3.4.08

Bens perecíveis



Toca o telefone. Era noite, fez-se Dia.
«Olá, estás sentado?»
«Nop, estou na rua.»
«Senta-te.»
Sentei.
«Tenho um frigorífico para ti», disse ela.
Levantei.
E comecei as celebrações ali mesmo.

Nos últimos dois anos, vivi sem frigorífico. Habituei-me a ir ao supermercado se queria alimentos frescos, tornei-me rei dos enlatados, comprava leite em pacotes pequenos, de criança, zero vírgula dois litros de mimosa e nem mais uma gota. Fiambre nem pensar, queijo só se for da vaca sorridente, soja em vez de carne picada, vinho tinto no lugar das jolas. Dois anos assim, sem sopa.
Não é que me custasse particularmente viver sem frigorífico. O ser humano tem uma adpatabilidade extraordinária. Toda a gente sabe que não há frigoríficos em África, que no lote de bens essenciais - realmente essenciais - um frigorífico não tem categoria. Mas este domingo, a meio da tarde, eu fui buscar o tal bem dispensável. Weeeeeeeeeeeeeeeeeeee.

A Dia a conduzir com o João ao lado, eu e o Jordi na parte de trás da carrinha. Solavancos, solavancos, subir ao quarto andar de mãos nos bolsos e descê-lo de frigorífico nas mãos. Entretanto, a salvadora da refrigeração oferece-me um pano de loiça com um galo de Barcelos. Coloco-o na cabeça. Xutos. Ela vai registando o momento para a posteridade. Reina festa. A-LE-GRIA!!!



Ainda antes de chegarmos a América, de eu e o Jordi pormos o frigorífico no elevador para subir ao décimo piso - onde viverá feliz para sempre - paramos no Pingo Doce. É a festa do alimento perecível. Compro alface, carne para congelar, queijo e fiambre, iogurtes, sacos para fazer gelo, garrafas de vinho branco, cerveja, leite, manteiga, mostarda Dijon, sopas da Knorr [não em pó, mas líquida, daquelas pré-cozinhadas]. Deixo-me nitidamente levar pelo momento e gasto uns valentes €61,16 em coisas que se podem estragar, mas depois a Dia chama-me à atenção que o número é uma capicua e isso só pode ser um óptimo presságio. Seja.




Quando finalmente retorno a casa, decido baptizar o frigorífico de Fred, a Dia e o João trazem-me os sacos de compras e fumamos todos um cigarro [ok, não era exactamente um cigarro] para comemorar o momento. Limpo o Fred, ligo-o à ficha e rio de felicidade.

Agora, tudo é possível.

E ainda por cima está a chegar o Verão.

11.3.08

Cure for pain



Eu tinha o bilhete comprado desde Novembro e acordei feliz no sábado. Mandei mensagens a quem ia comigo. Disse «Show me how you do it, and I promisse you, I promisse that, I'll runaway with you». Angariei mais fugitivos. Sete da noite, imperial. Oito e meia, pavilhão atlântico. Weeeeeeeeeeeeeeeee.

Mr. Robert Smith está um pouco mais gordo. Mas a voz, inconfundível, preserva truques de ilusionista. Quantas memórias acumuladas nesta sonoridade? Viagens e dores e romances e melodramas e amigos e praia e tudo.

Mr. Smith também gostou do concerto. Cantou durante mais de três horas, dançou como nunca, avançou até à frente do palco para partilhar emoções com a plateia. E foi precisamente nesse momento, um dos mais íntimos do concerto, que chegou a perplexidade.

Robert Smith estava no limite do palco, encostado ao público, a cantar de mão estendida para a massa. Oferecia a mão e a alma, num gesto que é pouco habitual nele. Ninguém, quase ninguém, lhe estendeu a mão. Em vez de se deixarem ir, de se entregarem à empatia do momento, os que estavam na frente do palco preferiram erguer os telemóveis e gravar essa fabulosa magia de Mr. Smith.

Ele de braços estendidos ao público e o público de telemóvel estendido a ele. Não pude deixar de pensar que isto é um sinal dos tempos. Seja a gravação para mostrar aos outros ou para ver mais tarde, é uma estranha mediação. Toda a gente preferiu gravar a magia do que vivê-la. Que raio de tempos estes.

5.1.08

A divina comédia

Ano novo em Berlim foi banho de urbanidade. Martin Parr iluminou-me os dias, depois de ver a exposição dele no C/O Berlin, uma velha estação de Correios no Mitte agora transformada em centro de fotografia. Esta imagem é dele. Não estava exposta em Berlim e no entanto tem doses precisas de ironia e ridículo. Isto é um grupo de turistas no Ground Zero, em Nova Iorque.

Muito curtidos, estes dias de berliner. Dançar numa festa de house num edifício ocupado, mergulhar nos restaurantes turcos, libaneses e japoneses de Kreuzberg, curtir a vanguarda em Prezlauer Berg, saltar de ano no telhado de um prédio de oito andares, frente a Centralpark, e assistir a uma verdadeira guerra civil de fogo de artifício durante uma dúzia de minutos. Fazer festa luso-brasileira-alemã noite dentro.

O pior foi depois. Às cinco da manhã do dia 1 de Janeiro de 2008 rumei ao aeroporto de Snhonefeld, disposto a manter uma postura respeitável e confiante (o que de facto viria a conseguir fazer, pelo menos até momento em que me sentei no avião. Ahhh, mesmo à justa.)

Uns minutos depois das dez da manhã cheguei a Lisboa. Fui tomar o pequeno-almoço à avenida de Roma e observei os restantes madrugadores. Havia as senhoras e os senhores de chapéu, extremamente acordados, algumas famílias completas, demasiado bem-dispostas, os últimos boémios da festa, a caminho de casa. Percebi-os melhor do que aos outros. E percebi que odeio pessoas bem-dispostas e acordadas nas manhãs de 1 de Janeiro.

11.12.07

Última hora


A ASAE decidiu fechar por tempo indeterminado a fábrica de brinquedos do Pai Natal. Às quatro horas da madrugada de ontem, ocorreu a operação Dar nas Vistas, que levou mais de 700 polícias, cães polícias e inspectores de gabardina a uma aldeia perdida da Lapónia.

Além das autoridades terem identificado 14 duendes menores de idade, foram detidos 29 gnomos sem visto de trabalho, oriundos da Turquia, Geórgia e Bielorrússia. O próprio São Nicolau foi acusado de cozinhar bolo-rei com uma colher de pau [que como toda a gente sabe é um atentado às regras de segurança alimentar da União Europeia] e ficou com termo de identidade e residência.

Mary Christmas, a mulher de Santa Claus, ficou detida em prisão preventiva com suspeitas de gerir um discreto bordel de Barbies para lenhadores e condutores de trenó finlandeses. O tribunal decretou que Mary, que em certos meios é conhecida como Madame X, não pode ter direito a fiança.

Entretanto, José Sócrates decidiu abrir um processo disciplinar ao Pai Natal, por ter comentado com um duende infiltrado que o primeiro-ministro português não conseguiria correr, «nem que se esfalfasse todo», a maratona de Ano Novo da Lapónia. O caso já está a ser avaliado pela DREN.

10.12.07

Pretérito perfeito

Por estes dias, Lisboa parece uma obra embargada. Não há luzes de Natal no Rossio, os taipais vanguardistas do Cais da Coluna já pouco disfarçam a inutilidade do Terreiro do Paço, o comércio tradicional recusa abrir portas ao domingo, mesmo que estejamos em período de vendas e as grandes superfícies sejam obrigadas a fechar. Rua Augusta sem mimos. Bairro Alto sem boémios. Nem um grito audível na rua quando o Benfica marca golo.

Pausa, Lisboa em suspenso.

Percorro a rua da Escola Politécnica sem ver vivalma. Ligo para dois ou três amigos, ninguém quer desbravar a urbe. Vou beber um chá, o Cister está fechado. De repente, descubro um tasco que a ASAE ainda não localizou, entro, sento-me, um moscatel. O último fio de luz ilumina o rosto da rapariga que está sentada à minha frente. Não é bonita, mas não consigo desviar os olhos dela. Está mergulhada na penumbra e um clarão de lusco-fusco incendeia-lhe o olho direito. Ela sorri-me, não com os lábios [consigo lá vê-los], mas com pestanas e sobrancelhas.

«Olá Ricardo, lembras-te de mim?»

Susana.
Colega da secundária, na altura uma espécie de cheerleader da turma. Gira, cheia de convicções, um terramoto de 16 anos. Agora aqui, à espera de coisa nenhuma. Os anos arredondaram-lhe o corpo mas preservaram-lhe a luminosidade do esgar. Estava na mesma. E isso significa que não se aparentava com nenhuma imagem que eu pudesse guardar do passado.

Desfiámos meia dúzia de memórias, pedi outro moscatel e ela acompanhou-me. Estava a trabalhar na cimeira, agora vive em Bruxelas, trabalha para a União Europeia. Contei-lhe das pessoas que ia vendo e das que nunca tornei a pôr olho em cima, queixei-me da cidade estar em ruínas e de nenhuma outra capital guardar alma de marinhagem.

Despedimo-nos com trocas de e-mail e promessa de nos mantermos em contacto. E, no exacto momento em que saímos para a rua, acenderam-se, muito embora tivessem forma de laçarotes e fossem de um gosto duvidoso, duas filas inteirinhas de luzes de Natal.

5.12.07

Sobre a bruma


1.
Dou por mim a atravessar a praça da Figueira e percebo que não se vê o outro lado da rua. Sumiu toda a gente, a puta anã, as colegas desta, os polícias da ronda, os taxistas que costumam adormecer na praça. Há um silêncio esmagador em Lisboa desde que esta névoa fenomenal se abateu sobre a cidade. Metrópole sem contornos, desfocada, vazia de gente e repleta de vultos. Dou por mim a pensar que isto não é nada de novo. Uso óculos, caramba. Sem eles, Lisboa é névoa constante.

2.
A minha janela na América oferece moldura sobre urbanidade em frente, grande arquitectura à esquerda, desafogo verde à direita, rio atrás. Mas hoje subi arranha-céus acima e tudo o que vi na pintura foi bruma branca. Ahh... Estou nas nuvens.

3.
Quando estava em Maputo, senti exactamente isto. Também em Londres, uma noite há uns anos. E em Sintra, este fim de semana. A realidade, exterior a nós, prega partidas e obriga a fazer testes. Agora estás sem luz em Moçambique, porque houve um apagão. Sem chapéu de chuva em noite de copioso dilúvio londrino, sem casaco no monte da Lua. Sem ver um palmo à frente do nariz nesta cidade encantada. Avanças e superas-te? Ou escondes-te e resguardas-te?

4.
Venda-me os olhos. Dá-me a mão. Anda.

5.
Como foi acontecer isto? Perdi-me na névoa [terei sido engolido?], deixei de saber onde estava, mergulhei de uma vez por todas na cal etérea das nuvens. Outono em Lisboa, que maravilha. Três da manhã, bem bom. Não vejo nada. E no entanto sinto tudo.

11.11.07

This is Maputo


O avião atrasou-se. Eu vinha de Niassa e devia ter chegado ao Maputo ontem mesmo, dia 10, pelas 23h30. Mas, de Lugenda à antiga Lourenço Marques, avioneta fazia paragem em todas as estações e apeadeiros. Pemba, Nampula e cosmopolitismo uma hora depois do previsto, já dia 11, meia hora depois da cinderela se ter transformado em abóbora.
Era feriado e sábado à noite, de qualquer maneira. Primeiro, um táxi para a Feira Popular, comer camarão grelhado, admirar carrocel e roda gigante, conversa boa com duas amigas mais o meu companheiro de vagem.
Três laurentinas fresquinhas depois, comecei a interrogar-me porque motivo o rádio do restaurante tocava mais alto que a grafonola dos carrinhos de choque.
«Bem», disse dona Natércia, «o Maputo faz hoje 120 anos que foi declarado cidade. Tem festa grande na Praça da Independência e estão a transmitir tudo em directo na rádio». Ok, queremos a conta e seguimos para o fim do colonialismo.
Festa rija. Praça cheia com uma claríssima escuridão. Quatro brancos na paisagem, nem mais um. Gente a dançar empoleirada nas árvores, muito maputense a meter conversa, e o raio da laurentina a vir parar-me às mãos - uma, outra, tanta.
À minha volta, só via rodar garrafão de tinto, cigarro de sorriso, mulata de braço em braço. E cantoria de braço levantado, viva o Maputo viva, abraços e amigos num instantinho de sempre, rodas de dançarina, corpos deitados no chão, o dia a raiar.
Tive que correr num foge-foge. Novo voo às 6h30, agora para Bazaruto, e o tempo a escorrer-me dos dedos, não queria, não podia ir embora.
Saí sim, teve que ser. Mas volto já num instantinho e sei com certezas absolutas que hei-de ter saudades para sempre. É estranho. Pensava que ia estranhar urbanidade em África, imaginava magia do continente com exclusividade no mato e na praia.
Mas a minha renitência com o Maputo está como o açúcar para o chá: dissolve-se.

19.10.07

Na diáspora

A noite de ontem foi B.Leza. B.Leza no Music Box, que o velho convento encerrou mesmo portas e o melhor clube lisboeta de música africana funciona agora em formato itinerante. Seja, desde que haja festa.

Houve sim, festa grande.

Muita gente conhecida debaixo da ponte do Cais Sodré. Músicos tantos, jornalistas mais, dançantes imensos, tantos.

Entrei de braço dado com duas damas bonitas, Sophy e Suzana, dancei africanidade até ser tão tarde que já era cedo. Não fui o único. À volta havia bater de ancas ao ritmo da morna, sôdade, sôdade, Lisboa a crioular-se outra vez.

O B. Leza fechou portas mas resiste na diáspora. Volta depressa.

Photolog

Aos meus amigos não lhes basta fotografar o mundo. Bastos puros, também querem editar trabalho com as regras deles. Fazem muito bem.

A mim resta-me a recomendação e os trabalhos conjuntos.

Vão lá, vão espreitar os blogs fotográficos dos melhores bate-chapas aqui da praça: Jordi Burch e Joaquim Gromicho

11.10.07

Âmbar


Ela ali, dois bancos à frente de mim no eléctrico, em viagem de jornalistas por Praga. Ali, charme e glamour, virada para trás a piscar-me o olho, depois a conversar, namoriscar palavras e afagos, sussurrar boémia ao ouvido. Romance de Verão depois dos 30.

- Sou a Amber,
jornalista de Nova Iorque, bela e inteligente, ousada, meio louca, muito cool.

- És de Portugal. Explica-me lá como é que vocês organizam um campeonato da Europa de futebol, perdem a final com a Grécia e depois elegem um primeiro-ministro chamado Sócrates?

Gargalhadas durante uma semana. Fugir dos outros para andar de carrinhos de choque, comprar uma garrafa de champagne e bebê-la no castelo de Praga com céu estrelado, preferir privacidade de pensão de três pulgas às cinco estrelas do resto da comitiva.

Mas agora só sobra o advento da internet e dos sms, mas um Atlântico inteiro de distância.

Quando inventam o raio do teletransporte?

6.10.07

A banda


Santiago de Chile, 2006


.

3.10.07

O anjo da guarda

Era Maio e eu tinha perdido o meu Moleskine. Numa noite de copos, claro, e à saída da casa de amigos no Princípe Real. Entrei num táxi e encostei a cabeça para trás, as luzes de Lisboa a rodopiarem a média velocidade, zonzo, gozo, giroflé giroflá. Quando cheguei à América paguei os seis euros do costume mas deixei o caderno em cima do banco. Pensei que nunca voltasse a ver o meu Moleskine. Era Maio, início do mês.

No Moleskine escrevo sempre com caneta preta. E isso significa que não estou a escrever para mais ninguém. É só para mim, são páginas de anotações do meu próprio diário, impartilháveis, emoções e desgostos e alegrias e coisas assim.

Setembro, pelo Porto outra vez, e toca o telemóvel: «Olá, o meu nome é José António Castel-Branco e encontrei um caderno seu na rua. Tinha o número de telefone escrito. Não li mais nada. Posso devolvê-lo quando quiser.» Sexta-feira, quando voltar a Lisboa. Às cinco em frente da Brasileira do Chiado, está combinado.

Sexta feira de Setembro, cinco menos cinco, telemóvel a tocar outra vez: «Fala António José Castel-Branco. Já aqui estou em frente à Brasileira. Vai-me reconhecer logo, tenho uma camisa aos quadrados verdes e uma guitarra na mão.» Ok, estou a chegar. E estava.

António José Castel-Branco estava a tocar Let it Be para os clientes da esplanada da Brasileira. Vi-o logo que saí da boca de metro no Chiado, a tal camisa, as calças rasgadas, um boné vermelho da Vodafone na cabeça, a barba mal amanhada e os olhos bondosos. Aproximei-me e esperei que acabasse a música. Depois ele confirmou a minha identidade, abriu o saco da viola e retirou o Moleskine preto, o meu diário de bordo perdido há quatro meses e finalmente reencontrado.

Perguntei-lhe em que raio de geografia se tinha dado tal achamento e ele respondeu que o tinha encontrado num caixote de lixo do Chiado, quando andava à procura de comida. António José Castel-Branco revelou-se sem-abrigo. E boa alma, também.

«Sabe», disse-me ele, «pensei rasgar as páginas escritas e aproveitar o caderno para as minhas canções. Mas depois achei que não se pode roubar a poesia a um poeta.» Então afinal sempre leu o que tinha escrito? «Não.» «Bem, na verdade li um pouquinho.» «Para ser absolutamente sincero devorei tudo. E gostei muito.» Obrigado.

Perguntei-lhe se queria uma cerveja. Não queria. Quer vir lanchar? Não quis. Então vou andando, obrigado por ter devolvido o meu tesouro. Comecei a andar. Quando dobrei a esquina, virei-me para trás e já não o vi, parecia ter-se esfumado Chiado acima.

Abri o caderno para matar saudades de mim mesmo, em registo de palavras sem público. Encontrei lá dentro um poema, com data e assinatura de António José Castel-Branco, rimas sobre Lisboa, a noite e os vagabundos.

Não fosse ter na lista de contactos o número de um sem abrigo com nome fidalgo e telemóvel, e ainda hoje estaria a pensar se não teria sido visitado pelo fantasma de Fernando Pessoa.

21.8.07

East is East


Há um ano estava aqui, em Halong Bay, a dar mergulhos no mar da China, fazer canoagem em grutas aquáticas, trekking em Puc Huong, reportagens no meio de nenhures. Há um ano, no Vietname, havia bandeiras espalhadas por toda a parte, eu estava a sentir-me repórter como nunca antes, a curtir viagem com história e, agora, memória.

Cheguei há dias da Europa de Leste. Este ano como no passado, o rumo apontou ao Oriente, onde o Sol nasce. Que continue assim.

19.7.07

Dá-lhe gás


Na estação de serviço de Vila Velha do Rodão, a meio caminho entre Abrantes e Castelo Branco, vendem-se todo o tipo de improbabilidades. Um mapa dos arredores de Sintra, por exemplo.

O caso não seria estranho, não fosse o facto da mesma estação de serviço não ter qualquer mapa da Beira Baixa e de não se conseguir encontrar um mapa dos subúrbios de Sintra em nenhuma estação de serviço dos subúrbios de Sintra.

Para que raio precisa um habitante de Vila Velha do Rodão de saber onde fica Pexiligais, a Tapada das Mercês ou a Serra das Minas?

2.7.07

24 hour party people


Quem por estes dias se detenha diante de qualquer parede do Bairro Alto, do Cais do Sodré ou de Santos, rapidamente constata a febre de festa que anda a assolar a cidade. Há festivais de Verão em barda, os melhores DJ's do mundo, beach parties, pool parties, festas trance, electro, punk, pimba, 80's, drum&bass, r&b, cidade&arredores. Há festa na aldeia.

Ninguém escapa ao contágio. Pessoalmente, quero ir ao Festival de Músicas do Mundo, ver Underworld e Scissor Sisters, Gotan Project e não digo que não às festas de São Lourenço em Tourém, concelho de Montalegre, Trás os Montes. A maior parte dos meus amigos também tem destinos definidos. E os conhecidos e os que nunca vi em parte nenhuma. Chega o Verão e Portugal precisa urgentemente de se embriagar.

O fenómeno não deixa de me arrepiar os pêlos. Estamos em plena crise económica, ninguém consegue atravessar a Baixa lisboeta sem que lhe cravem dois ou três ou oito cigarros num percurso de dez minutos [a propósito, os pedidos são cada vez mais exigência. No outro dia disse a um tipo «não» e ele perguntou «mas não porquê», outra vez respondi a um rapaz «só tenho um» e ele retorquiu com «também é só um que eu quero»], as pessoas andam mais agressivas, mais enrezinadas e mais ressabiadas. Mas chegou a altura das festas e não há quem não se sinta obrigado a cumprir o mais pós-moderno dos rituais portugueses. Nasceu na última década uma Partyland. Mas tenho dúvidas se estamos na terra da party people.



Tenho normalmente essa sensação às sextas e sábados à noite, no Bairro Alto [evito cada vez mais incursões a estes dias]. Observem-se mitras, betos, nherfs e pseudointelectuais de esquerda para constatar o facto. Passam grande parte da semana isolados e chega o fim de semana e decidem: «Hoje vou divertir-me!» Então invadem o bairro, anestesiam-se com álcool ou substâncias psicotrópicas para que, da meia-noite às seis [sete, oito] da manhã se divirtam. O problema é que decidem previamente a sua diversão, planeiam-na num horário e num formato pré-definido. É a morte da espontaneidade, com ilusão de grande festa.

Não tenho nada contra noites bem regadas ou aditivas. Nem quero ser moralista ao ponto de pensar que quem sai à sexta e sábado é obrigatoriamente assim. Só me espanta a febre de party-goers que se assumem como tal nesta cidade, quando ainda há uns dias vi um tipo meter-se com uma série de gente no Bairro, com tiradas realmente cómicas e geniais, de uma forma descomplexada, como se estivesse em festaconstante. Reparei que a maior parte das pessoas com quem ele se metia o ignoravam ou lhe respondiam com a típica sobranceria lisboeta.

Ninguém percebeu que esse tipo estava a oferecer passaportes para a grande festa. Mas era uma festa espontânea, verdadeira, fora de formato.

8.6.07

Pura vida

Passa uma semana de calor tórrido e chega feriado com céu de ameaça. Pode chover, pode ficar nublado, pode chegar vento, pode vir frio.

Mas não ficou.

Bandeira verde na praia da Mata é presente raro. Sintrense está habituado a mares agitados, brisa que se torna ventania num instante, instantinho. Na minha praia de sempre, a Adraga, verde foi visão de bandeira por duas ou três vezes - não num Verão, numa vida inteira. E ontem tive ondulação de senhoras. Mergulhar, mergulhar.

Veio Lisboa toda. Parecia saída da noite anterior, os mesmos rostos que foram ao Soft e ao Lux mas agora espojados na areia. Vai caiprinha? Vai. Caracóis? Sim. Melhor irmos jantar. Está bem.

Passei o sábado passado no Sado, num galeão com amigos [era a despedida de solteiro do Ric, que, inconscientemente, me convidou para padrinho. Está louco] a ver golfinhos, dar mergulhos, beber vodkas ao fim da tarde. Depois fomos comer canivetes a Setúbal, ameijoa, berbigão. Não havia choco frito, mas ahhhhhh, é tão bom ter Verão na bagagem.

Ontem mais fiesta, sábado mais praia. Se vier mariscada, melhor. Cerveja, parece-me bem. Dias longos, bonitos, e este ano arrisco-me a ir mais vezes à praia do que nos últimos cinco.

Os costa-riquenhos defendem a teoria da pura vida. Verão constante, verão andante, verão é estado de espírito para manter o ano todo. Seja, já cá estou.

6.6.07

Quase em casa


Junho tem alma de Dezembro. Natal com calor, hemisfério trocado, altura de regressos e congressos entre amigos com história. É reedição de um certo season spirit, agora mais solto, veranil.

A foto é do fim do ano, raiar do dia, alvorada em moca. Festa aveirense até aguentar e estes são os últimos resistentes. Que agora regressam: estão quase em casa. Vem um de Angola, vem. Outro de Espanha, vem. Menina chega da Índia, vem. Estudante volta a Lisboa, vem. Vem todo o mundo e reencontro é na América. Vem festa, vem.

4.6.07

Hell was here

Mr. T. não se costuma meter com ninguém, é um tipo pacato, sereno. Cravo-lhe às vezes mortalhas, outras vezes cerveja e ele nunca recusa. Trabalha no bairro, num bar do circuito boémio. É boa onda, Mr. T.

Ontem à noite Mr. T. foi espancado e partiram-lhe o bar todo. Eram três agressores e usavam blusões dos Hell's Angels. Um disse-lhe isso, «sou dos Hell's Angels», ele respondeu «boa, eu sou do Benfica», e então espancaram-no. Tinha a cara feita num bolo, Mr. T.

A polícia veio, não levou ninguém, parecia ter medo. Os tipos que deram a sova a Mr. T. - um tuga, dois californianos - revelaram em surdina que havia uma concentração deste grupo em Portugal, por estes dias. Mais de 1500 associados dos Hell's Angels chegaram de todo o mundo a Vila Franca de Xira na passada sexta-feira, em segredo, sem ninguém dar por eles. E ontem deram cabo de Mr. T.

Um dos meus escritores preferidos chama-se Hunter S. Thompson [se alguém viu o filme «Delírio em Las Vegas» saiba que é baseado num livro biográfico dele e que o tipo é a personificação das duas principais personagens. Thompson foi o fundador do Gonzo Journalism e era um alucinado como já não se fazem]e passou um ano em reportagem com os Angels. Andou com o grupo de motociclistas na estrada, assistiu a alguns dos crimes que os tornaram famosos, acabou espancado pelo colectivo de São Francisco.

Sexta feira passada, o inferno chegou a Lisboa e eu só me apercebi disso quando espancaram Mr. T. É certo que eles combinaram o encontro em surdina, mas é igualmente verdade que estão cá. A imprensa não noticiou, a polícia não se apercebeu, nada!

Já estão de partida - mas, fuck, como raio é que eu não fiz uma reportagem com eles?

29.5.07

Dar uma geral

Em Portugal trabalha-se mal. Um tipo que seja realmente competente no que faça não é recompensado por isso e um tipo que seja realmente incompetente no que faça não é castigado por isso. Seja no sector público ou em empresas privadas. A gestão de recursos humanos é, neste país, uma piada. Normalmente quem sobe na vida é porque é amigo do chefe, cão de fila ou yes-man. Há excepções, mas esta é a regra.

Em Portugal, muitas das pessoas que ocupam cargos de liderança receiam tanto serem ultrapassadas pelas pessoas mais novas [muitas vezes mais bem preparadas para as exigências profissionais] que muitas vezes bloqueiam o acesso às decisões a quem é bom. Há uma cultura do topo para as bases, quando a produtividade subiria se o processo ocorresse ao contrário. Obviamente.

Em Portugal, os chefes não partilham muitas vezes informação sobre o trabalho a desenvolver. Ouvem-se frases como: «ninguém te paga para pensar», «isso não é da tua competência», «reduz-te à tua insignificância». Ora, partilha também significa partilha de soluções, mas isso é vantagem que não se quer ver.

Em Portugal, não se elogia nem critica o trabalho dos outros, «mete-te mas é na tua vidinha». A excepção é quando aparece um tipo muito bom e que dá muito nas vistas. Aí, as pessoas falam, mas normalmente o sujeito é mais vezes alvo de inveja do que serve de exemplo. Trabalha-se mal em Portugal.

Em Portugal, há uma geração mil euros. Os que nasceram nos anos 70 só raras vezes conseguem ultrapassar esta fasquia – suficientemente modesta para manter condições de vida medíocres, suficientemente acima da média para ninguém criar ondas. É espiral sem fim, viver com mil euros. Até porque não há perspectiva de mudança.

Em Portugal, investiu-se nos baixos salários durante a segunda metade da década de oitenta e primeira de noventa como estratégia de desenvolvimento económico. Mas caiu o muro, veio a globalização e o país ainda não se soube reinventar. Um ministro convida empresários chineses a investirem em Portugal, porque os salários são baixos. O PM aumenta os impostos aos solteiros, aos deficientes e aos que querem morar sozinhos, para ordenar em rebanho de estratégia familiar [e remediada] a sociedade portuguesa. Não há formação profissional, não há aulas para trabalhadores estudantes, não há nada.

Em Portugal trabalha-se mal. E é por isso que eu adiro à greve geral de 30 de Maio. Não só por mim, não só pelos estagiários que enchem as redacções dos jornais a custo zero, não só pelas pessoas que conheço que se esfalfam como jornalistas e ganham menos do que um incompentente que não sai da secretária.

Faço greve porque em Portugal se trabalha mal. Mal demais.

24.5.07

Caos

Tinha directora, já não tenho. Fui nomeado para um prémio de jornalismo, não ganhei. O portátil deu o berro. Não comprei uns óculos novos. Não entreguei o IRS. Tenho que actualizar a carteira de jornalista. É por tudo isto que não escrevo há tanto tempo.

Aiiiiiiiiii

Mas acontecem coisas boas pelo meio. Baloiços e casamentos de amigos e tal.

I'll be back soon with another cartoon.