23.2.07

Pensamentos itinerantes

A meio da Avenida Almirante Reis, entre a cervejaria Portugália e o centro comercial com o mesmo nome, há uma espécie de vão de escada onde vivem sete sem-abrigo. Vieram todos do Leste da Europa - cinco ucranianos, dois romenos - e fazem-me pensar se a Cortina de Ferro caiu mesmo ou não foi mais do que a ilusão globalizada de um muro em ruínas. Entraram em Portugal ilegais, trabalharam nas obras com salários vergonhosos e sem regalias sociais, foram despejados das casas que alugaram e partilham aquela aldeia de cartão e plástico mesmo no centro da urbe. Estranha comunidade desolada, quotidianos afogados em solidão, muito vinho a aquecer as noites frias da Lisboa invernal.

O centro comercial Portugália é um cenário tão desolador quanto o da aldeia de cartão e plástico. Lojas vazias, um café decrépito, um cabeleireiro africano escondido na sub-cave, um «Independente» falido no oitavo andar. Mas são vistas estáticas, imutáveis, não fosse o pó que se vai acumulando no interior das montras cheias de coisa nenhuma.

Os sem-abrigo, pelo contrário, são a metáfora da condição nómada da raça humana. Caçadores-recolectores de caixotes de lixo e sobras dos outros, preparados para mudar a localização da tribo assim que o mundo lhes exija que se escondam dos olhares dos outros. E, no fundo, nada os prende. Edificaram uma cidade gasosa no meio da cidade de betão e placa.

Há três ou quatro noites seguidas que não durmo em casa. Ando com uma mochila com o que considero essencial - duas mudas de roupa, escova e pasta de dentes, a cera para o cabelo. Ou seja, ando a fazer o meu próprio ensaio nómada, a dormir em casa de amigas, jantar em casa de amigos, visitar a família, registo non-stop. É um interrail urbano, este. Provocar a sensação das férias [andar, seguir, avançar, não há amarras] em quotidiano de rotinas. Quebrá-las, então, ou simular que sim.

É que entre viver numa aldeia de cartão e plástico no meio da urbe de betão ou sentir-me montra de loja que se enche de pó prefiro a primeira. Sentir-me sem-abrigo, em constante viagem. É o meu defeito de fabrico, o meu erro genético. Ou então é só porque não saio de Portugal há cinco meses.

1 comentário:

JH disse...

"são a metáfora da condição nómada da raça humana." só tu!!

bem dito. É essencial foder a rotina. A bem da (verdadeira)sanidade mental.