23.1.07

Os suspeitos do costume


Agora o Porto, eu e o Jordi, equipa maravilha. À primeira reportagem que fizemos, fomos logo ameaçados com uma pistola ucraniana. À segunda, o purgatório e o paraíso de encontrar um bom ângulo [e a recompensa de publicar a história em França]. A terceira deu livro, a quarta deu prémio, a quinta deu para encontrarmos cavalos selvagens no meio da Galiza e conhecer a inenarrável recepcionista de um inenarrável hotel com escadarias de mármore, neons verdes e paredes cor-de-rosa. Alucínio constante, em cânone desafinado.

Agora o Porto, eu e o Jordi, equipa maravilha. Encontrar histórias em Marraquexe, perdê-las em Ouarzazate, subir a Avenida Florida em Buenos Aires - num fim de noite que marcava três da tarde, com garrafa de vinho e canecas compradas na rua, para a ocasião, voltar do Gerês e aterrar numa festa alucinada no terceiro andar da rua da Barroca, jantar esparguete com atum pelo menos uma vez por semana [uma em cada duas que vou jantar com o catalão], discutir o aborto no 40 e 1, conhecer duas queques no Lux e dizer-lhes que não podiam morar naquele prédio do Siza, então se tinham ar de Curraleira...

Agora o Porto, eu e o Jordi, equipa maravilha. O ritual é sempre o mesmo: viagem em angústia para encontrar uma boa abordagem, uns copos, reportagem, reportagem, reportagem, jantar, conversa de vida profunda, mais reportagem, discussão, «desculpa», «não, eu é que peçoo desculpa», reportagem outra vez, insanidade mental em barda, sempre bons trabalhos. Sair de Lisboa atrasado, excepto agora o Porto, eu e o Jordi, equipa maravilha, porque viemos de comboio e esse não dá para «ir lá só a casa fazer a mala, puto».

Agora no Porto, trabalho é, como sempre, simétrica obsessão para mim e para o catalão despenteado. Sofre-se e supera-se e ambos sabemos que havemos de voltar com a inevitável relíquia de ter encontrado uma bela história. A dificuldade de trabalhar com os amigos é puro mito. Siga a festa.

2 comentários:

Anónimo disse...

Apita se sobreviveres e voltares para fazermos uma janta!

pinky disse...

hahahahahaha verdadeiramente inenarrável! o que eu adoro essa palavra, fez parte do meu rol de palavras ditas diáriamente, tenho q a recuperar!
ora cá se fica por cá á espera de reportagem, que saia, irreal, inenarrável, e inconfundivel!