16.1.07

O Marítimo da Bica

Quando arrancou o Campeonato do Mundo de Futebol, Lisboa andava em agitado rebuliço a preparar-se para o Santo António. Vi os primeiros jogos da Selecção no «Quintal da Copa» – que o Hugo e o João instalaram na Penha de França – mas depois o primeiro rumou para o Brasil, o outro para Idanha-a-Nova, e eu acabei por combinar com o Ric [meu companheiro de andanças futebolísticas, entre muitíssimas outras andanças] vermos os jogos que sobravam na Bica, um dos bairros típicos da capital. A Cátia vinha ter connosco mais tarde.

Descemos a calçada – que se chama Duarte Belo – no dia combinado. Passámos o Bicaense, o restaurante africano, o Grupo Excursionista Vai Tu e virámos à esquerda. Descemos as escadinhas e lá estava o Marítimo da Bica, janelas e portas escancaradas, mesas compridas montadas na rua, mais o televisor elevado numa frágil estrutura de mesas e cadeiras. A marcha de 2006 ressoava num improvisado sistema sonoro, ao passo que os marchantes se aproximavam e grelhavam febras e pregos ao ar livre. «Sentem-se, sentem-se.» É aqui que ficamos, não haja dúvidas.

Portugal-Holanda foi um sofrimento. Na rua e de olhos postos na televisão, os organizadores da marcha, concentrados no Marítimo, gritavam mais alto do que nós. A meio da primeira parte sentaram-se dois franceses na nossa mesa - o Vincent e a Anais - com quem íamos partilhando cerveja e bifanas. O senhor Américo e o senhor João já nos tratavam por filhos, ofereciam-nos cerveja «para dar sorte» e a bebedeira ia crescendo. A táctica, pelos vistos, funcionou, já que ganhámos e a trupe entrou em delírio. Música em altos berros, eu agarrado às velhas a dançar música pimba, mais a marcha da Bica, e a promessa de voltar para o jogo com Inglaterra. O Vincent e a Anais, que iam para Coimbra e Porto, cortaram-se ao regresso.

Meia semana depois, jogo com Beckham e companhia, desta vez aparecemos mais cedo e, como o desafio correu durante a tarde, ficámos dentro do edifício. Já toda a gente nos tratava pelo nome, já tínhamos mesa reservada no meio da tropa da Bica. Eu, o Ric e a Cátia, acompanhados pelo Torcato, com quem vemos sempre a bola, a Bego, minha ex-namorada espanhola, e o Juvenal, colega de trabalho que é natural do bairro e se juntou à festa. Novamente muita música, muita cerveja e a certeza de já fazermos parte da casa. A meio da primeira parte, voltaram a aparecer os franceses - tinham desviado a rota para vir ali. Família espontânea, em reunião animada. Muita cerveja, ameaças de ataques cardíacos, e ganhámos nos penalties.

Ao terceiro jogo já andávamos a montar os toldos cá fora e a comer o jantar dos marchantes. Cerveja paga era coisa pouca, beijinhos das velhas e abraços dos homens era coisa farta. Perdemos com a França mas ganhámos amigos. O Vincent e a Anais mandaram sms de Paris, mails com fotos, prometeram voltar no próximo Verão.

Ontem voltámos ao Marítimo da Bica – eu, o Ric, o Torcato e o Juvenal – para vermos o Benfica ganhar à Académica dois a zero. O ritual repetido, como se fossemos naturais do bairro. Gritaria constante, beijinhos e abraços, «há tanto tempo que não apareciam». Voltaremos mais vezes, de ora em diante.

Não vivo na Bica mas, pelos vistos, sou natural dali.


PS: Outro benfiquista ferrenho com quem não vou ver a bola há imenso tempo é o Phil, que abriu um blog novo e merece uma visita atenta. Passem lá por http://www.aruexperienced.blogspot.com/

15.1.07

O alfarrabista de Roma

Na esquina da avenida de Roma com a América há um quiosque que não vende jornais, nem tabaco, e que [des]ilude todos os que querem comprar o Público ao domingo de manhã. É, como habitual, um cubículo onde mal cabe uma pessoa, com uma mesa por diante e dois expositores laterais. Mas, em vez dos papéis da actualidade, ali vendem-se livros que foram escritos numa altura em que não se podia livremente dar asas à imaginação. Nem à opinião.

O alfarrabista de Roma não parece português. É alto e magro, olhos claros escondidos numa barba mal aparada, roupagem desmazelada e discurso parco. É como se o homem não estivesse realmente interessado em vender os seus livros, antes manifesta o desejo de expô-los para o mundo os conhecer. Não é raro vê-lo discursar sobre a importância do «Portugal e o Futuro», de Spínola, ou defender o regalo que é ter uma primeira edição de «A Fogueira das Vaidades», do Tom Wolfe, e depois hesitar em vender qualquer uma das obras a qualquer comprador que não mostre um entusiasmo no mínimo tão grande quanto o seu. Eis um sofista, em pleno século XXI, na esquina de Roma com a América.

Domingo de manhã [ok, ok, era de tarde] subi a América para comprar o Público e detive-me por instantes diante do quiosque das papeladas antigas. Olhei de relance para um volume da Academia Geográfica de Lisboa, um ensaio cartográfico da capital que por certo não me importaria de ter. Não me interessei pela biografia de El Rey D. Carlos, menos ainda pela proibida [como são todas] edição do «Mein Kampf», de Adolf Hitler. E, subitamente, aterro os olhos no «Eléctrico», de José Gomes Ferreira, primeira edição a dois euros. Pego no livro e o alfarrabista repara: «Ah, José Gomes Ferreira! O grande poeta esquecido. Sabe que ele morreu de felicidade pouco depois do 25 de Abril?» Contesto: «Não foi ataque cardíaco? Ou fígado? Diz-se que ele bebia muito.» Respondeu-me que os poetas bebem todos muito, é defeito de fabrico para quem analisa a magia do mundo, e que foi seguramente de alegria que o seu corpo sucumbiu. «Afinal, ele sempre foi um opositor ao regime.» É verdade.

Há anos, subia as escadinhas do Duque e entrei noutro alfarrabista onde encontrei uma primeira edição do José Gomes Ferreira, assinada e datada por um antigo proprietário. Coincidência ou destino, o livro tinha rubricada a data do meu nascimento, o que encarei como um óbvio sinal de obrigatoriedade em adquiri-lo. Tinha 15 anos e apaixonei-me pela escrita flutuada do poeta, o grande esquecido José Gomes Ferreira, que fica na história com o nome de uma rua e uma escola em Benfica. É sem dúvida pouco para tanto talento.

E este domingo de manhã [de tarde], quando ia comprar o Público, encontrei-o novamente num alfarrabista, desta vez sem data nem coincidências fatais, mas com idêntico sinal de que o teria de levar. Contei ao alfarrabista a minha história de há meia vida, ele sorriu e depositou-o nas minhas mãos. «Este ofereço eu», disse. Já não comprei o Público e enfiei-me o dia todo em casa em delírio poético.

O alfarrabista de Roma pode não ter grande jeito para o negócio, mas é sem dúvida genial no que toca à leitura das almas. Honra a ele.

11.1.07

Cheira a Lisboa

O primeiro camião de recolha do lixo passa invariavelmente pela rua da Atalaia por volta da meia-noite, quando o Bairro Alto começa a ficar cheio de gente. À uma e pouco passa uma segunda carrinha, com idênticos objectivos. Em sentido ascendente, o primeiro motorista trava em frente ao Calcutá e, segundos depois, em frente ao Spot. O segundo estaciona em frente ao 21 e lá segue o seu caminho [desce a rua da Barroca e pára diante do clube da esquina, para recolher os sacos e caixotes]. Ou seja, na precisa hora em que a multidão se acotovela, os funcionários da Câmara Municipal de Lisboa ocupam a rua e impregnam o ar com o seu doce aroma de quatro rodas. Poderiam passar antes das onze, mas atravessar o deserto das ruas não teria se calhar tanta piada, nem incomodaria tanta gente. À meia-noite é que é. E novamente à uma. Crazyyyyyy!

Já que é da recolha de lixo que se trata, a inquietação prossegue. A maior parte dos caixotes do lixo do Bairro Alto estão, por incrível quer pareça, trancados à chave. Como se os despojos fossem uma exclusividade do dia nos principais quarteirões da vida nocturna da capital. É [mais] um traço de esquizofrenia nesta cidade. É favor deitar os copos de plástico para a rua.

Gosto de passear pelo Bairro de dia e gosto da pacatez quinhentista das suas ruas. Até gosto dos grafitti nas paredes, porra. Mas não suporto o cheio do camião, nem os caixotes de lixo trancados, e muito menos dos cartazes que pedem silêncio para os moradores na rua do Diário de Notícias. Se é a sua vocação nocturna que torna o bairro em Bairro, então assuma-se a tendência. Caixotes do lixo para todos, camiões de recolha pela manhã e faça-se barulho a horas impróprias. Tenho dito.

9.1.07

Resquícios de ano novo

Eu já devia saber que ir jantar à segunda-feira com o Jordi ia acabar assim. Mensagem no telemóvel, «mano vamos jantar fora, vá lá.» está bem, vamos, oito e meia na Fnac e depois vamos ao Calcutá, que é preciso mudar de hemisfério de quando em vez. Oito e quarenta chego eu, dez para as nove aparece o catalão maluco.

Ainda não pedimos a imperial da praxe quando encontramos a Adriana repleta de sacos e novidades: «Há mamas de silicone em promoção na woman's secret.» Fantástico. Entretanto o Tiago combina vir ter connosco à meia noite, para beber uns copos. Teme-se o pior, mas siga.

Dez da noite, engano-me no molho e encho uma chamuça de picante. Água, vinho, uma garrafa, é melhor pedir a segunda. «Maninho, vou apanhar o último metro.» Vais, vais.

Meia noite, imperial no 40 e 1 e o Tiago com o cabelo rapado. Mais três, Sandra, se faz favor. Discussão sobre a legalização do aborto bem regada e o argumento de que os duendes do pai natal são tentativas de aborto frustradas não pega. Mais três e«shit, perdi o último metro.»

Tenho duas casas nas redondezas [aliás, com sorte até tenho mais, porque a Lena e a Sophy vivem no Príncipe Real e não negariam tecto a este sem-abrigo, estou certo, caso fosse necessário], a do Jordi e a do Tiago. O catalão tem sono, sume-se. Ficamos eu e o homem sem caracóis, mais umas quantas imperiais e decido ir dormir à Baixa.

Subo os 112 degraus do quinto andar que parece sexto. Chego afogueado, mais umas cervejas, é melhor e «põe aí som, puto». Bob Marley, Lou Reed, Marvin Gaye, Lisa Ekdahl.

Quatro da manhã. De lata de cerveja na mão eu e o Tiago abraçados a cantar o High Tide Low Tide, «I'm gonna be your friend», depois ainda abrimos a última lata. Eu com um cachecol enrolado na cabeça, Sandokan como na festa de ano novo, mais uns óculos escuros que a moca traz sensibilidade à luz. Começa uma nova semana de um novo ano, mas os hábitos são os do costume. As segundas serão sempre as noites mais insanas de Lisboa.

8.1.07

Back to America

De volta. Vieram as festas e as férias, excelente combinação. Depois o ano novo, que me deveria ter levado para o Algarve, mas a casa falhou. Mudámos então de planos para Lamego e, no dia em que partimos de viagem, a casa falhou. Seguimos para Aveiro e organizámos cinco dias de fiesta total. Na noite de reveillon as janelas para a cidade, bem no centro da urbe, estavam abertas de par em par com a mitra a dançar no enquadramento. Assim ficámos até às cinco, entre copos e fumos. Depois seguimos para uma festinha trance na Vagueira, até à tarde seguinte. Ainda não recuperei totalmente. Os trinta já pesam, shit.

No regresso a Lisboa, a compensação por ter arrumado a casa antes de partir. Tudo arrumado e limpo, o que é pouco o meu estilo. Soube bem essa sensação. Tal como souberam bem as festas da última semana no meio do cosmopolitanismo da capital. Agora tenho vontade de sair outra vez. Viva 2007!

20.12.06

Sobre o aborto

Os duendes do pai Natal são afinal filhos de quem?

19.12.06

Admirável mundo novo

Foi a Catarina que me explicou tudo. Ela ontem estava do lado errado do balcão do espaço 40 e 1 - cá fora a beber copos, em vez de lá dentro a servi-los [lá dentro estava a Sandra, que também explicou uma grande parte da história]. São tão giras. E desvendaram-me um mistério muito maior do que qualquer segredo de Fátima, qualquer triângulo das Bermudas, qualquer Atlântida afogada.

Siga, porque há coisas que não entendemos nas mulheres. As idas em grupo à casa de banho, os segredinhos em plena discoteca, tudo o que cabe numa mala. «Uma mala é passado», explicou a Catarina, «o drama actual de todas as mulheres chama-se o dilema da pochette.»

E contou-me que a pochette é aquela malinha pequena que as mulheres usam para eventos, sair à noite, um jantar de amigos, uma festa ou inauguração. «Passamos horas diante do espelho a escolher o 'modelito' perfeito e, quando finalmente conseguimos, começa o dilema da pochette. Se não combinar com a toilette, temos de mudar de roupa ou pedir uma emprestada à amiga. E recomeça o drama, porque encontrar a pochette perfeita para a roupa ideal é uma tarefa quase impossível.»

Na pochette, explica-me ele, é preciso saber escolher o que levar. «O telemóvel é obrigatório, tal como o gloss para não perder encanto ao longo da noite. Ah, e levas sempre uma daquelas amostras de perfume. Depois, não podes levar a carteira, porque não cabe. Então arranjas uma carteirinha pequenina para levares só o dinheiro e o multibanco.» Tem de caber em cada pochette as chaves de casa ou do carro. «Mas levas só as chaves, nunca o porta-chaves, porque o ursinho, o coraçaozinho ou o bonequinho ocupam demasiado espaço.»

O espaço que sobra, confidencia-me, é ocupado consoante a personalidade da dama. Mas com uma ressalva: tampões e pensos higiénicos devem estar numa bolsa à parte, não vão cair quando se retira alguma coisa da pochette. «As conservadoras levam sempre lenços de papel e Trifene 200. Mas, se foram fumadoras, abdicam dos lenços. Ou então andam com eles na mão.» E as atrevidas? «Um elástico ou um gancho, para prender o cabelo, uma camisinha e a escova de dentes pequenina, para manter o bom hálito Ou então chicletes.»

E ei-las preparadas para uma grande noite, com a pochette [«que agora também se chama clutch», acrescenta a Sandra] debaixo do braço. E aí começa o melodrama seguinte, que é o de não perder a pochette. Como é um objecto pequeno, pode esquecer-se em qualquer lado. Mas também aí, a Catarina tem uma teoria interessante. «Tens que cuidar dela constantemente, tomar conta dela com mil cuidados. Basicamente, a pochette é como um filho.»

...

Admirável.

18.12.06

Cais do Sodré

A primeira vaga do tsunami de 1755 bateu ali, no exacto ponto onde hoje se apanha o barco para Cacilhas. Não havia estação de comboios, claro, nem mercado da Ribeira, muito menos as linhas de eléctrico. Existia apenas um casario desorganizado, bares de marinheiros e muita putaria. Um traço que as ondas do maremoto não conseguiram disfarçar.

Oslo, Tóquio, Jamaica, Texas, Estocolmo, Escandinávia, Europa. São nomes de bares do Cais do Sodré, chamarizes para os que ali chegavam pelo rio. Anunciam num letreiro promessas de matar saudades de casa com copos, corpos, mulheres. Mas também são refúgio de bandidos, esconderijo de conspiradores. O porto de abrigo da cidade que ninguém via, mas toda a gente cheirava.

Sábado à noite durou até domingo, no Cais do Sodré. Desviei a rota do Jamaica de sempre [onde guardo memórias de noites gordas com quase todos os meus amigos] e do Tóquio de muitas vezes [sobretudo vou lá com o Ric, que me convidou para padrinho do seu casamento e contratou o DJ da casa para animar o copo de água].

O Europa reformulou-se. Abre até às 4h30 e novamente às 6h, para after-hours até à hora de almoço. E o Texas já não se chama Texas, agora é Music Box e tem ambiente house. Foi a minha rota da noite, até baterem as onze da matina. Muita dança, mais copos, conversas discretas, encontros inesperados.

O problema é que tinha um almoço no domingo, à uma, com os meus colegas da Faculdade. Adormeci e só acordei ao vigésimo telefonema da Lina, eram quase quatro da tarde. Já tinha conseguido faltar a um lançamento do meu livro. Agora também consegui faltar ao encontro que eu próprio marquei. No primeiro caso, a culpa foi do trabalho. Agora, foi do Cais do Sodré. Shame on me, anyway.

15.12.06

Ponto de encontro

Quando tínhamos 15, 16 anos, viajávamos juntos e os regressos eram feitos a quatro, ou mais, para um meeting place desolado no meio do subúrbio. Eram os dias em que nos encontrávamos ao fim da tarde no Galeão, íamos a casa jantar qualquer coisa e voltavamos a estar juntos à noite - no Paparocas, no café do Daniel e mais tarde no Carujo [foi sempre a piorar, verdade seja dita]. As miúdas marchavam cedo para casa, ficava eu, o Dave, o Guido e o Gouvas, às vezes também o Joel. Íamos jogar cartas [cornélia e olho] para as escadinhas nas traseiras de casa do Guido, enrolar cigarros felizes, beber umas cervejas «mas com cuidado, se os meus pais passarem aí esconde isso, puto.»

Crescemos. O Hugo e a Sofia casaram, a Andreia e a Ana [que faz anos hoje e é um mulheraço] ficaram por Sintra, a Lia pirou-se para Aveiro, depois Lamego, agora Funchal. O Guido também ficou pelo subúrbio, a Vanda mais ou menos. E a Raquel foi para Buenos Aires, o Gouvas para Benguela, a Célia para Formentera, o David para Leiria. Eu na América, com passaporte para viagens constantes. Dispersámo-nos todos, apesar de muitos telefonemas, e-mails, uma ou outra carta.

E quando chega o Natal toda a gente vem a casa. A semana passada apareceu o Dave na varanda do décimo andar. O Gouvas chegou ontem de Angola directo para minha casa. A Célia gostou de lá jantar, tenho a certeza. A Raquel aparece sempre. A Vanda dorme lá muitas vezes, como todos os sem-abrigos do meu grupo de afectos.

Está toda a gente a voltar e quem chega vem para os States. Bem-vindos ao laboratório.

14.12.06

K.[lux]O.

Terça, onze e meia da noite, festa privada no Lux. Dois amigos lançavam um livro sobre fado e eu, apesar de estar totalmente KO, fui lá dar um abraço aos autores. Foi a Alexandra que me convidou e ela, admito, soube seduzir-me, fazer-me vestir o casaco e disfarçar o cansaço:

«Há vinho à borla», disse. «Irrecusável», respondi.

Quando cheguei, o Camané estava em pleno afinanço, num palco improvisado, junto ao bar do primeiro piso. Impressionante. Ainda ouvi a Maria da Fé e o Carlos do Carmo, três faduchos cada, mas depois apareceu a Mariza. A mulher tem uma garra de voz que arrepia a espinha. Ainda por cima, com letras do Ary dos Santos pelo meio e aquele timbre tão sensual.

É fadista de largo espectro, a Mariza, encarnação de Lisboa em corpo de mulher - tão discreta, bela e senhora do seu nariz quanto a luz da cidade.

À saída, percebi que me tinha voltado a reconciliar com o Lux, com quem andava zangado há uns tempos. Eu achava que o maior clube de Lisboa tinha mudado, estava mais deprimido. E, em resposta, o maior clube da cidade atira-me com a primeira noite de fados da sua história e a certeza na voz da Mariza de que à beira do Tejo está tanta Lisboa como na minha janela da América.

12.12.06

Negócio de época

Tenho já seis jantares de Natal marcados, mais um almoço e uma festa de anos. O meu orçamento milionário, afinal, não é assim tão milionário como isso. E o pior é que ainda não comprei prendas.

Em Dezembro, em todos os dezembros, gostava de ser dono de um restaurante.

11.12.06

Vocação de pato bravo

Eu até me considero um gajo de esquerda. E gozo com os gajos do Bloco, apelido-os de esquerda caviar, digo que a Meg e o Bruno é que fazem política a sério, porque vão meter-se no meio daqueles que toda a gente esqueceu. Até que subitamente [ou nem tanto] recebo o subsídio de Natal.

Comprar farpela nova, primeira missão. Andava a precisar de umas calças por isso comprei-as, juntamente com uma camisola, uns boxers e umas meias. Depois perdi-me na Fnac, comprei quatro livros e espero que ninguém mos ofereça no Natal, porque dois já foram devorados de uma ponta à outra, o terceiro vai a meio e o quarto marcha seguramente antes do Natal.

Farto de latas de atum e de ovos como base alimentar, passei no El Corte Inglés e comprei uns artigos de primeira necessidade na loja gourmet. Duas garrafas de Chaminé e uma de Vila Meã são bens que qualquer pessoa de bom gosto precisa de ter em casa, um foie gras e umas tâmaras são produtos essenciais numa cozinha sem frigorífico.

Ontem, decidido a um estilo de vida mais saudável, fui nadar em água quente para disfarçar o frio e a barriga. No fim, quando me decidia a ir para casa cozinhar o jantar - ontem estava home alone - reparei que os meus pés se encaminhavam sozinhos para a avenida de Roma. «Estranho.» Só quando entrei no Magnolia e pedia tosta mais cara lá do sítio é que percebi a minha genuína vocação de Pato Bravo. Genuína, irracional.

O que vale é que encontrei lá a Tânia e a Sara e disfarcei a fleuma com um café.

6.12.06

O Natal em video amador

PAUSE

Na varanda da América é Natal todas as noites. O sistema luminoso da melhor divisão da minha casa é um conjunto de luzes de Natal com decorações de candeeiros japoneses. Advento em versão zen, que permanece o ano inteiro no tecto, a dividir os recantos à luz. Hoje, quando entrei em casa de um amigo, reparei na árvore de Natal que lhe ocupava metade da sala, rodeada de embrulhos bonitos.

REWIND

Lembrei-me de quando era puto e conseguia suster a respiração durante horas sem tirar os olhos dos presentes, homem estátua, quase duende, a contar os dias, a contar as noites, ansioso por abrí-las. Uma vez, eu e o meu irmão mais velho não conseguimos deixar de fazer batota. A minha mãe tinha ido ao senhor Ricardo às compras (o senhor Ricardo era o homem da mercearia, vendia fiado e tinha um bigode mal aparado) e nós abrimos um presente numa das superfícies - «mas só um», avisou o Hugo - para vermos o que era. Descolámos a fita cola, vimos o Castelo do He-Man e abraçámo-nos de alegria. Depois voltámos a fechar o presente, o medo de sermos apanhados por causa da fita cola que já não se sustia, prometemos segredo. Na noite de consoada, enquanto abríamos as prendas, percebi que tinha feito mal em ter feito batota. Não era tanto a prenda que interessava [ainda que aquela estivesse três degraus acima das melhores expectativas], era o magic-moment.

FAST-FORWARD

Há dois anos, quando partilhava o P.Palace com a Vanda e o Gouvas, bateu-nos o espírito numa dessas noites de hoje-jantamos-todos-em-casa. Bem bebidos e melhor fumados, decidimos montar a árvore de Natal - em vez de bolas usámos pais Natal e sinos de chocolate do Lidl - desenhámos um presépio na parede, fizemos decorações para espalhar pela casa, com recortes de papel de lustro e de jornais. Magic-moment em grande moca.

PLAY

Decidi hoje instalar o Natal lá em casa. Como não tenho árvore, vou pendurar bolas coloridas pelos sítios mais improváveis de que me lembrar. E este ano apetece-me fazê-lo sozinho. Vou tentar misturar cd's e estatuetas do Benfica com fitas prateadas. É hoje à noite, não falha.

4.12.06

Danças de salão

O T1, quase T2 por causa da varanda envidraçada, é apesar de tudo pequeno. Na sala mal cabem os livros, o sofá, o puff, os 54 cinzeiros e os 11 quadros. Na cozinha mal cabe um frigorífico e, precisamente por isso, não está lá nenhum. Nas janelas não cabem cordas de roupa, tenho que secar as T-shirts em cima das cadeiras. Na casa de banho não cabem duas pessoas a tomar duche, é uma pena para o romantismo. No quarto não cabem numa só parede os dois óleos que encomendei há uns anos a uma pintora em ascenção.

E, desviando o puff, batendo com os braços nos livros, quase derrubando o televisor, agarro em ti para um valsa improvável, com som de fundo ainda menos previsível. The Verve sugeriria uma polka, no limite um tango. Mas nós valsámos assim, nessa doce esquizofrenia dos fins de semana prolongados, em que rodopiamos, abraçamos, flutuamos com a cidade aos nossos pés - e é então que o espaço se torna tão inútil quanto o tempo.

Se a Baixa se afundasse

As casas da Baixa estão suportadas por estacas de madeira, mergulhadas em água há 251 anos. Se não estivessem submersas, a madeira apodrecederia e a Baixa ruiria, sem apelo nem agravo. Perder-se-ia o palco dos mimos da rua Augusta, o Martinho da Arcada de todas as revoluções, a Fnac, o semanário Sol, a vista do Chapitô, a loja indiana que vende Marlboros à unidade, o postal do arco da rua Augusta e a casa nova do Tiago, num quinto andar sem elevador.

Por outro lado, se a Baixa se afundasse, a maior árvore de Natal da Europa seria engolida pelas águas e acabariam os imbecis engarrafamentos deste fim de semana, com hordas de famílias a percorrerem as estradas suportadas por estacas para ver as decorações luminosas da capital.

...

Não há dúvidas, portanto: afundemos a Baixa.

29.11.06

Testosterona

Todos os dias nascem nesta cidade mulheres lindíssimas com mais de 26 anos.

26.11.06

O meu chapeu de chuva

Sábado de inverno, sinto-me senhor quando saio de casa com sobretudo e guarda-chuva. O meu chapéu é daqueles compridos, cabo de madeira e tecido azul escuro, comprado a uma chinesa por cinco euros em dia de temporal. Sábado quase nem choveu, mas eu quis investir-me do meu casaco à Corto Maltese e do tal chapéu, que seguro sempre bem enrolado, pelo meio do cabo, para dar estilo.

Primeiro a Gulbenkian, para ver a lotadíssima exposição do Amadeo. Melhor seguir para o Centro de Arte Moderna e consumir instalações do Cabrita Reis. Mas ou ele me estava a chamar de burro ou de facto não consigo sentir nada a olhar para um molho de tijolos, uma secretária com um bloco de mármore por cima e um conjunto de luzes de cozinha. A arte não deveria ser sensação?

Umas tapas e dois copos de sangria depois, despeço-me dos companheiros de Lisboa e rumo a Sintra. Pouca-terra-pouca-terra e o subúrbio grafitado em espectáculo de janela baça. Próxima estação, saio e dirijo-me ao conforto dos amigos de sempre. Boa janta, bom vinho, livros e filmes na conversa, mais os trabalhos e as deambulações com que queremos presentear o mundo. O contraste entre o frio da serra e calor da conversa é o paralelo perfeito entre os jogos de luz e sombra da serra com luar. Era verão, portanto, mas eu continuava com o meu chapéu de chuva.

Depois o bar da Ana, amiga de há muitos passados, encontrar R&R, umas imperiais com luz ténue, memórias de rituais antigos e um livro lindo que me veio parar às mãos. A edição crítica do Capote em língua inglesa, um ano depois da publicação do "A Sangue Frio", roubado à embaixada americana em Lisboa.

Acabei por ficar a noite toda, com o meu casaco à Corto Maltese, e agora também uma edição crítica sobre o Capote. Acordei e voltei à estação, regresso a Lisboa para noite com amigos urbanos. E, quando começa a chover, apercebo-me que perdi o meu chapéu de chuva azul comprado por cinco euros a uma chinesa na rua, em dia de temporal.

E intimamente calculo que deve haver um sistema transcendental de trocas directas entre chapéus de chuva e emoções fortes. É isso, de certeza.

24.11.06

Anatomia de um Crime

Fim do mês, escasseia o dinheiro. Trinta euros na conta significa apertar o cinto - e tudo por culpa de dois telemóveis perdidos [esquecidos] em Dezembro, repostos com três semanas de diferenças e o merecido sarcasmo da vendedora da Vodafone.

Manhã, passo pelo multibanco para levantar dez euros. Só há notas de 20, peço uma, com recibo, faz favor. O papel não me elucida sobre o saldo disponível, a caixa dá-me dinheiro mas não sabe quanto tenho.

Saio e páro na rua.

Volto atrás.

Introduzo o cartão, marco o código e carrego na tecla dos levantamentos. Cem euros. Espero um segundo. Oiço o barulho mágico das notas a serem contadas. Deseja recibo? Nem pensar, é melhor não abusar da sorte.

Chama-se a isto assaltar um banco, em versão pós-moderna.

23.11.06

Caderneta de cromos

Foi uma semana intensa, pelo Porto e Trás os Montes. Na Invicta fiquei a dormir no 15º piso do edifício mais alto da cidade e, provavelmente por isso, senti vontade de escrever no arranha-céus. Mas não tinha internet nem tempo. Melhor viver que analisar, de qualquer maneira. Grande jantarada em casa da Paula, mais uma ida ao Maus Hábitos e ao Passos Manuel. Noite portuense rules.


Assim que cheguei a Montalegre enfiei-me no «Bar Pub A Noite» com o meu companheiro de viagem. Era noite de karaoke e, após três minutos de hesitações, lá nos pusemos a cantar Paulo de Carvalho e José Cid para uma audiência de características eminentemente rurais [que é como quem diz: um par de cromos a cantar para um bando de labregos]. O resto foi paisagem, boa comida, trabalho e muita conversa.


Chegada a Lisboa, directíssimo para o Jamaica. Home sweet home. Um tipo que trabalha lá na discoteca andava a recolher assinaturas para restaurar o prédio. Obcecado, não largava a caneta e o papel. Ao lado, uma velha loira, de óculos escuros, a dançar como se não houvesse amanhã. A pista era dela. E ainda um tipo do Porto que nos seguiu para o dance floor e me andava a perguntar onde é que podia encontrar umas raparigas de vida fácil. Não se contentava com o Não Sei que lhe atirava e só me largou quando lhe disse: «Sai da porta, vira à direita e segue o teu caminho» [afinal, o Cais Sodré é o Cais Sodré].

Ai, ai, esta cidade é de loucos.

13.11.06

Rio manso

Entre Março e Maio deste ano desdobrei-me em viagens de cacilheiro. Andava em reportagem na Margem Sul e, se bem que podia pedir requisições de táxi na redacção, preferia descer do Principe Real ao Cais Sodré a pé para depois flutuar pelas águas do Tejo até à outra margem.

Apanhava todos os dias o mesmo cacilheiro - o Sintrense - e sorria inevitavelmente a pensar que as tágides me andavam a abensonhar o trabalho. Não fosse eu filho do monte da lua, saloio de gema, serrano por vocação. Não embarcava sempre à mesma hora, mas a verdade é que era sempre o Sintrense que ali estava à minha espera. Como se de profecia ou destino se tratasse.

Uma vez, no regresso, o lusco-fusco manchava o céu com o sol no meio dos dois pilares da ponte. Outra vez, também no regresso, vi o Tejo mar prateado com luar espelhado nele, lua da minha serra a bordo do Sintrense, vagas calmas, embalar doce.

Sábado, dores de estômago, entoxicação alimentar apanhada na véspera, na Cantina do Baldracca com spaguetti alle vongolle. Saí de casa para apanhar o fresco e meti-me no metro para o Cais Sodré. Sentei-me no muro diante das águas, mal-disposto, tristonho. E, diante do Tejo com a lua aparecer, senti-me em casa, como se a minha mãe me fizesse festas quando fui operado à garganta, ou se passasse os dias comigo no hospital daquela vez que caí dum segundo andar e esmigalhei o braço direito.

Quando cheguei a casa, sentia-me muito melhor.