se mal. Um tipo que seja realmente competente no que faça não é recompensado por isso e um tipo que seja realmente incompetente no que faça não é castigado por isso. Seja no sector público ou em empresas privadas. A gestão de recursos humanos é, neste país, uma piada. Normalmente quem sobe na vida é porque é amigo do chefe, cão de fila ou yes-man. Há excepções, mas esta é a regra.

Em Portugal, muitas das pessoas que ocupam cargos de liderança receiam tanto serem ultrapassadas pelas pessoas mais novas [muitas vezes mais bem preparadas para as exigências profissionais] que muitas vezes bloqueiam o acesso às decisões a quem é bom. Há uma cultura do topo para as bases, quando a produtividade subiria se o processo ocorresse ao contrário. Obviamente.

Em Portugal, os chefes não partilham muitas vezes informação sobre o trabalho a desenvolver. Ouvem-se frases como: «ninguém te paga para pensar», «isso não é da tua competência», «reduz-te à tua insignificância». Ora, partilha também significa partilha de soluções, mas isso é vantagem que não se quer ver.

Em Portugal, não se elogia nem critica o trabalho dos outros, «mete-te mas é na tua vidinha». A excepção é quando aparece um tipo muito bom e que dá muito nas vistas. Aí, as pessoas falam, mas normalmente o sujeito é mais vezes alvo de inveja do que serve de exemplo. Trabalha-se mal em Portugal.

Em Portugal, há uma geração mil euros. Os que nasceram nos anos 70 só raras vezes conseguem ultrapassar esta fasquia – suficientemente modesta para manter condições de vida medíocres, suficientemente acima da média para ninguém criar ondas. É espiral sem fim, viver com mil euros. Até porque não há perspectiva de mudança.

Em Portugal, investiu-se nos baixos salários durante a segunda metade da década de oitenta e primeira de noventa como estratégia de desenvolvimento económico. Mas caiu o muro, veio a globalização e o país ainda não se soube reinventar. Um ministro convida empresários chineses a investirem em Portugal, porque os salários são baixos. O PM aumenta os impostos aos solteiros, aos deficientes e aos que querem morar sozinhos, para ordenar em rebanho de estratégia familiar [e remediada] a sociedade portuguesa. Não há formação profissional, não há aulas para trabalhadores estudantes, não há nada.

Em Portugal trabalha-se mal. E é por isso que eu adiro à greve geral de 30 de Maio. Não só por mim, não só pelos estagiários que enchem as redacções dos jornais a custo zero, não só pelas pessoas que conheço que se esfalfam como jornalistas e ganham menos do que um incompentente que não sai da secretária.

Faço greve porque em Portugal se trabalha mal. Mal demais.

24.5.07

Caos

Tinha directora, já não tenho. Fui nomeado para um prémio de jornalismo, não ganhei. O portátil deu o berro. Não comprei uns óculos novos. Não entreguei o IRS. Tenho que actualizar a carteira de jornalista. É por tudo isto que não escrevo há tanto tempo.

Aiiiiiiiiii

Mas acontecem coisas boas pelo meio. Baloiços e casamentos de amigos e tal.

I'll be back soon with another cartoon.

11.5.07

TOMBA LA LÃO

Mesmo em frente à América há um parque infantil com três cavalinhos que sobem e descem consoante o atrito que se lhes imprime, mais um complexo castelo de madeira com cordas para escalar e três escorregas [um túnel, um tubogan e uma passadeira normal, descendente, metálica] para ensaiar a evasão.

Nunca lá vi uma única criança.

O facto pode ser explicado pelo cada vez mais óbvio envelhecimento do bairro de Alvalade, pelas novas regras sociais em que os putos já não brincam na rua mas sim fechados em casa, diante do computador, ou pela simples constatação de que há três parques infantis numa área de 200 metros e aquele é sem dúvida o menos espectacular [não tem, por exemplo, bebedouro de água, sobe-e-desce ou baloiços]. Seja como for está constantemente vazio. Ninguém, um deserto de infância.

No entanto ontem, às quatro e meia da manhã, o parque infantil escangalhou-se em gargalhadas. Havia dois vultos no cavalinho, no tubogan, a escalar o castelo. Riso, festa, grande moca.

Quem disse que não existem crianças de 30 anos?

7.5.07

A menina dança?

Dança.

Muito bem.

Num palco de caixa de música, noutro sobre o Tejo, a menina dança com gestos de cantiga de embalar, esgar de baile de fim de verão, sorriso de cabaret. A menina dança muito bem. E eu gosto.

30.4.07

Dia não

Raios partam aquelas pessoas que insistem em ler o extracto da conta em frente à caixa multibanco, os que passam horas à espera numa fila para percorrer a pé o túnel do Marquês, os chico-espertos que fazem sinal de luzes ao carro em frente, quando este está a ultrapassar um camião numa autoestrada, mas são capazes de andar a 20 quilómetros/hora na faixa de aceleração se houver um acidente [nem é preciso tanto, basta uma luz de ambulância ou reboque] em sentido contrário.

Raios partam todos os senhores doutores, engenheiros e arquitectos que não o são e insistem em legitimar-se com um título alheio e impróprio. Raios parta a velha e pequenina geração que insiste na mesquinhez de barrar aos mais novos o acesso aos cargos de decisão e raios partam as novas gerações de pseudo-intelectuais que torcem o nariz à pureza em nome da postura, que se alheiam da «gentinha» e dos seus problemas, que são capazes de olhar para o seu próximo como se ele não existisse - antes para um ponto vago de um horizonte anónimo.

Raios partam as pontes a cair, as cegonhas que embatem em postes e rebentam com metade da rede electrica nacional, raios parta o protocolo de Quioto que nunca mais avança e os terroristas islâmicos e os demagogos americanos e esta mania portuguesa de nos abstrairmos do assunto, como se nada nos disesse respeito.

Esta manhã, quando acordei, estava de azia e com os pés de fora. Rios partam.

27.4.07

Miss D. vai casar

Sentimo-nos um pouco estranhos quando alguém com quem já tivemos uma relação nos anuncia que se vai casar. Miss D. vai casar este domingo. Anunciou-me o facto há já alguns meses, com a maior naturalidade do mundo, e eu aceitei a notícia no mesmo registo. Afinal, tinham passado anos desde que nos enrolámos pela última vez. E não havia de facto qualquer motivo para assim não ser: sempre ficámos amigos [contra todas as probabilidades, verdade seja dita], e, anos mais tarde, quando conheci o homem que este domingo a vai levar ao altar, achei que era um tipo porreiro e calado - com o tempo confirmei a primeira qualidade e ele foi ganhando confiança para alterar a segunda.

Miss D. e eu nunca namorámos, antes envolvemo-nos. Namorei sim com Miss H., que há dias me dizia qualquer coisa como «devia existir uma lei que proibisse os ex-namorados de casar.» Bem, Miss D. vai casar este domingo mas, como nunca foi oficialmente minha namorada, a lei não se aplica. Consigo até sentir-me feliz por ela. Vou aliás estar presente no casamento, no copo de água e até aposto que me vou divertir bastante. Mas não deixo de sentir algo estranho.

Sei que não quero casar, evito os relacionamentos e privilegio os envolvimentos, não me sobram restos da atracção que levou a que um dia eu e Miss D. estivessemos juntos. Mas isto é pura razão, porque emocionalmente dou por mim a pensar em imensos «whatifs». E se tivesse sido eu. E se tivesse sido ela. E se tivessemos sido nós.

Não somos, nunca fomos, nem seremos. Sei-o perfeitamente. Estou feliz por ela, estou feliz por ele. Não queria seguramente que fosse eu a recebê-la no altar e, no entanto, tenho plena consciência que este domingo, durante uma pequena fracção de segundo, hei-de voltar a sentir esta estranheza que agora escrevo. A estranheza inevitavelmente humana de querermos o que não temos e, simultaneamente, não o suportarmos ter.

26.4.07

Abril

Descer a avenida da Liberdade, de cravo vermelho numa mão, sozinho. Comover-me com samba de imigrante, fingir que danço enquanto somo os passos descendentes até ao Rossio. Gritar «fascismo nunca mais», «o custo de vida aumenta, o povo não aguenta», olhar nos olhos das velhas - uma, desdentada, ofereceu-me o cravo - e ler-lhes alegria nos olhos. Viva a Liberdade, viva.

Encontrar a Sara de há alguns anos e alguns suspiros, combinar café, resgatar ao passado a química adormecida. Concentrar o Bruno, a Lena, a Meg [onde estava a Inês, que raio?], como fazíamos há dez anos e há cinco e há 13, cantar a Grândola baixinho, o cravo a amachucar-se nos dedos.

Jantar, petiscada, Zé Mário Branco a ecoar pela sala. Discutir a esquerda, a direita, os tortos, o país. Beber JP tinto como se fosse Barca Velha, devorar ovos com farinheira, sala de massa fria, gargalhadas, é Ábril.

25 de Abril sempre!

19.4.07

Pavilhão Atlântico

Já passaram sete dias.

Chegar à proa deste barco e ver água em todas as direcções. Tentar adormecer com saltos de montanha russa, mar zangado até Ponta Delgada, brando na travessia para o Faial, de senhoras até Praia da Vitória. Sete dias de atlântico, num camarote com vista para o horizonte eterno, às vezes mais encrespado, outras mais lânguido, azul, cinza, verde. Dentro de um barco, cada homem é uma ilha.

Nasci numa rua do Chiado, entre o Bairro Alto e o Cais Sodré, numa manhã quente de Junho. A minha mãe disse que fui um parto fácil, rápido, parecia ter pressa da travessia da vida. Parido às onze da manhã, prefiro pensar que estava em fim de noite, em vez de início de dia. A visão do Tejo foi o primeiro postal para os meus olhos, lembre-me ou não deles. E voltei a sair rio abaixo noutra sexta solarenga, esta última, com desejo renovado de me testar oceano adentro.

«Existem três raças de homens», disse-me senhor Augusto, o contramestre. «Os vivos, os mortos e os marinheiros.» Caramba. Por estes dias sou a soma das três espécies.

11.4.07

Tão bom ter telemóvel outra vez

Duas mensagens de Cuba, uma de Angola, um telefonema de Marrocos e outro do Vietname. Viva a globalização!

2.4.07

Hit the road, Jack

Começam os preparativos de viagem. Páscoa na serra da Arada, na semana seguinte embarco para atravessar meio Atlântico, planos com a família Bastos para férias em Odessa e Tiblissi [foram os locais mais weird de que nos conseguimos lembrar]. O arranha-céus é capaz de andar mais calmo, nos próximos dias. Eu, pelo contrário, muito mais agitado. O que é bom.

Quando era miudo e a perspectiva de sair de casa se começava a desenhar, o entusiasmo não me deixava muitas vezes pegar no sono. Para os primeiros acampamentos de Verão fazia a mochila com uma semana de antecedência e depois ficava a olhá-la durante sete-dias-sete, ampliando o factor ansiedade. Hoje, pelo contrário, faço mochila ou mala com meia hora de antecedência e já tenho todos os pormenores encadeados no cérebro. O estojo de higiene primeiro, T-shirts, boxers e meias depois, dois ou três pares de calças, umas camisolas quentes e um impermeável. Ready to go.

A partir dos 17 comecei a ir todos os Verões para França, viver numa comunidade isolada onde se encontrava gente de todo o mundo. Partia normalmente na primeira semana de Agosto, voltava na última e ainda ia a Barcelona ou a Amsterdão antes de voltar para casa. Financiava tudo com dinheiro ganho em Julho, trabalhava na loja do meu pai a acartar máquinas de lavar roupa para quartos pisos sem elevador e pagava assim o bilhete de autocarro. Não era só o bilhete de autocarro: o que eu estava na verdade a pagar era a sensação de partida.

Os anos e o trabalho trouxeram-me muitos quilómetros percorridos. Embarques em aeroportos, portos, carros alugados, estações de comboio. Mas nestes dias que antecedem a viagem tudo permanece na mesma. Borboletas no estômago, um tremelicar agradável, sorrisos para distribuir ao mundo. Costumo dizer que Lisboa é o melhor sítio do mundo para se voltar a casa depois de uma viagem. Sinto isso, tanto quanto me farto da cidade branca se permaneço nela demasiado tempo. Está na hora de ter saudades.

30.3.07

Kapa

A K galeria, do colectivo kameraphoto [que reúne os melhores fotógrafos da tugolândia] cumpriu ontem dois anos de vida e inaugurou uma exposição muito doida. Penduradas pelas paredes da galeria estão várias folhas A4, onde estão escritas as descrições das fotos correspondentes. Quem quiser arranca uma página, paga dez euros e troca a folha por um envelope do mesmo tamanho, onde está a fotografia correspondente à descrição. Quando mil palavras valem uma imagem.

Comprei duas. «Uma janela com frases escritas. Um vulto ao fundo, enquadrado pela urbanidade de Berlim. Mais um reflexo de árvore na vitrina» e «Teclado de computador com teclas POWER, SLEEP e WAKE de cor branca. Restantes teclas de cor amarelada. Superfície de fórmica imitação de madeira. Chave de porta com etiqueta de plástico com inscrição da palavra CRIME.» Saiu-me um Jordi Burch e um António Júlio Duarte, respectivamente. Mas não, não foi mera casualidade.

Os Ks estavam lá quase todos: a Sandra Rocha e o Guillaume Pazat vieram de propósito de Madrid, trouxeram o Fil, uma catrefada de espanhóis e a noite tornou-se uma festa. Hoje doi-me a cabeça. Mas tenho duas belas fotos aqui ao lado.

29.3.07

Mário, o marionetista

Bruxa presa por fios tem duplo feitiço. Palhaço pobre é riqueza de espírito. Aladino pendurado não é génio de lâmpada, é magia de cordel. E polícia atado é como todos os outros, facilmente manipulado.

São as marionetas que Mário, o marionetista, traz de tempos a tempos para o Bairro Alto, «custam cinco euros mas para ti faço a quatro» e para ti é toda a gente, porque toda a gente sente o fascínio de coordenar os movimentos às figuras espadaúdas, esticadas verticalmente. As marionetas de Mário são tão magras quanto ele e todas sorriem. Não há dias tristes para fantoche de madeira.

Mário vive aqui há 35 anos, mas nasceu em Angola, perto de um Huambo que se chamava Nova Lisboa. Tem carapinha grisalha, barba revolucionária branca no centro e preta nos limites. «Moldei o Mário Soares para o Contra-Informação», disse Mário, o marionetista. Talvez.

Por alturas do Natal a procura aumenta e costumo vê-lo em Novembro a percorrer o Bairro e perguntar aos frequentes: «Precisas de marionetas para o Natal? Quantas? Avisa agora que eu depois não tenho.» E ninguém avisa, mas ele fá-las à mesma e vende-as sempre, todas, nunca lhe sobra um pinóquio que sonha ser menino de verdade.

Bruxas, aladinos, palhaço pobre, polícia. A vida de Mário é mágica e as suas personagens são feitiços. Ontem, tenho a certeza, vendeu todos os seus sorrisos de madeira.

27.3.07

Janela com vista #04 - Hugo Duarte

Fala, Hugo. É desta forma singela e directa que os cariocas dizem Bom Dia. Eu continuo a preferir o instrumento de bocegar ar e simultaneamente dizer BOOOOM DIA, mas tambem nada se pode exigir de quem não toma pequeno almoço, mas sim café da manhã.

Gosto de Favela, lá tem picolé, lá tem baseado, lá tem moleque, lá tem sorriso, lá tem neguinha, lá tem medo, lá tem bicicreta, lá tem framenguista, lá tem gato-net, lá tem sacolé, lá tem invasão, lá tem camborão, lá tem lágrima, lá tem bandido, Não Gosto de Favela.

O virus da Dengue, que já foi estatico, comum, hemorragico, visceral, assumiu nova faceta surreal agora é virus da Dengue Poetica. Tem o ritual dum animal noctivago e morde preferencialmente pela madrugada quando os corpos fazem amor. E morrem...

O Romário (Baixinho) tem golos em falta, e espera por uma falta para lhe faltarem menos golos ou faltas. Faltam 2. Tem 998. No Domingo espero que marque um com a perna que partirá em dupla factura exposta e inibirá de jogar jamais.Ele tem uma filha com sindrome de Down....Irónico.

Na Lapa vendem-se beijos e roubam-se cervejas. Na Lapa roubam-se sorrisos e vendem-se bohemias. Na Lapa vendem-se gringos e roubam-se abraços. Na Lapa roubam-se sambas e vendem-se suores. Na Lapa, nos Arcos da Lapa....te dou uma lingua.

Paf, paf, paf faz a pistola. Trak, trak, trak faz a metralhadora. Pum faz a Granada. O Rio como cidade-maravilha têm tudo o que podem fantasiar/imaginar/idolatrar mas existe um ligeiro mas.....Mas,Mas,Mas faz a pistola. Mas,Mas,Mas faz a metralhadora. Mas faz a Granada.

Crystal, Bohemia, Antartica, Itaipava, Cintra, Bavaria, Kaiser, Petra, Nova Schin, Belco, Lokal, Cerpa, Skol, Lecker, Brahma e Primus expresso em modelos Pilsen, Malzbier, Beats, Bock, Gold, Light, Extra, Chopp, Lemon, Premium, Kolsch,...e quanto não vale uma Mini Sagres????

O Sol por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem é inferno. A praia por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem é cegueira. A noite por aqui aparece todos os dias, não tem inverno, não tem verão, as vezes tem samba.

Minha filha nasceu há dois meses, e elas já são três. Primeiro a pequena, com bigode à Manuel, feia, e imensamente fragil. A Segunda com olhares ferozes e questionadores, perguntando porque e respondendo onde. Agora a Terceira que sorri sem dentes, vomita gracejos, já diz Benfica e é Linda!!!!!!!!!!!





[O Hugo tornou-se carioca, mergulhou no Rio de Janeiro por amor e em Ipanema por filiação. Conheci-o quando ainda era um homem da Covilhã, depois veio para Lisboa e agora vive no Brasil, com a mulher e a filha, bebé de meses. Jantares em casa dele, o quintal da Copa que instalou na Penha de França, algumas imperiais, horas de conversa - eis os registos da memória transatlântica. Saudades avivadas por este texto. Brilhante, meu irmão.]

26.3.07

O dezassete

Nos dias em que há ameaça de chuva sobre a capital mais solarenga da Europa [ou simplesmente nos dias em que estou tão cansado que não me apetece cumprir a pé os 1,8 quilómetros que separam a minha casa da redacção] apanho o autocarro na esquina da América com a Guilhermina Suggia. Evito o 727 para a Picheleira, não me parece um destino digno. O 49 dá uma volta tremenda, demora mais tempo do que qualquer caminhada. Na verdade, só me resta uma opção viável: o dezassete, que desce metade da avenida do Brasil relativamente vazio, vira para a Rio de Janeiro e apanha quatro ou cinco velhotas de chapéu coquete sobre os cabelos arranjados [normalmente pode-se encontrar residualmente estas personagens cinco metros atrás da paragem do autocarro, dispostas pela esplanada da pastelaria Biarritz a beber chá a meio da tarde em bandos de duas ou três velhotas], passa pelo estádio primeiro de Maio, onde entram sempre alguns estudantes das escolas das redondezas [cadernos gastos no final do segundo período, cada vez menos mochilas, canetas no bolso de trás], vira depois para a América, apanha-me a mim e a duas mulheres a dias, uma com alcofa na mão, outra com sacos de plástico, sobe ao Areeiro pela Gago Coutinho, desce a Almirante Reis à cunha com empregados de bancos ou das seguradoras que fecham por volta das três tarde, e detém-se finalmente na Praça do Chile, virado para a Morais Soares, rua multicultural e cosmopolita, com lojas a preços de revenda e clientela das classes operárias.

O motorista do dezassete não era hoje o do costume. Este tinha quinas na mão, que não significam nenhum espírito patriota relevante, apenas o facto de ter estado preso. Quando entrei, ele conversava animadamente com o revisor: «Só espero que tenham percebido a mensagem», comentou o revisor. «As pessoas estão fartas», respondeu o condutor e eu sem perceber o tónico da conversa.

Afastei-me por instantes, não havia lugares livres no autocarro e eu fiquei em frente a duas senhoras que seguramente haviam entrado na paragem frente ao Biarritz, ainda que uma delas não usasse chapéu, antes um alfinete de peito em forma de borboleta presa sobre o lado direito do casaco. «É um escândalo», dizia uma. «Um escândalo», confirmava a outra enquanto procurava na mala de pano um pacote de lenços de papel, tirava um e se assoava sem fazer qualquer barulho. Atrás de mim, duas adolescentes comparavam toques de telemóvel, riam-se muito indiferentes à polémica. Voltei a encaminhar-me para a parte dianteira do dezassete, onde motorista e revisor prosseguiam o tónico animado: «Perdeu-se o respeito e os políticos são uns corruptos. Precisávamos de voltar ao antigamente.» E foi então que percebi tudo. Os telespectadores da RTP escolheram ontem António de Oliveira Salazar como o maior português de sempre e o dezassete seguia em alvoroço pela bizarria do facto.

É lamentável, muito triste mesmo, que um grupo de votantes escolha um pequeno ditador, tacanho e provinciano, como modelo a seguir. Mas é um sério aviso à navegação - as pessoas estão fartas da crise, dos políticos corruptos, das medidas de cosmética, dos salários baixos, deste projecto de Portugal falido. O escândalo não é a conversa do dezassete, nem a escolha de salazar como o maior português. O escândalo é a política de educação deste país.