3.4.08

Bens perecíveis



Toca o telefone. Era noite, fez-se Dia.
«Olá, estás sentado?»
«Nop, estou na rua.»
«Senta-te.»
Sentei.
«Tenho um frigorífico para ti», disse ela.
Levantei.
E comecei as celebrações ali mesmo.

Nos últimos dois anos, vivi sem frigorífico. Habituei-me a ir ao supermercado se queria alimentos frescos, tornei-me rei dos enlatados, comprava leite em pacotes pequenos, de criança, zero vírgula dois litros de mimosa e nem mais uma gota. Fiambre nem pensar, queijo só se for da vaca sorridente, soja em vez de carne picada, vinho tinto no lugar das jolas. Dois anos assim, sem sopa.
Não é que me custasse particularmente viver sem frigorífico. O ser humano tem uma adpatabilidade extraordinária. Toda a gente sabe que não há frigoríficos em África, que no lote de bens essenciais - realmente essenciais - um frigorífico não tem categoria. Mas este domingo, a meio da tarde, eu fui buscar o tal bem dispensável. Weeeeeeeeeeeeeeeeeeee.

A Dia a conduzir com o João ao lado, eu e o Jordi na parte de trás da carrinha. Solavancos, solavancos, subir ao quarto andar de mãos nos bolsos e descê-lo de frigorífico nas mãos. Entretanto, a salvadora da refrigeração oferece-me um pano de loiça com um galo de Barcelos. Coloco-o na cabeça. Xutos. Ela vai registando o momento para a posteridade. Reina festa. A-LE-GRIA!!!



Ainda antes de chegarmos a América, de eu e o Jordi pormos o frigorífico no elevador para subir ao décimo piso - onde viverá feliz para sempre - paramos no Pingo Doce. É a festa do alimento perecível. Compro alface, carne para congelar, queijo e fiambre, iogurtes, sacos para fazer gelo, garrafas de vinho branco, cerveja, leite, manteiga, mostarda Dijon, sopas da Knorr [não em pó, mas líquida, daquelas pré-cozinhadas]. Deixo-me nitidamente levar pelo momento e gasto uns valentes €61,16 em coisas que se podem estragar, mas depois a Dia chama-me à atenção que o número é uma capicua e isso só pode ser um óptimo presságio. Seja.




Quando finalmente retorno a casa, decido baptizar o frigorífico de Fred, a Dia e o João trazem-me os sacos de compras e fumamos todos um cigarro [ok, não era exactamente um cigarro] para comemorar o momento. Limpo o Fred, ligo-o à ficha e rio de felicidade.

Agora, tudo é possível.

E ainda por cima está a chegar o Verão.

4 comentários:

Ricardo Santos disse...

A caixa que mudou o Mundo. Finalmente, fez-se luz na América, uma luz branca e fria que preserva. Já não era sem tempo, tal como o regresso aos textos no blog!

JH disse...

Se soubesse que era preciso um "Fred" para voltar a ler novidades, já te tinha arranjado um. Abraço Rodriguez

Anónimo disse...

Faço minhas as palavras do Rodriguez.
Se soubesse que precisavas de um frigorifico, tive durante meses a fio a companheira do "Fred", a "Wilma" na arrecadação lá de casa, paradinho, sem uso, quase novo.
bjjjjjjjjjjj de saudade
Paula la "tua mulatinha"..eh..eh.eh..

Lina Santos disse...

Saudações ao Fred e ao seu proprietário. Adoro-te, amigo.