31.3.09

It's a kind of magic



A realidade supera de longe a ficção. Senão vejam: o meu bom amigo Jordi é fotógrafo e passou vários meses no Brasil a fazer um trabalho sobre mulheres que amam de mais. Encontrou um grupo de interajuda para estas mulheres, que ficaram em cacos, inaptas para o quotidiano, depois das relações que tinham terem terminado. O meu bom amigo Jordi publicou um livro, com textos da jornalista brasileira Marília Gabriela, e fez duas exposições em galerias reputadas de São Paulo. E, há cerca de um mês, o meu bom amigo Jordi voltou a Portugal.

Convidaram-no a expor o trabalho em Lisboa, numa galeria simpática da rua dos Navegantes chamada P4. E o meu bom amigo Jordi convidou-me para escrever o texto da exposição lisboeta. Na boa, não tem problema. Gravou um CD com as imagens e eu fiquei de escrever a coisa. Mas, como estava cheio de trabalho, fui adiando a escrita do texto. Entretanto, eu e o meu bom amigo Jordi fomos para Trás os Montes fazer uma reportagem. É bestial uma pessoa poder trabalhar com os amigos.
No Nordeste, com o prazo para entrega do texto a esgotar-se rapidamente, o meu bom amigo Jordi pediu-me para escrevê-lo ali mesmo. Eu não tinha levado o meu portátil, ele tinha o dele mas não tinha Word. Então, ele passou as imagens da exposição num slide-show em que as imagens mudavam a cada onze segundos. Eu agarrei no meu Moleskine e fui tirando notas. Quando chegasse a Lisboa haveria de as trabalhar e passar a computador, para finalmente enviá-las à galeria.

Guardei as notas no bolso de trás das calças e não voltei a pegar nelas. No último dia, algumas horas depois da hora estipulada como limite para o envio do texto, cliquei no send. Mandei isto:
Amor Cachorro
No dia em que desapareceste eu não conseguia dizer. Tu é que sabias quem eu era. Mergulhei fundo. Fiz-me transparente, transpareci-me. Tu tinhas dito para sempre. Quanto? Morrer, quase. Nem conseguir tirar os olhos do salto da agulha. Cachorro. Deixaste-me encruzilhada, sem direcção. Farejei-me ao espelho, era baço. Reflexo opaco, estou mesmo? Ah, chorei de mais. Foi. E aí eu virei fera. Quis holofote, embriagar-me na luz. Foco na cara, palco no corpo, eu ia ser monarca outra vez. Agora eu vou sair do poço, vou conquistar a noite. Ouviste bem? Vou vingar-me. Ouviste? Fala comigo.

Não pensei mais no assunto e fui à inauguração da exposição do meu bom amigo Jordi. O meu bom amigo Jordi não estava, tinha ido para Angola fotografar. Vi as fotos na parede e gostei muito da disposição. Depois encontrei o dono da galeria, disse-lhe que tinha sido eu a escrever o texto e ele confidenciou-me que ainda não estava exposto porque eu tinha entregue tudo atrasado e a coisa ainda não estava emoldurada. Na boa, não tem problema. Mas porque é que não enviaste antes, perguntou ele. Contei-lhe a saga do computador em Trás os Montes, disse-lhe das notas que tirei e reparei que ainda as tinha no bolso. «Olha, estão aqui, estás a ver?»

E então o tipo passou-se. «Isso é o original, é valiosíssimo. Queres vender-me isso por cinco euros?» Ri-me, disse que lhe oferecia as notas. Mas ele insistiu que não, aquilo era o original e merecia ser pago, nem que fosse por cinco euros. Acedi e vendi-lhe as notas por cinco euros. Agora, na galeria P4, estão expostas as fotografias do meu bom amigo Jordi, o texto que eu enviei com atraso e as notas que eu tirei. Fantástico. Podem confirmar aqui.

25.3.09

O herói do 17

Ai, ai, ai. Eu de manhã não tenho paciência, pelo menos tenho pouca. A Célia, o Gouvas, a Rache, o Guido ou o Dave sabem isso há quase 20 anos. Os meus amigos mais antigos chamavam-me A Besta da alvorada. Só à tarde eu voltava a ser o Riki. Quando acampávamos e algum deles me acordava antes de uma hora que me parecia minimamente razoável, não era pouco frequente eu atirar-lhes um grunhido ou uma bota. Há vinte, há quinze, há dez anos, era A Besta das manhãs. Agora, definitivamente, sou um herói.
Nove da manhã e o despertador retine furiosamente na minha cabeça. Tento fazer uns abdominais para começar o dia - desisto aos 100. Levanto-me, faço a barba, preparo o pequeno almoço e tomo um duche rápido de água fria, porque o esquentador avariou. Esqueço-me de levar o iPod, pelo menos podia disfarçar com soul a alma cinzenta das dez e pouco. Decido-me pela preguiça, melhor apanhar o 17 em vez de ir a pé. Espero cinco minutos e entro no veículo amarelo. Não pago bilhete.
O autocarro está relativamente vazio. Nos lugares reservados às grávidas, idosos e deficientes segue um velhote africano, septuagenário pelo menos, de muletas. Ao lado, nos bancos individuais, duas senhoras coquettes de Alvalade. Atrás, um rapaz dos seus oito anos, pele negra, mochila às costas. E, nos bancos da esquerda, duas mulheres dos seus cinquenta e poucos, que falam alto de mais.
Uma tem óculos de fundo de garrafa, saia com pregas, tornozelos inchados. A outra tem o cabelo oxigenado, brincos à Lola, calças brancas muito justas que lhe caem mal nas ancas disformes. É essa que vai liderando o discurso. E fala assim: «Esta pretalhada e esta ciganada deviam ir prá terra deles. Não vê que eles são muito mais unidos do que os brancos, protegem-se uns aos outros. Eles organizam-nos para nos chatear, é o que é.»
O velho das muletas vira-se para trás com um olhar magoado. O miúdo negro encolhe-se no banco, cheio de vergonha. As senhoras coquettes não conseguem disfarçar o incómodo. Passa a primeira paragem e o discurso da loira oxigenada prossegue inalterado. «Porque os pretos são uma raça que não interessa a ninguém, mas olhe que os ciganos ainda são piores.» A voz é audível em todo o autocarro e ninguém tem oportunidade de não ouvir. Sinto o peito a tremer e, pouco antes da segunda paragem (eu saio à terceira), rebento:
- A senhora desculpe, mas podia falar um pouco mais baixo. Ou então calar-se de vez, é que a sua conversa está-me a incomodar e eu não tenho de a ouvir.
Ela fita-me e, a princípio, sente-se apanhada de surpresa. Mas depois levanta a sobrancelha, põe um ar de mulher das barracas e a mão na anca:
- Ai é? Doi-lhe os ouvidos, é? Doi-lhe os ouvidos?
- Não, não me doem os ouvidos minha senhora. Mas a senhora está a ter uma conversa racista e isso é um crime público. Sabe que eu posso chamar a polícia e a senhora ser detida pelo tipo de conversa que está a ter.
Ela olha para a amiga e grita com um ar trocista:
- Olha, olha, temos doutor! este deve ter a mania que é esperto. Ainda por cima com este ar de xunga. Mas quem é que ele pensa que é para me mandar calar?
Até à terceira paragem, a que eu saio, a mulher vai destilando veneno contra mim. Eu já não a oiço, mas fico contente pelo alvo da sua conversa pavorosa passar a ser eu e não as questões de raça.
Chega a paragem do Areeiro. Preparo-me para sair e o motorista chama-me e faz um sinal com o polegar levantado. O velhote das muletas sai antes de mim, quando passo por ele ele agarra-me o braço e diz: «Muito obrigado, senhor. Eu estava a sentir-me muito mal e o senhor parou com aquela conversa. Muito obrigado.» As velhotas coquettes, que também saíram no Areeiro, acercam-se e dão-me uma palmadinha nas costas: «O senhor esteve muito bem.» E eu acabei por ficar bem-disposto logo pela manhã. Já não sou uma besta, agora sou um herói.

19.3.09

Factos da vida

O número 69 da avenida dos Estados Unidos da América chama-se edifício Califórnia e, numa destas manhãs, estavam dois pombos à entrada do prédio a copular.

9.2.09

Crise de quê?



Em mandarim, a palavra crise é igual a oportunidade.

Dou por mim a pensar que esta crise pode muito bem ser a melhor coisa que já nos aconteceu. Este pode ser o tempo do mérito, finalmente.

Vamos aos factos: somos um povo tramado e queixamo-nos muito. Não conheço um português que não sinta que está subavaliado, mal pago, que ocupa um degrau abaixo da categoria onde devia estar. Muitos terão razão e por isso não se esforçam mais, não facilitam a vida a ninguém, encerram-se na sua amargura e ali permanecem. À espera do dia em que reparem neles e os salvem daquela injustiça.

É a senhora do café que não sabe sorrir, o funcionário do banco que faz questão de falar com autoridade, o professor que insiste em ser tratado com uma deferência tremenda. É o médico que trata mal o doente, a senhora da limpeza que limpa metade e esconde o outro meio debaixo do tapete, o administrador que se rodeia de amigos para nunca ser questionado. Somos nós todos, que contratamos ou tentamos ser contratados com um jeitinho, uma palavrinha, uma referência.

Como é que chegámos aqui? A cumprir serviços mínimos, não é preciso fazer mais se não me pagam para mais. E isso nem é o pior. O pior é pensarmos que a nossa vida está lixada, por isso o melhor é lixar a vida do outro, torcê-lo e rebaixá-lo, para fingir que ele está mais lixado do que nós. E se por acaso o tipo até está a subir na vida, então é lixá-lo pelas costas, porque «esse gajo tem a mania que é bom», «subiu na vida a reboque de alguém». De frente damos-lhe graxa, porque no fundo gostávamos de estar ali. Era ali que queríamos estar. Que, convencemo-nos, merecíamos estar.

E agora a crise lixa-nos mais, deita-nos abaixo, nem sequer as regalias que temos no degrau abaixo que sabemos que ocupamos está garantida. Suspiramos por mais e afinal é menos. Então pode ser que tenhamos de sorrir quando tiramos um café, que facilitemos a vida a quem precisa de uma informação, que ensinemos em vez de querer ser professores.

Intimamente percebemos que, se nos continuamos a lixar assim, então isto fica tudo lixado de vez e daqui ninguém se salva. Se calhar chegou mesmo a hora de trabalhar melhor, produzir mais, ter um melhor desempenho. Porque vem aí o desemprego, a precariedade, a crise.

Esta é, Portugal, a tua oportunidade. Agarra-a. Ou então afoga-te de vez.

7.1.09

Família Prudêncio e o Ano Novo

Éramos cinco pessoas num carro, mais dois gatos e um cão. Ala arriba até ao Douro Internacional, beber paisagem em tragos longos. E depois siga para Espanha, ver uma exposição [tão cultos] a Peñaranda de Bracamonte. Vimos a exposição vimos, encontrámo-nos com mais amigos e logo, logo curtir carrossel. Um bando de marmanjos a gritar à mais pequena curva teve um efeito secundário interessante. A partir deste momento, o carrossel não mais se esvaziou de gente.



E de seguida a família Prudêncio seguiu em excursão para Ciudad Rodrigo, muito por culpa do Rodri, que queria sentir-se em casa. Ainda procurámos uns carrinhos de choque ou umas danças de salão, mas ficámo-nos por um karaoke manhoso, com cinco músicas em inglês, nenhuma em português, demasiadas em castelhano [cantámos o Let it Be e o Asereje]. As raparigas que aparecem ao lado da Ana na imagem convidaram-me para ir ter com elas ao bar em frente, mas tive que recusar. Once a Prudêncio, always a Prudêncio.



E isto é entrar em 2009 em festa.

5.12.08

Little children



O Mike há-de ser do Benfica, se eu conseguir contornar a vontade muito forte dos meus irmãos e dos meus pais de que ele seja do Sporting. O Mike há-de curtir livros, porque eu hei-de oferecer-lhe uma data deles, e obviamente há-de saber brincar com as palavras, como o tio. O Mike, o meu sobrinho Mike, há-de partir os corações às filhas dos meus amigos, até porque o tio há-de apresentá-lo à sociedade como o sonho de qualquer mulher, de qualquer sogra, inclusivamente de qualquer sogro.

O Mike há-de ser escuteiro, há-de ir acampar para o mato, há-de conhecer a serra de Sintra tão bem como o pai e o tio. Há-de ser essas coisas todas e fazer essas coisas todas. Mas, por enquanto, o Mike ainda nem completou dois meses. E eu ainda não o consigo influenciar.

O que é que se dá a um recém-nascido pelo Natal?

19.11.08

António Henriques (1982-2008)

Tó,

Viveste uma vida cheia. Sempre foste apaixonado pela vida e pelas pessoas que te rodeavam. Eras grande, sincero, puro, afável. Fazias toda a gente rir quando te escangalhavas a rir. Sabias dar vida aos outros, puto.

Se há coisa de que podes estar certo é que te manterás vivo nas gargalhadas dos jantares de Natal, nos encontros dos renegades, nas muitas memórias de quem te conhece desde os dez anos.

Fica bem aí onde estás, meu irmão. E um dia haveremos todos de nos encontrar para dar aquele abraço.

Estamos juntos. Estaremos sempre.

1.10.08

Não me pagam para isso

O Frutalmeidas, na Avenida de Roma, tem provavelmente os melhores pastéis de massa tenra do mundo. Não é que eu seja grande apreciador de pastéis de massa tenra, mas eles lembram-me as tardes de Inverno em que ficava sentado na mesa de azulejos da cozinha a fazer os trabalhos de casa com a Jaquina nas minhas costas, a estender massa no balcão de mármore. Era ritual da chegada do frio, fazer croquetes, rissóis e pastéis de massa tenra. A Jaca, muitas vezes com a ajuda da minha avó, produzia centenas de salgadinhos, estendiam-nas numas caixas grandes de plástico, separadas em camadas por folhas de papel de alumínio, e congelavam-nos para todo o ano. Estou certo que a Jaquina, que agora está velhinha e reformada, não produz os pastéis de massa de tenra do Frutalmeidas, mas, que raios, sabem exactamente ao mesmo.

Ao sábado de manhã [pronto, às três da tarde], vou invariavelmente beber um sumo de maçã natural e comer dois pastéis ao Frutalmeidas. O problema é o atendimento. Digo boa tarde e o empregado não responde. Abana a cabeça para perguntar o que quero e traz o pedido largando-o apressadamente em cima da mesa. Pago, não diz uma palavra, nem sequer um obrigado. E dou por mim a pensar que, se a Jaquina estivesse ali, veria o facto como uma afronta.

Chateia-me o mau atendimento em Portugal porque é um país de turismo. Percebo que as pessoas estejam cansadas de apertar o cinto, da crise, de ganhar mal, mas ninguém tem de levar com a má onda dos outros quando está a adquirir um bem ou serviço. É uma questão de profissionalismo.

Atitudes que me transcedem:

1. Peço uma italiana ao balcão, trazem-me uma bica cheia e eu protesto. Muitas vezes perguntam se têm mesmo de tirar outra, se não quero beber assim.

2. Peço uma coca-cola com gelo e respondem-me que a cola está fresca. Eu insisto que quero num copo cheio de gelo e trazem-me duas pedras.

3. Peço um café e um copo de água e dizem-me para me servir eu próprio do copo de água. Convenhamos que um jarro cheio há sabe-se lá quanto tempo e uma série de copos dispostos em fila não são propriamente higiénicos. E é aquela onda do «a mim ninguém me paga para servir copos de água.»

Há uns dias, estava no Crew Hassan a jantar com uns amigos, mas cheguei tarde e eles já estavam a meio da refeição. Pedi o meu prato, paguei e sentei-me com eles. Não havia rigorosamente mais ninguém no Crew Hassan. Passado um bocado, uma rapariga saiu da cozinha, passou o balcão e veio à mesa dizer-me: «O seu prato está pronto, não fazemos serviço de mesa.» Ela veio à mesa e não foi capaz de trazer o prato, mesmo com a sala vazia, porque simplesmente «não era função» dela. Impressionante.

Voltando aos pastéis de massa tenra, a Jaquina também não tinha obrigação de fazer salgados. Empregada doméstica, era essa a sua função. Mas ela era muito mais do que isso. Tinha brio e interesse, preocupava-se de facto com as coisas. E conseguiu fazer aquilo que temos dificuldade de fazer em Portugal: marcar realmente a diferença.

19.8.08

Roadtrip to paradise


Férias. Praia. Fora. Bora.
Desaguámos em Cadaqués, que é basicamente isto: encostas escarpadas de xisto, praias límpidas de corais e peixes coloridos, sol e um vento que vem dos Pirinéus chamado la tranmontana que, dizem os nativos, é capaz de deixar um homem louco.
Encontrámos o fotógrafo do Dalí, um Club Med que vai ser mandado abaixo para proteger o património natutral do Parc Nacional de Cap de Creus, acampámos e palmilhámos estrada. Era o que se queria. Roadtrip. Siga! E isto foram as férias da trupe.

3.7.08

Geração higiénica

Os sixties foram os anos rebeldes, os seventies assistiram ao nascimento do punk e do new age, os eighties foram os anos das lantejoulas e do porreirismo [com o pessoal a afundar-se em heroína, a sida a aparecer, as regras do jogo a mudar] e os nineties não tiveram ícone maior do que o álbum Nevermind, dos Nirvana. Em tradução literal, «não quero saber» ou, perdoem o meu francês, «estou-me a cagar». Foi a atitude que marcou a última década do século XX.

A mudança de século e de milénio inverteu tudo. O terrorismo pôs a malta a pensar, logo no início desta década. É difícil perceber uma geração quando ela marca o presenta, mas agora que passaram oito anos e meio, já se adivinha como vão ser recordados os anos 2000.

Higiénicos.

Esta geração não bebe nem fuma, pratica desporto em ginásios, faz reciclagem, é adepta do vegetarianismo, veste-se bem, bronzeia todo o corpo, toma suplementos vitamínicos mas abdica dos esteróides, rapa os pêlos do peito, come saladas e peixe grelhado, prefere cola zero ou cola light à cuba libre, faz yoga e tai-chi, deita-se cedo e acorda cedo, escolhe drogas sintéticas, cortadas com lixívia e desinfectantes. É a geração que viu nascer a ASAE e alei do tabaco, por exemplo. Provas mais que provadas de que valor maior dos nossos tempos é a higiene, a salubridade. Todos temos de estar incrivelmente em forma, absolutamente saudáveis, preferencialmente puros.

Nada de mal até aqui. Foi preciso passar uma borracha pela segunda metade do século XX, anos duros onde tudo se experimentou, onde tudo foi uma possibilidade, e começar de novo. Começar bem, limpinho, clean. Mas depois vieram os exageros.

Na Holanda, foi aprovada uma lei que impede o consumo de tabaco em todos os locais públicos, incluíndo os coffeeshops. Podem ler a notícia aqui: http://www.usatoday.com/news/world/2008-06-26-amsterdam-tobacco_N.htm

Os frequentadores destes espaços poderão fumar ganzas à vontade dentro dos estabelecimentos, mas apenas se estas não contiveram tabaco. Os cigarros também estão proibídos, só charros puros, de haxixe ou erva.

Eis a onda higiénica levada ao extremo. Ridículo, não é?

6.6.08

Eu não queria, mas vou


Não tenho bilhete para nenhum concerto e no entanto assisto a todos. Da janela do meu arranha-céus na América, a vista para o Parque da Bela Vista é directa. A audição também e por isso oiço os concertos todos, os comentários dos artistas para o público, o fogo de artifício e a p$#@& da tenda electrónica. Deixem-me dormir, caraças.
No dia em que começaram os concertos tinha um simpático papel da organização do festival a pedir desculpas antecipadas pelo incómodo que o Rock In Rio Lisboa pudesse causar e a apelar ao famoso sentido de hospitalidade do povo português. Graxa pura [que em linguagem pós-moderna se chama Relações Públicas].
Eu nem sou pessoa de me deitar cedo. Não é isso. Mas gosto de ir para casa escrever em paz, ler em paz, jantar ou cear em paz. Não dá. É impossível. As janelas tremem com o ruído, os decibéis atingem níveis de poluição sonora ilegais numa área urbana, mas tudo é permitido em nome da excepção Rock In Rio. Se eu quiser dar uma festa em casa, algo me diz que o limite das autoridade será muito menos flexível.
Ontem cheguei a casa às duas da manhã e alguém tinha pendurado cartazes a apelar à realização de um abaixo-assinado entre moradores. A ideia era Rock In Rio SIM, Tenda Electrónica NÃO. Menos de uma hora depois, esses cartazes tinham sido arrancados, o que me faz suspeitar que há uma máfia activa em pleno Parque da Bela Vista.
Eu adoro música. Eu adoro festa. Mas odeio ter de me divertir à força.

15.5.08

Ring the bells

SMS recebido às duas da manhã de uma sexta à noite, de um número que não conhecia:

«Olá, estás acordado?»

SMS de resposta:

«Claro. Alive and kicking pelo sítio do costume. E tu?»

Telefonema recebido dois minutos depois do mesmo número que não conhecia. Voz feminina:

«Então, há muito tempo que não falamos... que saudades. Olha, estou cá em baixo no Lounge, e isto está em grande festa. Anda cá ter.»

A minha resposta, a tentar encontrar balizas:

«Estás com quem?»

Redondo fracasso:

«Com ninguém que conheças.»

Volto à carga, sem compromissos:

«Bem, isto cá por cima também está muito fixe. Já vejo se aí vou ter ou não, mas estou aqui com a minha trupe e tu estás aí com a tua. Já falamos.»

Três da manhã. Novo sms:

«Então, anda lá.»

Três e meia da manhã. Faço um telefonema:

«Então, como é que isso está aí em baixo?»

«Está animado. Anda cá beber um copo comigo.»

«Bem, a verdade é que não tenho o teu número e pela tua voz pareces-me a Susana. Confirmas?»

«Estás a brincar comigo?»

«Não estou não, desculpa lá a jaguncice. Pareces-me mesmo a Susana.»

«Mas eu sou a Mami.»

«Ah, Mami... pois, que cena. Desculpa lá. Há quanto tempo... Estás bem?»

3.4.08

Bens perecíveis



Toca o telefone. Era noite, fez-se Dia.
«Olá, estás sentado?»
«Nop, estou na rua.»
«Senta-te.»
Sentei.
«Tenho um frigorífico para ti», disse ela.
Levantei.
E comecei as celebrações ali mesmo.

Nos últimos dois anos, vivi sem frigorífico. Habituei-me a ir ao supermercado se queria alimentos frescos, tornei-me rei dos enlatados, comprava leite em pacotes pequenos, de criança, zero vírgula dois litros de mimosa e nem mais uma gota. Fiambre nem pensar, queijo só se for da vaca sorridente, soja em vez de carne picada, vinho tinto no lugar das jolas. Dois anos assim, sem sopa.
Não é que me custasse particularmente viver sem frigorífico. O ser humano tem uma adpatabilidade extraordinária. Toda a gente sabe que não há frigoríficos em África, que no lote de bens essenciais - realmente essenciais - um frigorífico não tem categoria. Mas este domingo, a meio da tarde, eu fui buscar o tal bem dispensável. Weeeeeeeeeeeeeeeeeeee.

A Dia a conduzir com o João ao lado, eu e o Jordi na parte de trás da carrinha. Solavancos, solavancos, subir ao quarto andar de mãos nos bolsos e descê-lo de frigorífico nas mãos. Entretanto, a salvadora da refrigeração oferece-me um pano de loiça com um galo de Barcelos. Coloco-o na cabeça. Xutos. Ela vai registando o momento para a posteridade. Reina festa. A-LE-GRIA!!!



Ainda antes de chegarmos a América, de eu e o Jordi pormos o frigorífico no elevador para subir ao décimo piso - onde viverá feliz para sempre - paramos no Pingo Doce. É a festa do alimento perecível. Compro alface, carne para congelar, queijo e fiambre, iogurtes, sacos para fazer gelo, garrafas de vinho branco, cerveja, leite, manteiga, mostarda Dijon, sopas da Knorr [não em pó, mas líquida, daquelas pré-cozinhadas]. Deixo-me nitidamente levar pelo momento e gasto uns valentes €61,16 em coisas que se podem estragar, mas depois a Dia chama-me à atenção que o número é uma capicua e isso só pode ser um óptimo presságio. Seja.




Quando finalmente retorno a casa, decido baptizar o frigorífico de Fred, a Dia e o João trazem-me os sacos de compras e fumamos todos um cigarro [ok, não era exactamente um cigarro] para comemorar o momento. Limpo o Fred, ligo-o à ficha e rio de felicidade.

Agora, tudo é possível.

E ainda por cima está a chegar o Verão.

11.3.08

Cure for pain



Eu tinha o bilhete comprado desde Novembro e acordei feliz no sábado. Mandei mensagens a quem ia comigo. Disse «Show me how you do it, and I promisse you, I promisse that, I'll runaway with you». Angariei mais fugitivos. Sete da noite, imperial. Oito e meia, pavilhão atlântico. Weeeeeeeeeeeeeeeee.

Mr. Robert Smith está um pouco mais gordo. Mas a voz, inconfundível, preserva truques de ilusionista. Quantas memórias acumuladas nesta sonoridade? Viagens e dores e romances e melodramas e amigos e praia e tudo.

Mr. Smith também gostou do concerto. Cantou durante mais de três horas, dançou como nunca, avançou até à frente do palco para partilhar emoções com a plateia. E foi precisamente nesse momento, um dos mais íntimos do concerto, que chegou a perplexidade.

Robert Smith estava no limite do palco, encostado ao público, a cantar de mão estendida para a massa. Oferecia a mão e a alma, num gesto que é pouco habitual nele. Ninguém, quase ninguém, lhe estendeu a mão. Em vez de se deixarem ir, de se entregarem à empatia do momento, os que estavam na frente do palco preferiram erguer os telemóveis e gravar essa fabulosa magia de Mr. Smith.

Ele de braços estendidos ao público e o público de telemóvel estendido a ele. Não pude deixar de pensar que isto é um sinal dos tempos. Seja a gravação para mostrar aos outros ou para ver mais tarde, é uma estranha mediação. Toda a gente preferiu gravar a magia do que vivê-la. Que raio de tempos estes.

5.1.08

A divina comédia

Ano novo em Berlim foi banho de urbanidade. Martin Parr iluminou-me os dias, depois de ver a exposição dele no C/O Berlin, uma velha estação de Correios no Mitte agora transformada em centro de fotografia. Esta imagem é dele. Não estava exposta em Berlim e no entanto tem doses precisas de ironia e ridículo. Isto é um grupo de turistas no Ground Zero, em Nova Iorque.

Muito curtidos, estes dias de berliner. Dançar numa festa de house num edifício ocupado, mergulhar nos restaurantes turcos, libaneses e japoneses de Kreuzberg, curtir a vanguarda em Prezlauer Berg, saltar de ano no telhado de um prédio de oito andares, frente a Centralpark, e assistir a uma verdadeira guerra civil de fogo de artifício durante uma dúzia de minutos. Fazer festa luso-brasileira-alemã noite dentro.

O pior foi depois. Às cinco da manhã do dia 1 de Janeiro de 2008 rumei ao aeroporto de Snhonefeld, disposto a manter uma postura respeitável e confiante (o que de facto viria a conseguir fazer, pelo menos até momento em que me sentei no avião. Ahhh, mesmo à justa.)

Uns minutos depois das dez da manhã cheguei a Lisboa. Fui tomar o pequeno-almoço à avenida de Roma e observei os restantes madrugadores. Havia as senhoras e os senhores de chapéu, extremamente acordados, algumas famílias completas, demasiado bem-dispostas, os últimos boémios da festa, a caminho de casa. Percebi-os melhor do que aos outros. E percebi que odeio pessoas bem-dispostas e acordadas nas manhãs de 1 de Janeiro.

11.12.07

Última hora


A ASAE decidiu fechar por tempo indeterminado a fábrica de brinquedos do Pai Natal. Às quatro horas da madrugada de ontem, ocorreu a operação Dar nas Vistas, que levou mais de 700 polícias, cães polícias e inspectores de gabardina a uma aldeia perdida da Lapónia.

Além das autoridades terem identificado 14 duendes menores de idade, foram detidos 29 gnomos sem visto de trabalho, oriundos da Turquia, Geórgia e Bielorrússia. O próprio São Nicolau foi acusado de cozinhar bolo-rei com uma colher de pau [que como toda a gente sabe é um atentado às regras de segurança alimentar da União Europeia] e ficou com termo de identidade e residência.

Mary Christmas, a mulher de Santa Claus, ficou detida em prisão preventiva com suspeitas de gerir um discreto bordel de Barbies para lenhadores e condutores de trenó finlandeses. O tribunal decretou que Mary, que em certos meios é conhecida como Madame X, não pode ter direito a fiança.

Entretanto, José Sócrates decidiu abrir um processo disciplinar ao Pai Natal, por ter comentado com um duende infiltrado que o primeiro-ministro português não conseguiria correr, «nem que se esfalfasse todo», a maratona de Ano Novo da Lapónia. O caso já está a ser avaliado pela DREN.

10.12.07

Pretérito perfeito

Por estes dias, Lisboa parece uma obra embargada. Não há luzes de Natal no Rossio, os taipais vanguardistas do Cais da Coluna já pouco disfarçam a inutilidade do Terreiro do Paço, o comércio tradicional recusa abrir portas ao domingo, mesmo que estejamos em período de vendas e as grandes superfícies sejam obrigadas a fechar. Rua Augusta sem mimos. Bairro Alto sem boémios. Nem um grito audível na rua quando o Benfica marca golo.

Pausa, Lisboa em suspenso.

Percorro a rua da Escola Politécnica sem ver vivalma. Ligo para dois ou três amigos, ninguém quer desbravar a urbe. Vou beber um chá, o Cister está fechado. De repente, descubro um tasco que a ASAE ainda não localizou, entro, sento-me, um moscatel. O último fio de luz ilumina o rosto da rapariga que está sentada à minha frente. Não é bonita, mas não consigo desviar os olhos dela. Está mergulhada na penumbra e um clarão de lusco-fusco incendeia-lhe o olho direito. Ela sorri-me, não com os lábios [consigo lá vê-los], mas com pestanas e sobrancelhas.

«Olá Ricardo, lembras-te de mim?»

Susana.
Colega da secundária, na altura uma espécie de cheerleader da turma. Gira, cheia de convicções, um terramoto de 16 anos. Agora aqui, à espera de coisa nenhuma. Os anos arredondaram-lhe o corpo mas preservaram-lhe a luminosidade do esgar. Estava na mesma. E isso significa que não se aparentava com nenhuma imagem que eu pudesse guardar do passado.

Desfiámos meia dúzia de memórias, pedi outro moscatel e ela acompanhou-me. Estava a trabalhar na cimeira, agora vive em Bruxelas, trabalha para a União Europeia. Contei-lhe das pessoas que ia vendo e das que nunca tornei a pôr olho em cima, queixei-me da cidade estar em ruínas e de nenhuma outra capital guardar alma de marinhagem.

Despedimo-nos com trocas de e-mail e promessa de nos mantermos em contacto. E, no exacto momento em que saímos para a rua, acenderam-se, muito embora tivessem forma de laçarotes e fossem de um gosto duvidoso, duas filas inteirinhas de luzes de Natal.

5.12.07

Sobre a bruma


1.
Dou por mim a atravessar a praça da Figueira e percebo que não se vê o outro lado da rua. Sumiu toda a gente, a puta anã, as colegas desta, os polícias da ronda, os taxistas que costumam adormecer na praça. Há um silêncio esmagador em Lisboa desde que esta névoa fenomenal se abateu sobre a cidade. Metrópole sem contornos, desfocada, vazia de gente e repleta de vultos. Dou por mim a pensar que isto não é nada de novo. Uso óculos, caramba. Sem eles, Lisboa é névoa constante.

2.
A minha janela na América oferece moldura sobre urbanidade em frente, grande arquitectura à esquerda, desafogo verde à direita, rio atrás. Mas hoje subi arranha-céus acima e tudo o que vi na pintura foi bruma branca. Ahh... Estou nas nuvens.

3.
Quando estava em Maputo, senti exactamente isto. Também em Londres, uma noite há uns anos. E em Sintra, este fim de semana. A realidade, exterior a nós, prega partidas e obriga a fazer testes. Agora estás sem luz em Moçambique, porque houve um apagão. Sem chapéu de chuva em noite de copioso dilúvio londrino, sem casaco no monte da Lua. Sem ver um palmo à frente do nariz nesta cidade encantada. Avanças e superas-te? Ou escondes-te e resguardas-te?

4.
Venda-me os olhos. Dá-me a mão. Anda.

5.
Como foi acontecer isto? Perdi-me na névoa [terei sido engolido?], deixei de saber onde estava, mergulhei de uma vez por todas na cal etérea das nuvens. Outono em Lisboa, que maravilha. Três da manhã, bem bom. Não vejo nada. E no entanto sinto tudo.

11.11.07

This is Maputo


O avião atrasou-se. Eu vinha de Niassa e devia ter chegado ao Maputo ontem mesmo, dia 10, pelas 23h30. Mas, de Lugenda à antiga Lourenço Marques, avioneta fazia paragem em todas as estações e apeadeiros. Pemba, Nampula e cosmopolitismo uma hora depois do previsto, já dia 11, meia hora depois da cinderela se ter transformado em abóbora.
Era feriado e sábado à noite, de qualquer maneira. Primeiro, um táxi para a Feira Popular, comer camarão grelhado, admirar carrocel e roda gigante, conversa boa com duas amigas mais o meu companheiro de vagem.
Três laurentinas fresquinhas depois, comecei a interrogar-me porque motivo o rádio do restaurante tocava mais alto que a grafonola dos carrinhos de choque.
«Bem», disse dona Natércia, «o Maputo faz hoje 120 anos que foi declarado cidade. Tem festa grande na Praça da Independência e estão a transmitir tudo em directo na rádio». Ok, queremos a conta e seguimos para o fim do colonialismo.
Festa rija. Praça cheia com uma claríssima escuridão. Quatro brancos na paisagem, nem mais um. Gente a dançar empoleirada nas árvores, muito maputense a meter conversa, e o raio da laurentina a vir parar-me às mãos - uma, outra, tanta.
À minha volta, só via rodar garrafão de tinto, cigarro de sorriso, mulata de braço em braço. E cantoria de braço levantado, viva o Maputo viva, abraços e amigos num instantinho de sempre, rodas de dançarina, corpos deitados no chão, o dia a raiar.
Tive que correr num foge-foge. Novo voo às 6h30, agora para Bazaruto, e o tempo a escorrer-me dos dedos, não queria, não podia ir embora.
Saí sim, teve que ser. Mas volto já num instantinho e sei com certezas absolutas que hei-de ter saudades para sempre. É estranho. Pensava que ia estranhar urbanidade em África, imaginava magia do continente com exclusividade no mato e na praia.
Mas a minha renitência com o Maputo está como o açúcar para o chá: dissolve-se.