25.5.09

Pensamento do dia

A quantidade de trabalho que uma pessoa tem de deixar pronta antes de se ausentar por umas semanas equivale seguramente à quantidade de trabalho que uma pessoa faria se não se ausentasse.

21.5.09

Porque sim



Saudades do Verão. Hoje só oiço isto e o Viva la Vida, dos Coldplay.

18.5.09

Feira do livro

Na sala da minha avó havia quatro quadros de queimadas, um em cada parede. Céu de fogo, até podia ser pôr do sol em África, mas não, era incêndio na jamba. Quatro quadros que, para a minha avó, eram tesouro. Foi o tio Vítor, filho dela, que os trouxe de Angola.

O tio Vítor voltou de Angola com quatro quadros, uma mão à frente, outra atrás. Mas voltou mudado, transdiferente. Vinha mais sorrisos e descontracção, apesar das cuspidelas de retornado que lhe iam atirando.

Casou com a tia Teresa, que nasceu no mato e criou um leopardo quando era minina. E os dois abriram uma discoteca de música africana na margem Sul, primeiro em Sesimbra, agora na Quinta do Conde. Nunca deixaram Angola, porque foi lá que se enfelicizaram. Nos seventies de Luanda, já havia coca-cola e bôites, saía-se à noite, as mulheres fumavam dançavam e usavam mini-saia. Para o tio Vítor, para a tia Teresa, para milhares de outros, aqueles foram os melhores anos.

Um país em guerra, um país em festa. É disso que fala o livro de Ana Sofia Fonseca: Angola, Terra Prometida. Ela, que não nasceu em África, não viveu em África e foi pela primeira vez a Angola para registar as histórias deste livro, não pode ser acusada de parcialidade. Nem de pré-conceitos. Fez um livro sobre os melhores anos desta gente toda. E pronto.

Há histórias de cinema e bailarico, amores e corridas de carros, das sanzalas, das fazendas, da vida que os portugueses deixaram para trás. Do paradoxo de céu iluminado por obuzes e, ao mesmo tempo, por fogo de artifício. Uma crónica dos costumes, magistralmente bem escrita, e que estava por escrever. Podem acusar-me a mim de parcialidade, por ser amigo da autora. Mas leiam lá o livro e depois a gente fala...

27.4.09

Freedom 35+


Impressões do 35º aniversário do 25 de Abril:
. A Paulinha a passar de carro pelo Largo de Camões e a gritar «Viva o Salgueiro Maia!»
. A estranha mood do Tokyo na noite de 24 para 25. O som evoluía do Love Will Tear Us Apart, dos Joy Division, para o Somos Livres [Uma gaivota voava voava, remember?], da Ermelinda Duarte. De arrepiar.
. Quase ninguém sabe a letra completa do Sémen, dos Xutos, que não sendo um hino do 25 de Abril, é sem dúvida uma música de ruptura, um sinal da pequena revolução sexual que em processo em Portugal no ano em que a canção foi escrita [1981].
. No desfile da avenida da Liberdade, os cravos eram vendidos a um euro. Não pelas floristas que se tornaram personagens de Abril, antes pelos Quéfrô paquistaneses [que, graças à abordagem recente, se deviam passar a chamar Quétudo].
. As vendas do Bord'Água atingiram o seu máximo histórico em Lisboa este sábado, nas laterais da avenida da Liberdade.
. A Jaquina, que foi a minha mulher a dias durante anos e que eu não via há muito tempo, desfilou no cortejo de Sintra a exigir a construção de um novo hospital. Dá-lhe Jaca.
. As miúdas mais giras que vão comemorar o 25 de Abril concentram-se normalmente na Praça da Alegria ou no Largo dos Restauradores.
. As vendas de cerveja superaram largamente as vendas de ginjinha na Rua das Portas de Santo Antão.

14.4.09

E, num instante, o mundo mudou (2)

Acordar. Ir buscar um copo de leite à cozinha. Acender um cigarro. Reparar que em cima da mesa da sala ficaram perdidos dois ganchos e um elástico para o cabelo. Pensar fazer um telefonema. Desistir da ideia. Apagar o cigarro. Espreguiçar-me. Começar outro dia.

7.4.09

E, num instante, o mundo mudou (1)

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31.3.09

It's a kind of magic



A realidade supera de longe a ficção. Senão vejam: o meu bom amigo Jordi é fotógrafo e passou vários meses no Brasil a fazer um trabalho sobre mulheres que amam de mais. Encontrou um grupo de interajuda para estas mulheres, que ficaram em cacos, inaptas para o quotidiano, depois das relações que tinham terem terminado. O meu bom amigo Jordi publicou um livro, com textos da jornalista brasileira Marília Gabriela, e fez duas exposições em galerias reputadas de São Paulo. E, há cerca de um mês, o meu bom amigo Jordi voltou a Portugal.

Convidaram-no a expor o trabalho em Lisboa, numa galeria simpática da rua dos Navegantes chamada P4. E o meu bom amigo Jordi convidou-me para escrever o texto da exposição lisboeta. Na boa, não tem problema. Gravou um CD com as imagens e eu fiquei de escrever a coisa. Mas, como estava cheio de trabalho, fui adiando a escrita do texto. Entretanto, eu e o meu bom amigo Jordi fomos para Trás os Montes fazer uma reportagem. É bestial uma pessoa poder trabalhar com os amigos.
No Nordeste, com o prazo para entrega do texto a esgotar-se rapidamente, o meu bom amigo Jordi pediu-me para escrevê-lo ali mesmo. Eu não tinha levado o meu portátil, ele tinha o dele mas não tinha Word. Então, ele passou as imagens da exposição num slide-show em que as imagens mudavam a cada onze segundos. Eu agarrei no meu Moleskine e fui tirando notas. Quando chegasse a Lisboa haveria de as trabalhar e passar a computador, para finalmente enviá-las à galeria.

Guardei as notas no bolso de trás das calças e não voltei a pegar nelas. No último dia, algumas horas depois da hora estipulada como limite para o envio do texto, cliquei no send. Mandei isto:
Amor Cachorro
No dia em que desapareceste eu não conseguia dizer. Tu é que sabias quem eu era. Mergulhei fundo. Fiz-me transparente, transpareci-me. Tu tinhas dito para sempre. Quanto? Morrer, quase. Nem conseguir tirar os olhos do salto da agulha. Cachorro. Deixaste-me encruzilhada, sem direcção. Farejei-me ao espelho, era baço. Reflexo opaco, estou mesmo? Ah, chorei de mais. Foi. E aí eu virei fera. Quis holofote, embriagar-me na luz. Foco na cara, palco no corpo, eu ia ser monarca outra vez. Agora eu vou sair do poço, vou conquistar a noite. Ouviste bem? Vou vingar-me. Ouviste? Fala comigo.

Não pensei mais no assunto e fui à inauguração da exposição do meu bom amigo Jordi. O meu bom amigo Jordi não estava, tinha ido para Angola fotografar. Vi as fotos na parede e gostei muito da disposição. Depois encontrei o dono da galeria, disse-lhe que tinha sido eu a escrever o texto e ele confidenciou-me que ainda não estava exposto porque eu tinha entregue tudo atrasado e a coisa ainda não estava emoldurada. Na boa, não tem problema. Mas porque é que não enviaste antes, perguntou ele. Contei-lhe a saga do computador em Trás os Montes, disse-lhe das notas que tirei e reparei que ainda as tinha no bolso. «Olha, estão aqui, estás a ver?»

E então o tipo passou-se. «Isso é o original, é valiosíssimo. Queres vender-me isso por cinco euros?» Ri-me, disse que lhe oferecia as notas. Mas ele insistiu que não, aquilo era o original e merecia ser pago, nem que fosse por cinco euros. Acedi e vendi-lhe as notas por cinco euros. Agora, na galeria P4, estão expostas as fotografias do meu bom amigo Jordi, o texto que eu enviei com atraso e as notas que eu tirei. Fantástico. Podem confirmar aqui.

25.3.09

O herói do 17

Ai, ai, ai. Eu de manhã não tenho paciência, pelo menos tenho pouca. A Célia, o Gouvas, a Rache, o Guido ou o Dave sabem isso há quase 20 anos. Os meus amigos mais antigos chamavam-me A Besta da alvorada. Só à tarde eu voltava a ser o Riki. Quando acampávamos e algum deles me acordava antes de uma hora que me parecia minimamente razoável, não era pouco frequente eu atirar-lhes um grunhido ou uma bota. Há vinte, há quinze, há dez anos, era A Besta das manhãs. Agora, definitivamente, sou um herói.
Nove da manhã e o despertador retine furiosamente na minha cabeça. Tento fazer uns abdominais para começar o dia - desisto aos 100. Levanto-me, faço a barba, preparo o pequeno almoço e tomo um duche rápido de água fria, porque o esquentador avariou. Esqueço-me de levar o iPod, pelo menos podia disfarçar com soul a alma cinzenta das dez e pouco. Decido-me pela preguiça, melhor apanhar o 17 em vez de ir a pé. Espero cinco minutos e entro no veículo amarelo. Não pago bilhete.
O autocarro está relativamente vazio. Nos lugares reservados às grávidas, idosos e deficientes segue um velhote africano, septuagenário pelo menos, de muletas. Ao lado, nos bancos individuais, duas senhoras coquettes de Alvalade. Atrás, um rapaz dos seus oito anos, pele negra, mochila às costas. E, nos bancos da esquerda, duas mulheres dos seus cinquenta e poucos, que falam alto de mais.
Uma tem óculos de fundo de garrafa, saia com pregas, tornozelos inchados. A outra tem o cabelo oxigenado, brincos à Lola, calças brancas muito justas que lhe caem mal nas ancas disformes. É essa que vai liderando o discurso. E fala assim: «Esta pretalhada e esta ciganada deviam ir prá terra deles. Não vê que eles são muito mais unidos do que os brancos, protegem-se uns aos outros. Eles organizam-nos para nos chatear, é o que é.»
O velho das muletas vira-se para trás com um olhar magoado. O miúdo negro encolhe-se no banco, cheio de vergonha. As senhoras coquettes não conseguem disfarçar o incómodo. Passa a primeira paragem e o discurso da loira oxigenada prossegue inalterado. «Porque os pretos são uma raça que não interessa a ninguém, mas olhe que os ciganos ainda são piores.» A voz é audível em todo o autocarro e ninguém tem oportunidade de não ouvir. Sinto o peito a tremer e, pouco antes da segunda paragem (eu saio à terceira), rebento:
- A senhora desculpe, mas podia falar um pouco mais baixo. Ou então calar-se de vez, é que a sua conversa está-me a incomodar e eu não tenho de a ouvir.
Ela fita-me e, a princípio, sente-se apanhada de surpresa. Mas depois levanta a sobrancelha, põe um ar de mulher das barracas e a mão na anca:
- Ai é? Doi-lhe os ouvidos, é? Doi-lhe os ouvidos?
- Não, não me doem os ouvidos minha senhora. Mas a senhora está a ter uma conversa racista e isso é um crime público. Sabe que eu posso chamar a polícia e a senhora ser detida pelo tipo de conversa que está a ter.
Ela olha para a amiga e grita com um ar trocista:
- Olha, olha, temos doutor! este deve ter a mania que é esperto. Ainda por cima com este ar de xunga. Mas quem é que ele pensa que é para me mandar calar?
Até à terceira paragem, a que eu saio, a mulher vai destilando veneno contra mim. Eu já não a oiço, mas fico contente pelo alvo da sua conversa pavorosa passar a ser eu e não as questões de raça.
Chega a paragem do Areeiro. Preparo-me para sair e o motorista chama-me e faz um sinal com o polegar levantado. O velhote das muletas sai antes de mim, quando passo por ele ele agarra-me o braço e diz: «Muito obrigado, senhor. Eu estava a sentir-me muito mal e o senhor parou com aquela conversa. Muito obrigado.» As velhotas coquettes, que também saíram no Areeiro, acercam-se e dão-me uma palmadinha nas costas: «O senhor esteve muito bem.» E eu acabei por ficar bem-disposto logo pela manhã. Já não sou uma besta, agora sou um herói.

19.3.09

Factos da vida

O número 69 da avenida dos Estados Unidos da América chama-se edifício Califórnia e, numa destas manhãs, estavam dois pombos à entrada do prédio a copular.

9.2.09

Crise de quê?



Em mandarim, a palavra crise é igual a oportunidade.

Dou por mim a pensar que esta crise pode muito bem ser a melhor coisa que já nos aconteceu. Este pode ser o tempo do mérito, finalmente.

Vamos aos factos: somos um povo tramado e queixamo-nos muito. Não conheço um português que não sinta que está subavaliado, mal pago, que ocupa um degrau abaixo da categoria onde devia estar. Muitos terão razão e por isso não se esforçam mais, não facilitam a vida a ninguém, encerram-se na sua amargura e ali permanecem. À espera do dia em que reparem neles e os salvem daquela injustiça.

É a senhora do café que não sabe sorrir, o funcionário do banco que faz questão de falar com autoridade, o professor que insiste em ser tratado com uma deferência tremenda. É o médico que trata mal o doente, a senhora da limpeza que limpa metade e esconde o outro meio debaixo do tapete, o administrador que se rodeia de amigos para nunca ser questionado. Somos nós todos, que contratamos ou tentamos ser contratados com um jeitinho, uma palavrinha, uma referência.

Como é que chegámos aqui? A cumprir serviços mínimos, não é preciso fazer mais se não me pagam para mais. E isso nem é o pior. O pior é pensarmos que a nossa vida está lixada, por isso o melhor é lixar a vida do outro, torcê-lo e rebaixá-lo, para fingir que ele está mais lixado do que nós. E se por acaso o tipo até está a subir na vida, então é lixá-lo pelas costas, porque «esse gajo tem a mania que é bom», «subiu na vida a reboque de alguém». De frente damos-lhe graxa, porque no fundo gostávamos de estar ali. Era ali que queríamos estar. Que, convencemo-nos, merecíamos estar.

E agora a crise lixa-nos mais, deita-nos abaixo, nem sequer as regalias que temos no degrau abaixo que sabemos que ocupamos está garantida. Suspiramos por mais e afinal é menos. Então pode ser que tenhamos de sorrir quando tiramos um café, que facilitemos a vida a quem precisa de uma informação, que ensinemos em vez de querer ser professores.

Intimamente percebemos que, se nos continuamos a lixar assim, então isto fica tudo lixado de vez e daqui ninguém se salva. Se calhar chegou mesmo a hora de trabalhar melhor, produzir mais, ter um melhor desempenho. Porque vem aí o desemprego, a precariedade, a crise.

Esta é, Portugal, a tua oportunidade. Agarra-a. Ou então afoga-te de vez.

7.1.09

Família Prudêncio e o Ano Novo

Éramos cinco pessoas num carro, mais dois gatos e um cão. Ala arriba até ao Douro Internacional, beber paisagem em tragos longos. E depois siga para Espanha, ver uma exposição [tão cultos] a Peñaranda de Bracamonte. Vimos a exposição vimos, encontrámo-nos com mais amigos e logo, logo curtir carrossel. Um bando de marmanjos a gritar à mais pequena curva teve um efeito secundário interessante. A partir deste momento, o carrossel não mais se esvaziou de gente.



E de seguida a família Prudêncio seguiu em excursão para Ciudad Rodrigo, muito por culpa do Rodri, que queria sentir-se em casa. Ainda procurámos uns carrinhos de choque ou umas danças de salão, mas ficámo-nos por um karaoke manhoso, com cinco músicas em inglês, nenhuma em português, demasiadas em castelhano [cantámos o Let it Be e o Asereje]. As raparigas que aparecem ao lado da Ana na imagem convidaram-me para ir ter com elas ao bar em frente, mas tive que recusar. Once a Prudêncio, always a Prudêncio.



E isto é entrar em 2009 em festa.

5.12.08

Little children



O Mike há-de ser do Benfica, se eu conseguir contornar a vontade muito forte dos meus irmãos e dos meus pais de que ele seja do Sporting. O Mike há-de curtir livros, porque eu hei-de oferecer-lhe uma data deles, e obviamente há-de saber brincar com as palavras, como o tio. O Mike, o meu sobrinho Mike, há-de partir os corações às filhas dos meus amigos, até porque o tio há-de apresentá-lo à sociedade como o sonho de qualquer mulher, de qualquer sogra, inclusivamente de qualquer sogro.

O Mike há-de ser escuteiro, há-de ir acampar para o mato, há-de conhecer a serra de Sintra tão bem como o pai e o tio. Há-de ser essas coisas todas e fazer essas coisas todas. Mas, por enquanto, o Mike ainda nem completou dois meses. E eu ainda não o consigo influenciar.

O que é que se dá a um recém-nascido pelo Natal?

19.11.08

António Henriques (1982-2008)

Tó,

Viveste uma vida cheia. Sempre foste apaixonado pela vida e pelas pessoas que te rodeavam. Eras grande, sincero, puro, afável. Fazias toda a gente rir quando te escangalhavas a rir. Sabias dar vida aos outros, puto.

Se há coisa de que podes estar certo é que te manterás vivo nas gargalhadas dos jantares de Natal, nos encontros dos renegades, nas muitas memórias de quem te conhece desde os dez anos.

Fica bem aí onde estás, meu irmão. E um dia haveremos todos de nos encontrar para dar aquele abraço.

Estamos juntos. Estaremos sempre.

1.10.08

Não me pagam para isso

O Frutalmeidas, na Avenida de Roma, tem provavelmente os melhores pastéis de massa tenra do mundo. Não é que eu seja grande apreciador de pastéis de massa tenra, mas eles lembram-me as tardes de Inverno em que ficava sentado na mesa de azulejos da cozinha a fazer os trabalhos de casa com a Jaquina nas minhas costas, a estender massa no balcão de mármore. Era ritual da chegada do frio, fazer croquetes, rissóis e pastéis de massa tenra. A Jaca, muitas vezes com a ajuda da minha avó, produzia centenas de salgadinhos, estendiam-nas numas caixas grandes de plástico, separadas em camadas por folhas de papel de alumínio, e congelavam-nos para todo o ano. Estou certo que a Jaquina, que agora está velhinha e reformada, não produz os pastéis de massa de tenra do Frutalmeidas, mas, que raios, sabem exactamente ao mesmo.

Ao sábado de manhã [pronto, às três da tarde], vou invariavelmente beber um sumo de maçã natural e comer dois pastéis ao Frutalmeidas. O problema é o atendimento. Digo boa tarde e o empregado não responde. Abana a cabeça para perguntar o que quero e traz o pedido largando-o apressadamente em cima da mesa. Pago, não diz uma palavra, nem sequer um obrigado. E dou por mim a pensar que, se a Jaquina estivesse ali, veria o facto como uma afronta.

Chateia-me o mau atendimento em Portugal porque é um país de turismo. Percebo que as pessoas estejam cansadas de apertar o cinto, da crise, de ganhar mal, mas ninguém tem de levar com a má onda dos outros quando está a adquirir um bem ou serviço. É uma questão de profissionalismo.

Atitudes que me transcedem:

1. Peço uma italiana ao balcão, trazem-me uma bica cheia e eu protesto. Muitas vezes perguntam se têm mesmo de tirar outra, se não quero beber assim.

2. Peço uma coca-cola com gelo e respondem-me que a cola está fresca. Eu insisto que quero num copo cheio de gelo e trazem-me duas pedras.

3. Peço um café e um copo de água e dizem-me para me servir eu próprio do copo de água. Convenhamos que um jarro cheio há sabe-se lá quanto tempo e uma série de copos dispostos em fila não são propriamente higiénicos. E é aquela onda do «a mim ninguém me paga para servir copos de água.»

Há uns dias, estava no Crew Hassan a jantar com uns amigos, mas cheguei tarde e eles já estavam a meio da refeição. Pedi o meu prato, paguei e sentei-me com eles. Não havia rigorosamente mais ninguém no Crew Hassan. Passado um bocado, uma rapariga saiu da cozinha, passou o balcão e veio à mesa dizer-me: «O seu prato está pronto, não fazemos serviço de mesa.» Ela veio à mesa e não foi capaz de trazer o prato, mesmo com a sala vazia, porque simplesmente «não era função» dela. Impressionante.

Voltando aos pastéis de massa tenra, a Jaquina também não tinha obrigação de fazer salgados. Empregada doméstica, era essa a sua função. Mas ela era muito mais do que isso. Tinha brio e interesse, preocupava-se de facto com as coisas. E conseguiu fazer aquilo que temos dificuldade de fazer em Portugal: marcar realmente a diferença.

19.8.08

Roadtrip to paradise


Férias. Praia. Fora. Bora.
Desaguámos em Cadaqués, que é basicamente isto: encostas escarpadas de xisto, praias límpidas de corais e peixes coloridos, sol e um vento que vem dos Pirinéus chamado la tranmontana que, dizem os nativos, é capaz de deixar um homem louco.
Encontrámos o fotógrafo do Dalí, um Club Med que vai ser mandado abaixo para proteger o património natutral do Parc Nacional de Cap de Creus, acampámos e palmilhámos estrada. Era o que se queria. Roadtrip. Siga! E isto foram as férias da trupe.

3.7.08

Geração higiénica

Os sixties foram os anos rebeldes, os seventies assistiram ao nascimento do punk e do new age, os eighties foram os anos das lantejoulas e do porreirismo [com o pessoal a afundar-se em heroína, a sida a aparecer, as regras do jogo a mudar] e os nineties não tiveram ícone maior do que o álbum Nevermind, dos Nirvana. Em tradução literal, «não quero saber» ou, perdoem o meu francês, «estou-me a cagar». Foi a atitude que marcou a última década do século XX.

A mudança de século e de milénio inverteu tudo. O terrorismo pôs a malta a pensar, logo no início desta década. É difícil perceber uma geração quando ela marca o presenta, mas agora que passaram oito anos e meio, já se adivinha como vão ser recordados os anos 2000.

Higiénicos.

Esta geração não bebe nem fuma, pratica desporto em ginásios, faz reciclagem, é adepta do vegetarianismo, veste-se bem, bronzeia todo o corpo, toma suplementos vitamínicos mas abdica dos esteróides, rapa os pêlos do peito, come saladas e peixe grelhado, prefere cola zero ou cola light à cuba libre, faz yoga e tai-chi, deita-se cedo e acorda cedo, escolhe drogas sintéticas, cortadas com lixívia e desinfectantes. É a geração que viu nascer a ASAE e alei do tabaco, por exemplo. Provas mais que provadas de que valor maior dos nossos tempos é a higiene, a salubridade. Todos temos de estar incrivelmente em forma, absolutamente saudáveis, preferencialmente puros.

Nada de mal até aqui. Foi preciso passar uma borracha pela segunda metade do século XX, anos duros onde tudo se experimentou, onde tudo foi uma possibilidade, e começar de novo. Começar bem, limpinho, clean. Mas depois vieram os exageros.

Na Holanda, foi aprovada uma lei que impede o consumo de tabaco em todos os locais públicos, incluíndo os coffeeshops. Podem ler a notícia aqui: http://www.usatoday.com/news/world/2008-06-26-amsterdam-tobacco_N.htm

Os frequentadores destes espaços poderão fumar ganzas à vontade dentro dos estabelecimentos, mas apenas se estas não contiveram tabaco. Os cigarros também estão proibídos, só charros puros, de haxixe ou erva.

Eis a onda higiénica levada ao extremo. Ridículo, não é?

6.6.08

Eu não queria, mas vou


Não tenho bilhete para nenhum concerto e no entanto assisto a todos. Da janela do meu arranha-céus na América, a vista para o Parque da Bela Vista é directa. A audição também e por isso oiço os concertos todos, os comentários dos artistas para o público, o fogo de artifício e a p$#@& da tenda electrónica. Deixem-me dormir, caraças.
No dia em que começaram os concertos tinha um simpático papel da organização do festival a pedir desculpas antecipadas pelo incómodo que o Rock In Rio Lisboa pudesse causar e a apelar ao famoso sentido de hospitalidade do povo português. Graxa pura [que em linguagem pós-moderna se chama Relações Públicas].
Eu nem sou pessoa de me deitar cedo. Não é isso. Mas gosto de ir para casa escrever em paz, ler em paz, jantar ou cear em paz. Não dá. É impossível. As janelas tremem com o ruído, os decibéis atingem níveis de poluição sonora ilegais numa área urbana, mas tudo é permitido em nome da excepção Rock In Rio. Se eu quiser dar uma festa em casa, algo me diz que o limite das autoridade será muito menos flexível.
Ontem cheguei a casa às duas da manhã e alguém tinha pendurado cartazes a apelar à realização de um abaixo-assinado entre moradores. A ideia era Rock In Rio SIM, Tenda Electrónica NÃO. Menos de uma hora depois, esses cartazes tinham sido arrancados, o que me faz suspeitar que há uma máfia activa em pleno Parque da Bela Vista.
Eu adoro música. Eu adoro festa. Mas odeio ter de me divertir à força.

15.5.08

Ring the bells

SMS recebido às duas da manhã de uma sexta à noite, de um número que não conhecia:

«Olá, estás acordado?»

SMS de resposta:

«Claro. Alive and kicking pelo sítio do costume. E tu?»

Telefonema recebido dois minutos depois do mesmo número que não conhecia. Voz feminina:

«Então, há muito tempo que não falamos... que saudades. Olha, estou cá em baixo no Lounge, e isto está em grande festa. Anda cá ter.»

A minha resposta, a tentar encontrar balizas:

«Estás com quem?»

Redondo fracasso:

«Com ninguém que conheças.»

Volto à carga, sem compromissos:

«Bem, isto cá por cima também está muito fixe. Já vejo se aí vou ter ou não, mas estou aqui com a minha trupe e tu estás aí com a tua. Já falamos.»

Três da manhã. Novo sms:

«Então, anda lá.»

Três e meia da manhã. Faço um telefonema:

«Então, como é que isso está aí em baixo?»

«Está animado. Anda cá beber um copo comigo.»

«Bem, a verdade é que não tenho o teu número e pela tua voz pareces-me a Susana. Confirmas?»

«Estás a brincar comigo?»

«Não estou não, desculpa lá a jaguncice. Pareces-me mesmo a Susana.»

«Mas eu sou a Mami.»

«Ah, Mami... pois, que cena. Desculpa lá. Há quanto tempo... Estás bem?»

3.4.08

Bens perecíveis



Toca o telefone. Era noite, fez-se Dia.
«Olá, estás sentado?»
«Nop, estou na rua.»
«Senta-te.»
Sentei.
«Tenho um frigorífico para ti», disse ela.
Levantei.
E comecei as celebrações ali mesmo.

Nos últimos dois anos, vivi sem frigorífico. Habituei-me a ir ao supermercado se queria alimentos frescos, tornei-me rei dos enlatados, comprava leite em pacotes pequenos, de criança, zero vírgula dois litros de mimosa e nem mais uma gota. Fiambre nem pensar, queijo só se for da vaca sorridente, soja em vez de carne picada, vinho tinto no lugar das jolas. Dois anos assim, sem sopa.
Não é que me custasse particularmente viver sem frigorífico. O ser humano tem uma adpatabilidade extraordinária. Toda a gente sabe que não há frigoríficos em África, que no lote de bens essenciais - realmente essenciais - um frigorífico não tem categoria. Mas este domingo, a meio da tarde, eu fui buscar o tal bem dispensável. Weeeeeeeeeeeeeeeeeeee.

A Dia a conduzir com o João ao lado, eu e o Jordi na parte de trás da carrinha. Solavancos, solavancos, subir ao quarto andar de mãos nos bolsos e descê-lo de frigorífico nas mãos. Entretanto, a salvadora da refrigeração oferece-me um pano de loiça com um galo de Barcelos. Coloco-o na cabeça. Xutos. Ela vai registando o momento para a posteridade. Reina festa. A-LE-GRIA!!!



Ainda antes de chegarmos a América, de eu e o Jordi pormos o frigorífico no elevador para subir ao décimo piso - onde viverá feliz para sempre - paramos no Pingo Doce. É a festa do alimento perecível. Compro alface, carne para congelar, queijo e fiambre, iogurtes, sacos para fazer gelo, garrafas de vinho branco, cerveja, leite, manteiga, mostarda Dijon, sopas da Knorr [não em pó, mas líquida, daquelas pré-cozinhadas]. Deixo-me nitidamente levar pelo momento e gasto uns valentes €61,16 em coisas que se podem estragar, mas depois a Dia chama-me à atenção que o número é uma capicua e isso só pode ser um óptimo presságio. Seja.




Quando finalmente retorno a casa, decido baptizar o frigorífico de Fred, a Dia e o João trazem-me os sacos de compras e fumamos todos um cigarro [ok, não era exactamente um cigarro] para comemorar o momento. Limpo o Fred, ligo-o à ficha e rio de felicidade.

Agora, tudo é possível.

E ainda por cima está a chegar o Verão.